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No século XX, as competências de escrita eram fortemente valorizadas e ensinadas na escola, através de métodos tradicionais, como as listas semanais e os exercícios de simulação. No entanto, no início do século XXI, o cepticismo em volta da importância destas competências, inclusive por parte dos educadores e administradores escolares, cresceu significativamente.

Desde a diminuição ou abandono do ensino explícito da escrita, à proliferação de abordagens não-tradicionais de ensino, tem-se registado um interesse crescente em reavaliar o papel da escrita nas sociedades modernas, bem como reconsiderar se esta deve ser ensinada de forma explícita.

Steven Pan, Timothy Rickard e Robert Bjork (2021) procuraram, através de uma extensa revisão da literatura, determinar o papel da escrita na sociedade contemporânea, bem como identificar abordagens pedagógicas eficazes no seu ensino.

 

O que nos diz a literatura sobre a importância do ensino da escrita nos dias de hoje?

De acordo com a literatura, o cepticismo acerca da importância do ensino e aprendizagem da escrita assenta, essencialmente, em três pressupostos: a) a grafia incorrecta não é, actualmente, penalizada; b) as tecnologias automatizam o processo de escrita, reduzindo, assim, a necessidade de se ser um bom escritor; e c) a propagação de diversas maneiras de escrever palavras usadas frequentemente, como as abreviações, eliminam o conceito de grafia correcta.

Citações recentes, publicadas em revistas de educação e na imprensa popular, demonstram, claramente, a desvalorização de que as competências de escrita têm sido alvo nos últimos anos. Por exemplo, um professor de Educação Tecnológica afirmou, numa entrevista, em 2013, o seguinte: “A ênfase na gramática e ortografia, acho um pouco desnecessária. Eram essenciais, talvez há cem anos, mas não agora”. O mesmo professor referiu, ainda, que, “...o meu telemóvel corrige a minha ortografia, portanto eu não preciso de pensar sobre isso”.

Comentários semelhantes seriam, no século XX, encarados com total cepticismo e desagrado. No entanto, embora para a maioria dos investigadores, a importância da escrita permaneça inegável e indiscutível, comentários deste género acabaram por se generalizar desde o início do século, sendo, até, incontestados.

Apesar disso, o problema das competências de escrita abaixo da média não perde actualidade, continuando os professores do ensino primário a sublinhar as dificuldades alarmantes que os seus alunos evidenciam na escrita. Além disso, os professores têm verificado, principalmente em e-mails, um aumento da escrita informal e dos erros ortográficos.

Os erros de ortografia podem acarretar sérias consequências. Na profissão, para além de poderem fazer com que não se seja promovido ou contratado, podem prejudicar, seriamente, a percepção dos recrutadores acerca das capacidades profissionais dos candidatos. Para as próprias empresas e organizações, os erros ortográficos podem, também, ser bastante prejudiciais. Podem levar a que estas percam clientes, diminuam as vendas, correndo, ainda, o risco de serem consideradas menos confiáveis ou, até, fraudulentas.

Mas, as consequências dos erros de ortografia não ficam por aqui. Podem, ainda, afectar a percepção dos leitores acerca dos próprios escritores. Varnhagen, por exemplo, num estudo realizado em 2000, verificou que os alunos do 2º, 4º e 6º ano de escolaridade, avaliaram negativamente os autores de uma história que continha vários erros de escrita. É, por isso, fundamental que se abandone a falsa ideia de que a escrita já não desempenha um papel essencial na sociedade.

 

As competências de escrita na era da verificação ortográfica, correcção automática e mensagens de texto

Um dos problemas mais comuns dos escritores são, desde há muito tempo, os erros ortográficos. O surgimento dos programas de verificação ortográfica, que assinalam os erros de escrita, e sugerem a sua substituição pela forma correcta, bem como dos programas de correcção automática, que permitem corrigir, automaticamente, as palavras mal escritas, parece ter alterado a natureza dos erros ortográficos. Estes programas não são, porém, infalíveis. Além dos erros de ortografia, há outros tipos de erro que eles podem deixar escapar, como por exemplo, os erros de pontuação.

Embora ambos os tipos de programas permitam reduzir a frequência dos erros ortográficos, é importante ter presente que estes não podem ser encarados como uma ferramenta que permite, muito simplesmente, aumentar a qualidade da escrita. 

Além disso, a dependência destes programas pode induzir uma falsa sensação de segurança, culminando numa menor atenção à verificação de erros na escrita. O uso frequente dos diversos meios de comunicação, como o e-mail e o twitter, conduziu à utilização de uma variedade, cada vez maior, de textismos, como as abreviações e os acrónimos. Apesar da preocupação em torno desta tendência, a investigação sugere que esta é exagerada. Por um lado, o uso de textismos não parece influenciar negativamente as capacidades de escrita. Por outro, a maioria dos escritores apenas os usa em ocasiões informais.

As competências de escrita devem continuar a ser ensinadas?

De acordo com a literatura, os professores seguem, actualmente, uma das duas principais abordagens para o ensino da escrita: a) a instrução explícita, também conhecida como abordagem formal ou sistemática; e b) a instrução incidental, conhecida, também, como abordagem informal ou naturalística.

A instrução ou ensino explícito consiste na realização de actividades pré-planeadas, centradas na ortografia, como por exemplo estudar palavras escritas através de uma lista. A instrução ou ensino incidental envolve, por sua vez, a aprendizagem da grafia das palavras escritas através da aprendizagem de outros conteúdos, como por exemplo, das disciplinas de História e Ciências.

O ensino explícito é, há mais de quatro séculos, a forma mais comum de ensino da escrita. Contudo, e apesar de o ensino incidental ser mais recente, tem-se registado uma tendência crescente para a adopção desta abordagem, desde os anos 70. No entanto, ainda hoje se coloca a seguinte questão: “Qual é a melhor abordagem para ensinar os alunos a escrever?”

Graham, em 2000, desenvolveu uma extensa revisão da literatura para responder a esta questão, concluindo que o ensino incidental deve complementar o ensino explícito, sendo as vantagens deste último bastante claras: a) a leitura pode conduzir a uma aprendizagem natural da escrita, mas os resultados dessa aprendizagem não são comparáveis aos da instrução propriamente dita; e b) a escrita melhora a ortografia.

A eficácia do ensino explícito tem sido corroborada por diversas investigações. Mas, quais são os métodos de ensino explícito mais eficazes? Speller (1919) foi o principal responsável pelo desenvolvimento da abordagem de ensino explícito da escrita.

Esta abordagem resultou no uso de dois métodos de ensino considerados, actualmente, robustos e sustentados pela evidência: a) a prática distribuída (também conhecida como efeito de espaçamento), através da qual a aprendizagem ocorre em várias sessões, permitindo, por exemplo, melhorar a capacidade de os alunos recordarem os conteúdos aprendidos; e b) a prática de recuperação, a partir da qual os alunos, depois de estudarem uma determinada palavra, tentam escrevê-la e, em seguida, verificam se o fizeram correctamente.

Este método permite uma aprendizagem consistente e duradoura.

A insatisfação dos professores com as abordagens tradicionais, como a realização semanal de testes de escrita, parece ter aumentado desde a década de 1970. De acordo com o que se sabe a este respeito, as críticas residem, por exemplo, no facto de estas abordagens não motivarem os alunos e de o formato dos testes semanais conduzirem-nos a um rápido esquecimento.

As críticas às abordagens tradicionais têm, assim, promovido um interesse crescente em substituir estas abordagens.

 

Ensino da leitura: perspectivas alternativas

De acordo com a literatura, as competências de escrita já não consistem, unicamente, em escrever de forma correcta. Segundo a definição actual, as competências de escrita englobam, também, o conhecimento fonológico, morfológico, ortográfico, etimológico, visual e, ainda, a capacidade de usar um dicionário e escrever palavras desconhecidas.

Em conformidade com as perspectivas actuais, o ensino da escrita pode envolver, pelo menos, três abordagens: a) a abordagem fonémica, que se centra no ensino das correspondências letras-sons; b) a abordagem morfémica, que envolve a aprendizagem de unidades de letras com significado; e c) a abordagem da palavra inteira (no inglês, “whole word approach”), que engloba a memorização da grafia das palavras, principalmente das palavras irregulares.

Apesar de estas abordagens serem, geralmente, sustentadas pela evidência, a eficácia das mesmas ainda não está bem estabelecida.

Para dificultar a questão, têm surgido, nos últimos anos, métodos de ensino sem qualquer suporte empírico (e.g., uma lista com dezoito actividades de escrita, recentemente publicada no site comercial ThroughtCo). Apesar de estes métodos não serem propriamente novidade, é fundamental que os professores procurem adoptar métodos de ensino sustentados empiricamente.

 

O papel dos testes de escrita

Embora o uso de testes de escrita tenha diminuído, a sua utilização é, ainda, claramente dominante. De acordo com a literatura, os testes de escrita podem ser usados para fins pedagógicos ou de avaliação. Podem ainda ser administrados em vários formatos e em diferentes fases da aprendizagem.

Existem três tipos de testes que se destacam, particularmente, no ensino da escrita: a) os pré-testes, realizados antes de qualquer actividade de aprendizagem ter ocorrido e que têm como objectivo avaliar os conhecimentos dos alunos; b) os testes práticos, através dos quais os alunos colocam em prática o que aprenderam; e c) os pós-testes, também conhecidos como teste final e que são usados para avaliar a aprendizagem resultante das actividades de instrução implementadas na sala de aula.

PRINCIPAIS IDEIAS A RETER:

  1. As competências de escrita continuam a ter um papel importantíssimo, no século XXI.
  2. O ensino explícito da escrita é o mais adequado e eficaz para a aprendizagem desta competência.
  3. Apesar das críticas de que são alvo, alguns aspectos das abordagens tradicionais, como a utilização de testes de escrita, são, ainda hoje, válidos e dominantes.

Referência Bibliográfica: Pan, S. C., Rickard, T. C., & Bjork, R. A. (2021). Does spelling still matter—and if so, how should it be taught? Perspectives from contemporary and historical research. Educational Psychology Review, 1-30.

Valerá a pena continuar a ensinar os alunos a escrever?

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AUTORES

João Lopes

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João Arménio Lamego Lopes dirige o projeto AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto (1981), Mestre em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento (Universidade do Porto, 1991) e doutorado em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho (1996). Professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho desde 1995.

Professor Associado com Agregação, da mesma Universidade (2004). Director do Departamento de Psicologia Aplicada (2015-2019) e do Mestrado em Temas de Psicologia da Educação da UM. Director do Programa de Doutoramento em Psicologia Aplicada para os países da CPLP. Presidente do Conselho Cientifico-Pedagógico da Formação Contínua de professores (2014-2018), representante de Portugal no CERI-OCDE (2015-2017) e membro do Conselho Geral do IAVE (2013-2018).

Soraia Araújo

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