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Segundo a OCDE, mais de um terço dos adolescentes sente ansiedade perante a matemática. Essa emoção, que mistura medo, tensão e insegurança, pode comprometer o sucesso académico e até limitar oportunidades profissionais futuras. Mas há boas notícias. Um estudo recente, publicado no Journal of Educational Psychology, identificou intervenções eficazes para reduzir a ansiedade face à matemática e, simultaneamente, melhorar o desempenho escolar.

O que é a ansiedade face à matemática?

Este tipo de ansiedade é o medo ou desconforto que surge em situações que envolvem matemática, desde a aprendizagem em sala de aula até à resolução de problemas no quotidiano. Essa reacção emocional leva muitos alunos a evitar tarefas dessa índole, o que, por sua vez, agrava as suas dificuldades e alimenta um ciclo de medo e frustração.

Dados da OCDE (2012, 2023) indicam que mais de 30% dos adolescentes relatam sentir algum nível de ansiedade perante a matemática, cujo impacto vai além das notas: influencia as decisões educativas e as escolhas de carreira, levando muitos jovens a afastarem-se de áreas que exigem conhecimentos de matemática, como explicado, por exemplo, num estudo de Ramirez et al. em 2018.

Porque surge a ansiedade e como afecta o desempenho?

Existem diferentes perspectivas teóricas sobre a relação entre a ansiedade e o desempenho na matemática:

    O que diz a investigação?

    A investigação de Liu, Peng e Li, publicada em 2025, analisou 51 estudos com um total de 7 673 participantes, entre os 6 e os 25 anos, abrangendo vários continentes e níveis de ensino. O objectivo foi o de identificar quais são as intervenções mais eficazes para reduzir este transtorno e de que modo se pode influenciar o desempenho dos alunos. Os autores focaram-se em três tipos de intervenção para a diminuição da ansiedade:

    1. Intervenções focadas na melhoria dos conhecimentos de matemática: partem da ideia de que a dificuldade e o baixo desempenho causam ansiedade. Por isso, o foco está em melhorar o domínio da matemática por meio de prática estruturada, tutoria individualizada ou ensino assistido por computador.

    2. Intervenções focadas na gestão da ansiedade face à matemática: abordam directamente a ansiedade, os seus sintomas e causas, sem se focarem no ensino ou reforço de conhecimentos. Subdividem-se em duas abordagens:

    • Intervenções fisiológicas: têm como objectivo ajudar os alunos a controlar e a gerir sintomas físicos de ansiedade, como tensão muscular, aceleração cardíaca e outros sinais de stresse. Técnicas como a dessensibilização sistemática (a exposição gradual e controlada a estímulos da matemática geradores de stresse), o relaxamento físico e a respiração controlada ajudam os alunos a gerir as suas reacções corporais.
    • Intervenções na percepção: têm como objetivo transformar a percepção e a interpretação que os alunos têm sobre o próprio desempenho e sobre a aprendizagem da matemática. Algumas estratégias são: a reestruturação de crenças e pensamentos sobre a disciplina; a escrita expressiva, que envolve escrever sobre os próprios pensamentos e sentimentos de forma profunda e pessoal; e a promoção de uma mentalidade de crescimento, que ajuda os alunos a encarar o erro como uma oportunidade de melhoria, e não como um fracasso.

    3. Intervenções combinadas: reforçam os conhecimentos de matemática enquanto promovem estratégias de regulação emocional e de reestruturação cognitiva. Estas intervenções integram as duas abordagens anteriores, dado que o mau desempenho académico e a elevada ansiedade se reforçam mutuamente num círculo vicioso, o que requer ação em ambas as frentes.

    Principais resultados

    • Redução da ansiedade face à matemática:

    Os três tipos de intervenção (com foco nos conhecimentos, na gestão da ansiedade ou combinados) têm eficácia na redução da ansiedade face à matemática, sendo as intervenções combinadas as mais eficazes (g=-1,09), seguidas das intervenções focadas na redução da ansiedade (g=-0,71). Nestas últimas, observou-se que as estratégias cognitivas, como a reestruturação, são mais eficazes e duradouras do que as técnicas fisiológicas. As intervenções focadas apenas na melhoria dos conhecimentos foram as que tiveram o efeito mais modesto na redução dos sintomas de ansiedade (g=-0,37).

    • Desempenho na matemática:

    Quanto aos resultados de desempenho na matemática, apenas as intervenções focadas na melhoria dos conhecimentos se revelaram eficazes. As intervenções centradas na ansiedade e as intervenções combinadas não mostraram efeitos significativos no desempenho medido no imediato.

    O que faz a diferença na eficácia das intervenções?

    O estudo também analisou factores moderadores, isto é, variáveis que influenciam o sucesso das intervenções:

    • Idade: intervenção mais eficaz em crianças e adolescentes do que em adultos;
    • Nível de ansiedade: quanto maior a ansiedade inicial, maior a eficácia da intervenção;
    • Duração: programas de 4 a 8 semanas apresentam melhores resultados;
    • Formato: sessões individuais ou em pequenos grupos são mais eficazes;
    • Agente da intervenção: maior efeito imediato quando a intervenção é conduzida por investigadores, mas professores formados podem obter resultados mais duradouros.

    Conclusões e implicações práticas:

    1. Os resultados sugerem que as dificuldades na matemática podem ser um factor causal para a ansiedade neste domínio.
    2. Os três tipos de intervenção (focadas na melhoria dos conhecimentos, na gestão da ansiedade ou combinadas) são eficazes na redução da ansiedade face à matemática, sendo as intervenções combinadas — as que conjugam o treino de conhecimentos com estratégias focadas na gestão da ansiedade — as mais eficazes.
    3. Contudo, a escolha da intervenção mais adequada deve ser orientada pelas características dos alunos. Para alunos com níveis muito elevados de ansiedade, as intervenções focadas na sua gestão são as mais eficazes na redução dos sintomas. Para estes alunos, a exigência de lidar simultaneamente com a ansiedade e com o reforço de conhecimentos pode representar uma sobrecarga cognitiva, tornando-se contraproducente.
    4. Dentro das intervenções focadas na gestão da ansiedade, estratégias que desenvolvem uma percepção positiva da matemática e a autoconfiança (técnicas de percepção) têm efeitos mais eficazes e duradouros do que exercícios de relaxamento isolados (técnicas fisiológicas);
    5. Embora os resultados sugiram que intervenções focadas na ansiedade e intervenções combinadas não resultam em melhorias imediatas no desempenho académico, este tipo de intervenção pode criar condições emocionais que favorecem o sucesso a longo prazo.
    6. A duração média das intervenções combinadas pode explicar a ausência de efeitos no desempenho dos alunos, pois o número total de sessões dedicado a cada um dos domínios (ansiedade e conhecimentos) poderá ter sido insuficiente para produzir melhorias na aprendizagem.
    7. As intervenções focadas na promoção dos conhecimentos parecem ser a melhor opção, pois são as únicas que comprovadamente melhoram o desempenho académico e, em simultâneo, reduzem (modestamente) a ansiedade.
    8. A eficácia das intervenções parece ser maior em crianças e adolescentes, quando individualizada e conduzida por investigadores. No entanto, as intervenções realizadas por professores têm maior potencial de aplicação na prática educativa.

    Em suma, os três tipos de intervenção (focada na ansiedade, nos conhecimentos ou combinadas) são eficazes na redução da ansiedade face à matemática. Contudo, a escolha da intervenção mais adequada deve ser orientada pelas características dos alunos. As intervenções centradas na promoção dos conhecimentos parecem ser a melhor opção em termos de custo-benefício, tendo efeitos mais duradouros quando realizadas por professores e integradas na rotina escolar.

    As autoras seguem o Acordo Ortográfico de 1945.

    Referências bibliográficas

    Referência principal

    Liu, Y., Peng, P., & Li, S. (2025). How to reduce mathematics anxiety: A systematic review and meta-analysis on intervention studies. Journal of Educational Psychology. Advance online publication.

    Outras referências

    Ashcraft, M. H. (2002). Math anxiety: Personal, educational, and cognitive consequences. Current Directions in Psychological Science, 11(5), 181–185.

    Ashcraft, M. H., & Krause, J. A. (2007). Working memory, math performance, and math anxiety. Psychonomic Bulletin & Review, 14(2), 243–248.

    Carey, E., Hill, F., Devine, A., & Szücs, D. (2016). The chicken or the egg? The direction of the relationship between mathematics anxiety and mathematics performance. Frontiers in Psychology, 6(1), Article 1987.

    Eysenck, M. W., & Calvo, M. G. (1992). Anxiety and performance: The processing efficiency theory. Cognition & Emotion, 6(6), 409–434.

    Hembree, R. (1990). The nature, effects, and relief of mathematics anxiety. Journal for Research in Mathematics Education, 21(1), 33–46.

    Hunt, T. E., & Maloney, E. A. (2022). Appraisals of previous math experiences play an important role in math anxiety. Annals of the New York Academy of Sciences, 1515(1), 143–154.

    Lai, Y., Zhu, X., Chen, Y., & Li, Y. (2015). Effects of mathematics anxiety and mathematical metacognition on word problem solving in children with and without mathematical learning difficulties. PLoS ONE, 10(6), e0130570.

    Maloney, E. A. (2016). Math anxiety: Causes, consequences, and remediation. In K. R. Wentzel & D. B. Miele (Eds.), Handbook of Motivation at School (2nd ed., pp. 408–423). New York, NY: Routledge.

    OECD. (2023). PISA 2022 results (Volume II): Learning during – and from – disruption (OECD Publishing).

    Ramirez, G., Shaw, S. T., & Maloney, E. A. (2018). Math anxiety: Past research, promising interventions, and a new interpretation framework. Educational Psychologist, 53(3), 145–164.

    Samuel, T. S., & Warner, J. (2021). “I Can Math!”: Reducing math anxiety and increasing math self-efficacy using a mindfulness and growth mindset-based intervention in first-year students. Community College Journal of Research and Practice, 45(3), 205–222.

    AUTORES

    Célia Oliveira é Doutorada em Psicologia Experimental e Ciências Cognitivas pela Universidade do Minho, com uma tese sobre o papel de processos atencionais na Capacidade Memória Operatória. Pela mesma universidade, licenciou-se em Psicologia com pré-especialização em Psicologia Escolar e da Educação, e completou um Mestrado em Psicologia Clínica.

    Atualmente é docente na Universidade Lusófona do Porto, onde é responsável por unidades curriculares no domínio da Cognição (Psicologia da Memória e Psicologia da Atenção) e da Psicologia da Educação (Psicologia da Educação e Psicologia Escolar). É membro do HEI-Lab - Digital Human-Environment Interaction Lab, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, e integra o Grupo de Investigação em Problemas de Aprendizagem e de Comportamento, do Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho. Os seus interesses e atividade de investigação contemplam os domínios da Aprendizagem, Atenção e Memória Humana.

    Detém experiência continuada de prática clínica com crianças e adolescentes, e tem exercido atividades de consultoria científica em projetos de investigação, bem como consultoria técnica em contextos de atuação comunitária.

    Raquel Pinto é doutorada em Psicologia Básica pela Escola de Psicologia da Universidade do Minho, tendo concluído o seu doutoramento em 2024 com investigação centrada nos processos de memória humana, nomeadamente no papel da atenção na transmissão e na recordação de informação. Pela mesma instituição, concluiu o Mestrado Integrado em Psicologia em 2017. Atualmente integra o Programa AaZ – Ler Melhor, Saber Mais, o Grupo de Investigação em Problemas de Aprendizagem e de Comportamento e o Grupo de Investigação em Memória Humana, do Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho, colaborando em projetos dedicados ao estudo da aprendizagem, da atenção e da memória. É autora de diversas publicações científicas em revistas internacionais. Os seus interesses e atividade de investigação abrangem os domínios da Atenção, Cognição e Memória Humana, possuindo experiência consolidada no desenvolvimento e na implementação de projetos de investigação, na criação e validação de materiais, na programação experimental, na análise de dados e na monitorização do impacto de programas de intervenção. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, detém também formação especializada em Psicologia Clínica. 

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