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Os ambientes digitais são omnipresentes na vida das crianças e jovens de hoje. Podem melhorar a aprendizagem e expandir as interações sociais e a comunicação, mas também expõem os jovens a riscos preocupantes, como o ciberbullying e a menor possibilidade de interação física. Um relatório da OCDE apresenta novos dados sobre um tema que é motivo de crescente preocupação.

Um relatório recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), com dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) 2022, destaca dois aspetos-chave da relação entre as tecnologias digitais e o desempenho académico. Por um lado, o uso intencional e direcionado das tecnologias digitais em atividades de aprendizagem está associado a melhor rendimento académico, tanto em Portugal como na média da OCDE. Por outro, o uso excessivo de dispositivos digitais (smartphones, tablets, computadores, etc.) em atividades de lazer prejudicou o desempenho dos alunos.

Efeitos na literacia matemática

Em Portugal, os alunos que usaram dispositivos digitais até uma hora por dia em atividades de aprendizagem e lazer tiveram melhores resultados em literacia matemática, em comparação com alunos que não os usaram ou que os usaram de uma a três horas por dia (ver Figura 1). A diferença na pontuação a Matemática entre os alunos que os usaram uma hora por dia comparando com os que os usaram mais de sete horas diárias em atividades de aprendizagem é de 41 pontos — equivalente a cerca de um ano e meio de aprendizagem. Os alunos que usaram dispositivos entre uma e duas horas por dia em atividades de lazer obtiveram 68 pontos a mais em Matemática, quando comparados com alunos que os usaram de cinco a sete horas por dia. Esta diferença equivale quase a três anos de aprendizagem. Observaram-se tendências semelhantes, ainda que menos acentuadas, na média da OCDE.

Figura 1. Pontuação média a Matemática vs. Tempo de utilização de dispositivos digitais

Estes resultados indicam um efeito claramente nefasto da utilização excessiva (mais de três horas por dia) na escola, para atividades sejam de aprendizagem, sejam de lazer.

Efeitos na distração

Os resultados observados na Figura 1 podem explicar-se, pelo menos em parte, com o efeito distrator do uso excessivo de dispositivos digitais. Em média, dois em cada três alunos (65%) da OCDE disseram distrair-se quando usam dispositivos digitais em pelo menos algumas aulas de Matemática. Em Portugal, a percentagem é ainda maior: 73%. Além disso, cerca de 60% dos alunos da OCDE indicaram que, em pelo menos algumas aulas, se distraem com outros alunos que usam dispositivos digitais, o que faz com que o professor demore mais tempo para que os alunos se acalmem e iniciem o trabalho. Em Portugal, esta percentagem de alunos distraídos pelos colegas chega aos 67%.

Este efeito distrator prejudica o rendimento dos alunos — como ilustra a Figura 2. Os resultados do PISA enfatizam, pois, a necessidade de se minimizar o efeito distrator da tecnologia na sala de aula. Quando o tempo de utilização é excessivo, os alunos podem ser facilmente distraídos por tentarem realizar várias tarefas ao mesmo tempo, desviarem as atenções para outro software ou para as atividades disponíveis nos dispositivos, usar o navegador da internet para atividades não-académicas, entrar em redes sociais, receber notificações de chat, etc.

Figura 2. Diferença (pontos) nas pontuações de Matemática

 

Estes resultados complicam o debate acerca do uso destas ferramentas no ensino e na aprendizagem. Se, por um lado, os recursos digitais expandem o acesso a atividades interativas e a simulações, dão feedback imediato e permitem aceder a conteúdos digitais que podem facilitar a aprendizagem, por outro a possibilidade de se realizar tarefas sem relação com a aula pode prejudicar a concentração e a realização das atividades propostas.

Neste contexto, o principal problema identificado é a distração causada por outros alunos que usam dispositivos digitais. Em Portugal, os alunos que reportaram distrair-se com colegas em pelo menos algumas aulas de Matemática tiveram, em média, 27 pontos a menos no PISA (equivalente a um ano de escolaridade) do que os colegas que nunca se distraíram (a mesma diferença na média da OCDE é de 22 pontos).

O relatório da OCDE destaca ainda que nem todos os dispositivos contribuem de igual modo na distração. Os alunos que usam frequentemente smartphones na escola são mais suscetíveis de perder a concentração, ao passo que o uso de software educativo apresenta uma associação negativa mais moderada.

Estas observações corroboram estudos recentes que indicam ser tão importante o que os jovens consomem nos ambientes digitais quanto o tempo que passam neles. É irónico que os países menos desenvolvidos procurem aumentar o acesso a recursos educativos digitais, enquanto os mais ricos se preocupam com o uso excessivo de ecrãs, conteúdos comerciais e tecnologias que invadem a autonomia e a privacidade [1].

Efeitos no bem-estar

O relatório também aborda o bem-estar dos alunos relacionado com a disponibilidade e o uso dos equipamentos digitais. Um em cada dois alunos da OCDE refere sentir-se nervoso e ansioso sem o smartphone. Em Portugal, esta percentagem é de 45%, sendo mais acentuada nas raparigas (43%, comparados com 32% nos rapazes). Embora esta ansiedade tenha impacto negativo na aprendizagem, a diferença na literacia matemática entre alunos ansiosos e não-ansiosos é relativamente moderada na média da OCDE (menos 8 pontos). Em Portugal, esta diferença, de menos 16 pontos, é o dobro.

Além disso, os alunos que não reportam ansiedade na ausência do smartphone apresentam melhores indicadores de satisfação com a vida, resistência ao stresse e controlo emocional, com diferenças particularmente relevantes (0,7 desvios-padrão) na satisfação com a vida. Isto evidencia que a ansiedade causada pela não-proximidade do smartphone condiciona muitíssimo o bem-estar psicológico dos jovens que participaram no PISA 2022, com implicações tanto no seu desempenho académico quanto no seu funcionamento socioemocional.

Figura 3. Diferença entre indicadores de desempenho e bem-estar

O que devem fazer as escolas?

A pandemia de covid-19 demonstrou a importância da educação digital, com aulas remotas e ferramentas e aplicações educacionais a tornarem-se componentes essenciais da aprendizagem. Ficou claro, porém, que as disparidades no acesso a dispositivos e à internet, bem como as limitadas competências digitais de alunos e professores, prejudicaram a aprendizagem nesse período.

Embora as competências digitais sejam fundamentais na cidadania atual, o uso excessivo de recursos digitais na escola pode ter consequências negativas nas aprendizagens e no bem-estar dos alunos. Contudo, a solução não parece ser, pelo menos em grande medida, por proibir os dispositivos digitais, em particular os smartphones, no espaço escolar. Os dados do PISA sugerem que estas proibições podem ser eficazes, embora muito dependa da sua implementação. Mesmo em escolas com proibição de smartphones, 29% dos alunos da OCDE disseram usar estes equipamentos várias vezes ao dia; 21% usam-nos todos ou quase todos os dias na escola.

Em Portugal, apenas 15% dos alunos que participaram no PISA indicaram frequentar escolas onde não se permitem smartphones no recinto escolar; na OCDE, a percentagem é de 34%. Ainda assim, em Portugal, estes alunos tiveram em média mais 8 pontos a Matemática (o que não é significativo) do que os colegas que frequentavam escolas sem essa proibição.

Para equilibrar os benefícios e desafios da tecnologia digital, as escolas podem adotar várias estratégias. Podem começar por integrar os recursos digitais de forma cuidadosa e equilibrada nos programas escolares, garantindo que os alunos tenham acesso a uma variedade de perspetivas e opiniões, com sentido crítico na avaliação da informação online. Além disso, é importante dar orientações claras de uso responsável e ético da tecnologia, ensinando os alunos a gerir as distrações, respeitar a propriedade intelectual e proteger a saúde mental. Algumas escolas já proíbem os smartphones nas salas de aula para minimizar os efeitos nefastos da tecnologia digital, promover as interações presenciais e prevenir a fraude académica.

Estas políticas visam criar um ambiente de aprendizagem focado, desenvolver habilidades interpessoais, manter a integridade académica e garantir uma atmosfera ética, segura e inclusiva. As escolas podem ainda dar apoio adicional aos alunos que precisem de ajuda para lidar com os desafios da tecnologia, como a dependência digital ou o ciberbullying. Estas abordagens, combinadas, podem ajudar a maximizar os benefícios da tecnologia digital, mitigando os seus impactos negativos.

Considerações finais

É crucial abordar as preocupações com o bem-estar dos alunos associadas ao uso de dispositivos digitais, tais como a ansiedade causada pela dependência dos smartphones, que pode afetar negativamente o desempenho académico e o bem-estar emocional.

Embora se possa considerar a proibição total de dispositivos digitais nas escolas, os dados do PISA sugerem que a sua eficácia pode variar. É importante adotar abordagens equilibradas que integrem os recursos digitais nos programas escolares, promovendo o uso responsável e ético da tecnologia e dando apoio a professores e alunos para lidarem com os desafios que ela apresenta.

Em última análise, as escolas desempenharão um papel fundamental na preparação dos alunos para o mundo digital, garantindo que estes desenvolvam competências críticas para navegar nesse ambiente, sem deixarem de proteger o bem-estar e promovendo um ambiente de aprendizagem saudável.

Referências bibliográficas

Lissak, G. (2018). Adverse physiological and psychological effects of screen time on children and adolescents: Literature review and case study. Environmental Research, 164, 149-157. https://doi.org/10.1016/j.envres.2018.01.015

Livingstone, S., Lemish, D., Lim, S. S., Bulger, M., Cabello, P., Claro, M., … e Wei, B. (2017). Global perspectives on children’s digital opportunities: An emerging research and policy agenda. Pediatrics, 140(Supplement_2), S137-S141. https://doi.org/10.1542/peds.2016-1758S

OECD. (2024). Students, digital devices and success (OECD Education Policy Perspectives n.º 102), OECD Publishing, Paris. https://doi.org/10.1787/9e4c0624-en

Yu, D. J., Wing, Y. K., Li, T. M. H., e Chan, N. Y. (2024). The Impact of Social Media Use on Sleep and Mental Health in Youth: a Scoping Review. Current Psychiatry Reports, 26(3), 104-119. https://doi.org/10.1007/s11920-024-01481-9

AUTOR

João Marôco (Ph.D., Washington State University) é professor catedrático no ISPA-IU onde leciona disciplinas de Análise Estatística, Métodos de Investigação e Técnicas Avançadas de Análise de Dados; e Professor II na Nord University, Noruega onde desenvolve trabalho de investigação em Burnout e Envolvimento Académico no Ensino Superior.  É consultor do Banco Mundial e da Iniciativa Educação Teresa e Alexandre Soares dos Santos em Estatísticas da Educação. Entre 2014 e 2018 foi vogal do conselho diretivo do IAVE, I.P. onde coordenou os estudos de avaliação por amostragem em larga escala (PISA, TIMSS, PIRLS, ICILS) e o projeto piloto de e-Assessment. Os seus interesses de investigação incluem a avaliação e desenvolvimento de escalas psicométricas, aplicações de regressão, modelação de equações estruturais, avaliação e amostragem em larga escala e classificação nas ciências biológicas, da saúde, sociais e humanas. Atualmente, publicou 450 artigos em revistas nacionais e internacionais com arbitragem científica e quatro livros sobre Análise Estatística, Análise de Equações Estruturais e Avaliação Psicométrica. De acordo com o Google Scholar, o seu trabalho académico foi citado mais de 43 000 vezes (H = 73; i10 = 280). Segundo o AD Scientific Index pertence ao Top 2% dos académicos mais citados em Portugal e do Mundo. Faz parte ainda do top 2% de cientistas mundiais no Ranking da Universidade de Stanford.

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