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Um estudo internacional recém-publicado mostra que ver séries e filmes legendados, em vez de dobrados, melhora de forma clara e consistente o domínio do inglês, sobretudo na compreensão e na expressão orais, evidenciando a importância da aprendizagem fora da escola.

Um estudo internacional em que participaram dois autores que têm colaborado com a Iniciativa Educação — Eric A. Hanushek, de Stanford, e Ludger Woessmann, de Munique — lança novos dados sobre a importância de ver filmes na sua língua original. Este estudo sublinha as vantagens de preservar o áudio original de filmes, séries e outros conteúdos em inglês para a aprendizagem deste idioma como língua estrangeira. Na verdade, a escola não é a única via para aprender.

A investigação corrobora estudos anteriores do mesmo problema, como os citados na bibliografia complementar, mas apresenta dados novos, tanto nos países observados como no método. Os autores analisaram dados de 36 países europeus não anglófonos, com exposição frequente a filmes originalmente em inglês. A análise distinguiu entre contextos de legendagem — como ocorre por norma nos Países Baixos, na Escandinávia e em Portugal — e contextos de dobragem, como acontece na Alemanha, na Áustria, em Espanha, em França e em Itália.

Para identificar o efeito específico da não dobragem, compararam-se não apenas países, mas também duas disciplinas: inglês e matemática. Partindo do pressuposto de que os resultados em matemática não dependem do modo de tradução audiovisual, o desempenho nesta última disciplina foi usado como termo de comparação. É uma estratégia interessante, que procura verificar se a não dobragem é fator causal de melhoria do domínio do inglês.

A proficiência em inglês foi medida através de três instrumentos complementares: o Índice de Proficiência em Inglês (em inglês, EPI), baseado em testes online de larga escala; o Exame de Inglês como Língua Estrangeira (em inglês, TOEFL), que permite analisar separadamente domínios como a expressão oral e a leitura; e o Inquérito à Educação de Adultos (em inglês, AES), assente em autoavaliações com base em amostras representativas. Os resultados foram ainda comparados com os de matemática do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (em inglês, PISA).

As diferenças entre os países são claras. Nos contextos de legendagem — como a Islândia (75%), a Dinamarca (68%) e a Finlândia (67%) —, a maioria dos jovens declara níveis elevados de proficiência em inglês no mais recente AES, enquanto em países que preferem a dobragem, como Itália e França, essas percentagens ficam pelos 16% e 21%. No relatório mais recente do EPI, os Países Baixos, a Noruega e a Suécia figuram entre os melhores desempenhos europeus, com níveis de proficiência muito alta. Já França e Itália apresentam níveis apenas moderados, apesar de o inglês integrar os currículos escolares.

A análise confirma que o efeito da legendagem é consistente e robusto nos três indicadores analisados. Em média, ver conteúdos legendados associa-se a ganhos expressivos — próximos de um desvio-padrão —, na proficiência em inglês; diferenças suficientemente grandes para distinguir de forma clara os países de legendagem dos de dobragem. O impacto é semelhante nas medidas gerais de proficiência (EPI e AES), enquanto no TOEFL — um exame mais exigente e voltado para contextos académicos — é ligeiramente inferior. Neste último, os progressos verificam-se sobretudo na expressão e na compreensão orais, sendo muito mais reduzidos na leitura e na escrita. Os efeitos são mais fortes entre os jovens, mas também se observam em adultos e em grupos mais idosos. Assim, se países como a Áustria, a Alemanha ou a Polónia tivessem optado pela legendagem, as suas populações provavelmente apresentariam níveis médios de proficiência em inglês comparáveis aos dos países escandinavos ou dos Países Baixos.

Por fim, o cruzamento dos resultados em inglês com os de matemática mostra uma associação positiva entre ambos: países com melhor desempenho em inglês (como os Países Baixos, a Suécia e a Dinamarca) tendem também a obter resultados elevados em matemática, enquanto países com baixa proficiência em inglês (como a Albânia, a Moldávia e a Ucrânia) apresentam baixos desempenhos em matemática. Mas quase todos os países de legendagem revelam níveis de inglês superiores aos que seriam previsíveis com base nos seus resultados em matemática, enquanto os de dobragem ficam, em geral, abaixo do esperado.

Em suma, aprender uma língua estrangeira não se reduz à escola. Ver filmes e séries na sua versão original, com legendas, também ajuda a aprender inglês.

Bibliografia complementar

Almeida, Patrícia Albergaria, Patrícia Dinis Costa (2014). Foreign Language Acquisition: The Role of Subtitling. Procedia - Social and Behavioral Sciences 141: 1234-1238.

Rupérez Micola, Augusto, Ainoa Aparicio Fenoll, Albert Banal-Estañol, Arturo Bris (2019). TV or Not TV? The Impact of Subtitling on English Skills. Journal of Economic Behavior & Organization 158: 487-499.

Van Lommel, Sven, Annouschka Laenen, Géry d'Ydewalle (2006). Foreign-Grammar Acquisition While Watching Subtitled Television Programmes. British Journal of Educational Psychology 76 (2): 243-258.

AUTOR

Luciana Graça é doutorada em Didática pela Universidade de Aveiro, tendo desenvolvido uma tese sobre o papel das ferramentas didáticas nas práticas docentes de escrita. Prosseguiu investigação no âmbito de dois pós-doutoramentos na mesma área, igualmente na Universidade de Aveiro, onde tinha já concluído as licenciaturas em Ensino de Português, Latim e Grego, e em Literaturas, Línguas e Culturas.

É Professora Adjunta na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, onde supervisiona estágios do Mestrado em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1.º ciclo do Ensino Básico, e é investigadora integrada do inED - Centro de Investigação e Inovação em Educação.

Os seus interesses de investigação centram-se na Didática do Português e na Formação de Professores, com especial atenção ao ensino da oralidade, da leitura e da escrita.

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