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Numa conhecida fábula de Esopo, uma tartaruga ganha uma corrida a uma lebre. Nada fazia prever que a tartaruga sequer terminasse a corrida, mas o seu esforço constante e a sua motivação compensaram a desvantagem inicial. Esta fábula ilustra como factores psicossociais, tais como o esforço continuado, a autorregulação do comportamento, e a motivação podem levar a resultados positivos. Será que estes factores também podem prever o sucesso escolar? Parece que sim, mas apenas quando os alunos já apresentam algum nível de sucesso—ou seja, se a tartaruga nunca tivesse corrido anteriormente, provavelmente não teria ganho à lebre.

Num recente artigo publicado no Journal of Educational Psychology, Yi-Lung Kuo e outros investigadores acompanharam o progresso de mais de 3 000 alunos do 7.º ao 12.º ano, medindo o seu desempenho escolar e diversos factores psicossociais. Os alunos americanos, com idades entre os 12 e os 15 anos, quando foram testados pela primeira vez, responderam a escalas nas quais pontuavam quanto concordavam com diversas afirmações. Estas escalas mediam três factores: motivação (incluindo disciplina para estudar, compromisso para com a escola, e optimismo), controlo social (incluindo atitudes da família quanto à educação, envolvimento da família com a escola, relações com os empregados da escola e clima de segurança na escola) e autoregulação (incluindo gestão de sentimentos, conduta ordeira, e pensar antes de agir). Os alunos fizeram também testes de escolha-múltipla em Inglês, Matemática, Leitura, e Ciências. 

Os resultados obtidos indicaram que, do 7.º ao 9.º ano, as alunas do sexo feminino tinham resultados mais elevados em motivação e controlo social do que os alunos do sexo masculino. A evolução dos resultados escolares indicou que tanto o sucesso escolar dos anos anteriores como o nível de motivação e controlo social previam o sucesso escolar no 11.º e 12.º anos. A contribuição da motivação e do controlo social para o sucesso escolar foi para além da contribuição do sucesso escolar anterior, mas apenas para os alunos que já tinham melhor aproveitamento escolar. Os alunos com pior aproveitamento escolar aparentemente não foram beneficiados por terem maior motivação ou controlo social. Isto é, os efeitos positivos da motivação e do controlo social no aproveitamento escolar parecem ser maiores para os alunos com melhor rendimento escolar. No caso da autoregulação, também se verificou que alunos com melhor aproveitamento beneficiaram mais de uma elevada autoregulação do que alunos com pior aproveitamento, mas apenas quando estes eram do sexo feminino. Neste caso, as alunas com pior aproveitamento e com maior autoregulação apresentaram mesmo piores resultados escolares. Este é um exemplo do efeito de Mateus, um fenómeno observado em várias intervenções educativas que beneficiam os alunos que já tinham melhor aproveitamento escolar, mas não ajudam ou chegam mesmo a prejudicar os alunos com pior desempenho. Este efeito explica como, em diversos casos, estratégias educativas, mesmo quando parecem aumentar o desempenho escolar em média, acabam por aumentar as diferenças entre os alunos com melhor e pior aproveitamento, uma vez que os alunos com melhor rendimento escolar ganham mais com a intervenção do que os alunos com pior rendimento escolar.

 Como na fábula da lebre e da tartaruga, não terá sido apenas a motivação da tartaruga a garantir a sua vitória na corrida. Provavelmente tratava-se de uma tartaruga que passou muito tempo a treinar até conseguir correr, mesmo que mais lentamente do que a lebre.

Estes resultados são semelhantes aos resultados obtidos em estudos anteriores, indicando um pequeno mas identificável efeito da motivação no desempenho escolar (por exemplo, Hustinx et al., 2009; Steinmayr & Spinath, 2009). Também a importância da família e do contexto social dos alunos para o desempenho escolar já tinha sido apontada noutros estudos—por exemplo, alunos cujos pais se envolvem mais na suas actividades escolares parecem ter melhores resultados do que alunos cujos pais apresentam menor envolvimento (ver Hill & Tyson, 2009).

Os resultados deste estudo indicam que alunos do secundário que já tenham desenvolvido uma base de conhecimentos sólida poderão beneficiar de intervenções que aumentem a sua motivação, controlo social, e auto-regulação. É, no entanto, importante que os educadores compreendam que trabalhar estes factores psicossociais não trará necessariamente benefícios para os alunos que apresentam um desempenho escolar negativo. Também os pais têm um papel relevante na educação e é importante que reconheçam que atitudes positivas em relação à escola e envolvimento na educação dos seus educandos poderão melhorar o seu desempenho escolar, quando já existe uma base de conhecimentos sólida.

Em suma, factores psicossociais parecem ter alguma importância no sucesso escolar, mas, como vimos, este estudo deixa em aberto a questão de como fazer com que alunos com pior sucesso escolar possam beneficiar também de maior motivação, de uma boa gestão dos seus sentimentos e comportamentos, e do envolvimento da família e da comunidade. Os investigadores não respondem a esta questão, mas podemos pressupor que é necessária uma boa preparação dos alunos desde os níveis mais básicos de educação e que envolvam o uso de estratégias de ensino que parecem beneficiar todos os alunos, como a utilização da prática de recuperação, o uso de feedback, e o espaçamento das sessões e matérias de estudo. Como na fábula da lebre e da tartaruga, não terá sido apenas a motivação da tartaruga que lhe garantiu a vitória na corrida, mas, provavelmente tratava-se de uma tartaruga que passou muito tempo a treinar até conseguir correr, mesmo que mais lentamente do que a lebre.

 

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo acordo ortográfico.


Referências

Hill, N. E., & Tyson, D. F. (2009). Parental involvement in middle school: A meta-analytic assessment of the strategies that promote achievement. Developmental Psychology, 45, 740 –763.

Hustinx, P. W. J., Kuyper, H., van der Werf, M. P. C., & Dijkstra, P. (2009). Achievement motivation revisited: New longitudinal data to demonstrate its predictive power. Educational Psychology, 29, 561–582.

Kuo, Y. L., Casillas, A., Allen, J., & Robbins, S. (2021). The moderating effects of psychosocial factors on achievement gains: A longitudinal study. Journal of Educational Psychology, 113(1), 138–156.

Steinmayr, R., & Spinath, B. (2009). The importance of motivation as a predictor of school achievement. Learning and Individual Differences, 19, 80–90.


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