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Para os cientistas ainda não estão claras todas as funções do sono, mas já não é novidade que uma noite inteira de descanso, ou a falta dela, não apenas contribui para baixos níveis de produtividade, mas tem também efeitos a longo prazo na saúde cardiovascular e no rendimento cognitivo. São as funções restauradoras do sono que renovam a nossa capacidade de incorporar novas informações e, ao mesmo tempo, permitem a consolidação da memória de longo prazo, somando a nossa aprendizagem diária às nossas experiências anteriores. 

Mais de um século de pesquisa refere que o sono é essencial para o cérebro e que as nossas funções de sobrevivência dependem do sono e da sua qualidade1. Porém, as teorias iniciais sobre o sono não lhe atribuíam um papel ativo relativamente às memórias, pensando apenas que estas seriam protegidas da intrusão de estímulos interferentes para prevenir o esquecimento. Só nos últimos anos se reconheceu que as memórias passam por um processo de consolidação dependente do sono2.

De acordo com o artigo publicado na Science, no final de 2019, a memória é um produto da plasticidade cerebral, e o seu aprimoramento está relacionado com a modificação contínua de forças sinápticas para a qual dormir tem um enorme peso3.

O período de sono passa por diferentes ciclos e fases, e alguns deles são determinantes para a consolidação das memórias (Figura abaixo)4

Segundo o que está descrito, são os impulsos de atividade cortical durante a fase de movimento rápido dos olhos (REM – rapid eye movement) no sono que servem para eliminar as conexões fracas criadas aleatoriamente durante o período de vigília5. É aqui que o cérebro parece entrar em “modo de limpeza”, eliminando as memórias fracas e indesejadas para arranjar espaço para armazenamento, de forma a tornar mais eficiente a organização do restante material na memória. Assim, não é só a função de esquecimento que é hoje reconhecida. Existe já evidência a favor da função de consolidação de memórias que mostra as estruturas cerebrais envolvidas durante a prática de tarefas que são novamente ativadas no sono após o treino6.

Dado que o sono e a memória são multidimensionais, é natural que nem todas as memórias beneficiem da mesma forma já o que sono também não é todo igual. Estudos com humanos e animais sugerem que as memórias declarativas são primeiro codificadas no hipocampo e no lobo temporal médio circundante e depois transferidas gradualmente para áreas neocorticais, e este processo está associado ao sono profundo, também conhecido por sono de ondas lentas (SWS – slow-wave sleep). Já as memórias não declarativas são suportadas por um sistema cortico-estriatal dos núcleos da base, o que facilita a aquisição e execução da aprendizagem motora e sequencial, e aqui presume-se que seja a fase REM associada à sua consolidação7,8. No entanto, esta relação entre sono e consolidação das memórias não declarativas é menos clara do que a que se estabelece com as memórias declarativas, estando, por isso, a ser alvo de mais investigação.

Há 100 anos, as crianças dormiam mais

Para facilitar o sono, a consistência nas horas de levantar e de deitar tem sido referenciada como fundamental, especialmente quando falamos de bebés e crianças. As associações de pediatria sempre alertaram para a necessidade de assegurar uma higiene de sono para um bom desenvolvimento cognitivo, comportamental e emocional das crianças, estabelecendo recomendações internacionais para o número de horas de sono nas várias faixas etárias (Figura em baixo)9. A organização americana National Sleep Foundation disponibiliza inclusivamente uma calculadora para ajudar na escolha da hora de deitar de acordo com a hora a que precisamos de acordar. 
 

A preocupação de que as crianças não durmam o suficiente é generalizada, mas a realidade é que as crianças de hoje dormem menos do que dormiam há um século10. De acordo com estudos americanos, uma em cada cinco crianças e pré-adolescentes apresenta sintomas de insónia11,12. As causas apontadas para esta, aparente, epidemia de problemas do sono são múltiplas, mas as mudanças no estilo de vida, num mundo cada vez mais digitalizado e acelerado, têm sido vistas pelos especialistas como motivo de preocupação13.

Em Portugal, num estudo conduzido em 2011, os pais de crianças entre os 4 e os 10 anos indicaram uma duração média de sono dos filhos de 9,8 horas, em que a maioria (92,8% de uma amostra de 574 crianças) se deitava cerca de quase uma hora mais tarde ao fim de semana. Também crianças dos 7 aos 10 anos, ao responderem a um questionário, indicaram sentir-se geralmente com sono (51% de uma amostra de 310 crianças)14.

Se, por um lado, a construção de memórias sai beneficiada com o sono, por outro, a privação de sono interfere no desempenho cognitivo, que só pode ser revertido pelo sono. A falta de sono pode mesmo afetar a boa capacidade de julgamento, o humor, a motivação, os resultados académicos e até a perceção dos acontecimentos15,16. Dormir mal com regularidade é também considerado um fator de risco relevante para a saúde agravando problemas como a hipertensão, obesidade, diabetes, ansiedade, e comportamentos agressivos, entre outros17,18.
 

Dormir a sesta, sim ou não?

No entanto, não é só o sono da noite a evidenciar associações com a memória. Pesquisas recentes indicam que, mesmo quando os alunos aprendem antes de uma sesta, estes recordam melhor as informações a longo prazo. Num estudo desenvolvido no Brasil (com a particularidade de ter sido realizado em contexto escolar em vez do habitual ambiente clínico ou de laboratório), avaliou-se o efeito da sesta após as aulas de Ciências e de História em alunos de 10-11 anos. Os conteúdos curriculares destas disciplinas foram medidos, seguindo um procedimento experimental, durante várias semanas. Concluiu-se que as sestas com duração de 30 a 60 minutos parecem aumentar a retenção de memória do conteúdo curricular em cerca de 10%19, pelo que podemos começar a refletir sobre os benefícios das sestas pós-aula a fim de melhorar a consolidação do que é dado em aula.

Ainda há muito para investigar sobre o simples ato de dormir, mas o certo é que o cérebro não aceita desculpas, e o sono, na medida ajustada à idade, tem mesmo de ser uma prioridade para todos os estudantes. A saúde e a memória agradecem.


Referências

1 Peigneux, P., Schmitz, R., Urbain, C., «Sleep and forgetting», em S. Della Sala (Ed.), Forgetting, Hove, Psychology Press, 2010, pp. 165-184.

2 Rasch, B., & Born, J., «About sleep’s role in memory», Physiological Reviews, 93(2), 2013, pp. 681-766.

3 Cirelli, C., & Tononi, G., «Linking the need to sleep with synaptic function», Science, 366 (6462), 2019, pp. 189-190.

4 Stickgold, R., «Sleep-dependent memory consolidation», Nature, 437(7063), 2005, pp. 1272-1278.

5 Crick, F., & Mitchison, G., «The function of dream sleep», Nature, 304(5922), 1983, pp. 111-114.

6 Peigneux, P., Laureys, S., Fuchs, S., Collette, F., Perrin, F., Reggers, J., et al., «Are spatial memories strengthened in the human hippocampus during slow wave sleep?», Neuron, 44(3), 2004, pp. 535-545.

7 Frankland, P. W., & Bontempi, B., «The organization of recent and remote memories», Nature Reviews Neuroscience, 6(2), 2005, pp. 119-130.

8 Ackermann, S., & Rasch, B., «Differential effects of Non-REM and REM sleep on memory consolidation?», Current Neurology and Neuroscience Reports, 14(2), 430, 2014, pp.1-10.

9 Hirshkowitz, M., Whiton, K., Albert, S. M., Alessi, C., Bruni, O., DonCarlos, L., … Adams Hillard, P. J., «National Sleep Foundation’s sleep time duration recommendations: methodology and results summary», Sleep Health, 1(1), 2015, pp. 40-43.

10 Matricciani, L. A., Olds, T. S., Blunden, S., Rigney, G., Williams, M. T., «Never enough sleep: a brief history of sleep recommendations for children», Pediatrics, 129(3), 2012, pp. 548-556.

11 Calhoun, S. L., Fernandez-Mendoza, J., Vgontzas, A. N., Liao, D., & Bixler, E. O., «Prevalence of insomnia symptoms in a general population sample of young children and preadolescents: gender effects», Sleep Medicine, 15(1), 2014, pp. 91-95.

12 Simola, P., Laitalainen, E., Liukkonen, K., Virkkula, P., Kirjavainen, T., Pitkäranta, A., & Aronen, E. T., «Sleep disturbances in a community sample from preschool to school age», Child: Care, Health and Development, 38(4), 2011, pp. 572-580.

13 LeBourgeois, M. K., Hale, L., Chang, A.-M., Akacem, L. D., Montgomery-Downs, H. E., & Buxton, O. M., «Digital Media and Sleep in Childhood and Adolescence», Pediatrics, 140(Supplement 2), 2017, S92–S96.

14 Loureiro, H., Pinto, H. R., & Paiva, T., «Adaptation and validation of children’s sleep habits questionnaire and sleep self-report for portuguese children – preliminary results», Sleep Medicine, 12, 2011, S88.

15 Beebe, D., «Cognitive, behavioral, and functional consequences of inadequate sleep in children and adolescents», Pediatric Clinics of North America, 58/3, 2011, pp. 649-665.

16 Paiva, T., & Rebelo-Pinto, H., «Clínica do sono da criança e do adolescente», em T. Paiva, M. Andersen, S. Tufik (Eds.), O Sono e a Medicina do Sono, São Paulo, Ed. Manole Ltda, 2014, pp. 599-624.

17 Orzeł-Gryglewska, J., «Consequences of sleep deprivation», International Journal of Occupational Medicine and Environmental Health, 23(1), 2010, pp. 95-114.

18 Chen, X., Beydoun, M. A., & Wang, Y., «Is Sleep Duration Associated With Childhood Obesity? A Systematic Review and Meta-analysis», Obesity, 16(2), 2008, pp. 265-274.

19 Cabral, T., Mota, N. B., Fraga, L., Copelli, M., McDaniel, M. A., & Ribeiro, S., «Post-class naps boost declarative learning in a naturalistic school setting», Npj Science of Learning, 3(1), 14, 2018, pp. 1-4.


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