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As pessoas contestam com frequência as verdades científicas — acerca da evolução ou das alterações climáticas, por exemplo — por diversas razões. Em educação, este facto é agravado pela divergência que existe muitas vezes entre as ideias da ciência e a nossa intuição. Além do mais, os programas de formação de professores excluem muitas vezes essa informação, chegando até a preconizar abordagens pedagógicas que a contradizem.

Eis cinco convicções intuitivas comuns incompatíveis com a ciência:

1. Para se tornaram especialistas, os alunos devem agir como especialistas. Uma convicção popular no ensino da leitura e da escrita defende que se deve encorajar os alunos a desempenhar o papel de hábeis leitores e escritores. Além de lhes pedirem que leiam palavras cujo som ainda não ouviram, espera-se que consigam escrever logo de forma minuciosa e que encontrem a sua «voz narrativa» — como se fossem adultos num curso de escrita criativa. Há muitas crianças que apreciam esta abordagem, o que leva os professores a acreditar que funciona. É também provável que os professores acreditem que as crianças que continuem a escrever irão, a seu tempo, aprender a fazê-lo bem. Há menos investigação sobre a escrita do que sobre a leitura, mas a ciência comprova que também neste domínio os alunos precisam de uma instrução clara. Os exames nacionais nos Estados Unidos mostram que apenas 27% dos alunos no 8.o e no 12.o ano escrevem bem.

A noção de ensinar os alunos a «pensar como um historiador» ou um cientista, ou pelo menos a tentar, também tem vindo a ganhar adeptos. Queremos que as crianças aprendam a fazer as perguntas que os historiadores ou os cientistas fazem. Por isso mesmo, incentivá-las a «pensar como um especialista» parece-nos intuitivo. Mas a verdade é que os especialistas só conseguem pensar assim porque têm uma enorme quantidade de informação factual sobre as suas áreas de conhecimento na sua memória de longo prazo. A ortodoxia da educação sempre se insurgiu contra a aprendizagem de informação factual pelas crianças, descrevendo-a como «aprender de cor», mas esta é na realidade um alicerce fundamental do pensamento crítico e analítico. 

2. A instrução deve ajustar-se aos diferentes estilos de aprendizagem. Os inquéritos mostram que até 90% dos professores norte-americanos e de outros países concordam com esta afirmação. Os programas de formação de professores incluem esta teoria, e a maior parte dos estados norte-americanos exige que os futuros professores a aprendam para os exames de habilitação profissional. Mas não há qualquer validade científica na noção de que uma pessoa aprende sempre melhor através de determinado estilo, independentemente do assunto.

A maioria dos educadores desconhece a falta de bases científicas desta teoria, mas até os que a conhecem continuam a defendê-la, pois confirma a sua perceção. «Sei que sou um aluno visual», insistia um professor mesmo depois de ter lido uma carta aberta subscrita por trinta cientistas na qual os estilos de aprendizagem surgiam com um «neuromito».

As pessoas têm mesmo preferências de aprendizagem, e há provas de que faz sentido transmitir informação de várias maneiras — usando tanto imagens como palavras, por exemplo. No entanto, se um professor ou um aluno acredita que um «aluno auditivo» é incapaz de assimilar informação através de esquemas — quando essa é, na verdade, a melhor forma de apresentar determinado conceito —, irá apenas dificultar o ensino e a aprendizagem.

3. Reler e sublinhar texto são os melhores métodos de estudo. A intuição pode induzir alunos e professores em erro. Ficou comprovado que outros métodos de estudo — como a autoavaliação sobre conteúdo acabado de ler — são muito mais eficazes, porque o ato de tentar recordar informação de que nos esquecemos parcialmente aumenta a probabilidade de a conseguirmos recuperar de memória mais tarde. Mas essa «prática de recuperação de memória» é um exercício difícil e, por isso, pode parecer não funcionar.

Isto está relacionado com o chamado efeito Dunning-Kruger: vários estudos comprovam que quem tem um mau desempenho em determinada tarefa é incapaz de reconhecer a sua incompetência. A intuição dá-lhe uma confiança infundada. Do mesmo modo, quando certa tarefa é mais complexa, as pessoas podem pensar que ela é menos eficaz, quando na verdade é o oposto.

4. Ler em ecrã é igual ou melhor do que ler em papel. Investigadores que estudaram a fundo os efeitos da leitura em suporte físico ou digital concluíram que os estudantes universitários, seu objeto de estudo, acreditavam sem sombra de dúvida que compreendia melhor a informação lida em ecrã. Os resultados também não deixaram margem para dúvidas: o estudo mostrou que na verdade entendiam pior. Aqui está novamente o efeito Dunning-Kruger!

As pessoas tendem a ler texto digital mais depressa, e os investigadores supõem que será isso que as leva a crer que estão a perceber o conteúdo com mais facilidade. No entanto, talvez consigam ler mais depressa apenas por não estarem com tanta atenção.

5. Os alunos aprendem melhor através da descoberta. Muitos professores acreditam firmemente nesta premissa, que pertence à ortodoxia da educação — e parece que as crianças também. Numa experiência científica, mostrou-se a um grupo de crianças um aparelho algo complexo chamado pantógrafo. Parte destas crianças não recebeu instruções sobre o seu funcionamento, e nenhuma conseguiu pô-lo a trabalhar. A outra metade do grupo observou um adulto a usar o aparelho primeiro, tendo quase todas sido capazes de o usar. Mas 70% das crianças do segundo grupo disseram que teriam sido capazes de descobrir o funcionamento do pantógrafo sozinhas, apesar de nenhuma criança do primeiro grupo ter sido capaz de o fazer.

Existe na verdade um vasto número de provas que mostram, que quando os alunos são principiantes, as instruções explícitas são mais eficazes do que uma aprendizagem através da descoberta ou de perguntas. Mas tanto professores como alunos tendem a favorecer estas abordagens, talvez por serem mais interessantes — e não é difícil confundir interesse com aprendizagem.

O que podemos fazer para amenizar o conflito entre a intuição e as descobertas científicas? Um primeiro passo seria incluir informação fidedigna nos cursos de formação de professores, como alguns começaram a fazer nos Estados Unidos.

Algo que certamente não ajuda é ridicularizar as pessoas que aplicam métodos não comprovados pela ciência. Confiar no instinto é uma tendência natural do ser humano — tal como é natural ficarmos de pé atrás se formos acusados de ser tolos. Mais vale apostarmos em objetivos comuns, como o de garantir que todos os alunos e professores atingem o maior êxito possível.

Esta publicação tem por base um artigo publicado pela Forbes.com

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