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No século XXI assistiu-se a uma explosão de opções tecnológicas em contexto de sala de aula. Hoje em dia, os alunos podem utilizar dispositivos de resposta remota (clickers), aplicações com questionários para smartphones e tablets, sistemas de gestão online de cursos, quadros interativos e, provavelmente, centenas de outras tecnologias de que nunca ouvi falar. Contudo, continuamos a questionar-nos se é aconselhável, ou não, que os alunos recorram a tecnologia para tirar notas.

Pessoalmente, já vi vários alunos universitários utilizarem computadores portáteis e tablets para tirarem notas durante as minhas aulas. Se os alunos trazem tecnologia pessoal para a sala de aula, como computadores portáteis, tablets e telefones com funcionalidades de anotação, não admira que prefiram utilizá-los para esse fim. Numa primeira análise, o meio através do qual os alunos tiram notas não deveria ser relevante. Tirar notas é tirar notas, certo?

Tirar notas à mão pode ser mais eficaz do que tirar notas num computador

A investigação indica que a resposta poderá não ser assim tão linear. Mueller e Oppenheimer (1) investigaram os diferentes resultados de aprendizagem de alunos que tiraram notas à mão e alunos que tiraram notas em computadores portáteis. Nos ensaios realizados para o efeito, todos os computadores estavam desligados da Internet, para eliminar quaisquer distrações. Mueller e Oppenheimer pediram aos alunos que tirassem notas à mão ou no computador enquanto assistiam a gravações de conferências TED (TED talks). Em seguida, foi-lhes pedido que respondessem a perguntas factuais e conceptuais sobre o que tinham aprendido.

No primeiro ensaio, os alunos que tiraram notas à mão tiveram um melhor desempenho nas perguntas conceptuais do que os alunos que tiraram notas em computadores portáteis. Este último grupo, de um modo geral, limitou-se a transcrever aquilo que ia ouvindo nas gravações das conferências. No entanto, os investigadores repararam que, ao tirarem notas à mão, os alunos eram forçados selecionar a informação mais relevante e a organizá-la por palavras próprias, devido às limitações da velocidade de escrita. Por norma, conseguimos escrever mais depressa num teclado do que à mão, pelo que, ao utilizar um teclado, é muito mais fácil escrever tudo o que ouvimos. Escrever notas à mão, por sua vez, obriga a um processamento da informação, e isso é benéfico para a aprendizagem.

Para abordarem esta questão, Mueller e Oppenheimer realizaram outro ensaio. Desta vez, foram dadas instruções específicas a alguns dos alunos que tiraram notas no computador; foi-lhes pedido que não transcrevessem aquilo que estavam a ouvir e que tirassem notas utilizando as suas próprias palavras. Estas instruções especiais reduziram a quantidade de transcrições neste grupo, por comparação ao grupo “normal”, que não recebeu qualquer instrução; contudo, o grupo de alunos que recebeu instruções especiais, conseguiu anotar mais conteúdo do que o grupo de alunos que tirou notas à mão. Na fase de avaliação, o grupo que tirou notas à mão foi o que teve o melhor desempenho. 
 

Mas não nos precipitemos nas conclusões! A investigação sobre este tema apresenta algumas nuances

Até este ponto, somos levados a crer que tirar notas à mão é mais eficaz do que tirar notas num computador. No entanto, se analisarmos a investigação mais a fundo, percebemos que esta situação – como tantas outras — apresenta algumas nuances! Por exemplo, em alguns dos seus ensaios, Mueller e Oppenheimer verificaram que tirar notas à mão não beneficiava o desempenho dos alunos em perguntas de carácter factual. No seu terceiro ensaio, Mueller e Oppenheimer concluíram que os alunos que tiraram notas à mão tiveram um melhor desempenho do que os que tiraram notas num computador, tanto em perguntas factuais como em perguntas conceptuais, no entanto, isso só aconteceu quando os alunos tiveram oportunidade de consultar as suas notas antes da avaliação. Quando os alunos não puderam consultar as suas notas, não houve qualquer diferença de desempenho entre ambos os grupos. Bui, Myerson e Hale (2) concluíram, num dos seus estudos, que os alunos que transcreveram informações com recurso a um computador portátil tiveram um melhor desempenho em perguntas factuais do que os alunos que tiraram notas à mão, mais organizadas, ou que tentaram transcrever à mão; pelo menos quando as avaliações foram realizadas pouco tempo depois de os alunos tirarem as suas notas. Fiorella e Mayer (3) compararam os resultados de aprendizagem entre alunos que tiraram notas à mão e alunos que tiraram notas em computadores portáteis, contudo, permitiram que os alunos estudassem os seus apontamentos. Num teste de avaliação da aprendizagem, todos os participantes responderam a perguntas de carácter factual, a perguntas que requeriam transferência para novas situações e a perguntas de desenho. Neste ensaio, os alunos que tiraram notas em computadores portáteis tiveram um melhor desempenho do que os alunos que tiraram notas à mão!

Para tentarem compreender todos estes resultados contraditórios, Luo, Kiewra, Flanigan e Peteranetz (4) realizaram um ensaio durante o qual os alunos assistiram a uma aula relacionada com um curso que estavam a frequentar na universidade.

Durante a aula, alguns alunos tiraram notas à mão e outros utilizaram o computador. Antes do teste de avaliação, alguns dos alunos tiveram oportunidade de consultar as suas notas, criando-se assim quatro condições diferentes: notas em computador portátil sem consulta posterior; notas em computador portátil com consulta posterior; notas à mão sem consulta posterior e notas à mão com consulta posterior. Durante a avaliação, os investigadores mediram os resultados de aprendizagem com base em texto escrito e em conteúdos visuais.

No final, foi identificada uma correlação: o efeito do meio utilizado para tirar notas depende do facto de os alunos poderem, ou não, consultá-las antes da avaliação.

Quando tiveram oportunidade de consultar os seus apontamentos, por norma, os alunos que tiraram notas à mão tiveram um melhor desempenho na avaliação do que os que tiraram notas no computador. Este resultado foi ainda mais evidente na componente visual da avaliação. Contudo, quando os alunos não tiveram oportunidade de consultar os seus apontamentos, ambos os grupos tiveram um desempenho muito semelhante. Os alunos que tiraram notas em computadores portáteis tiveram um desempenho ligeiramente melhor do que os alunos que tiraram notas à mão, contudo, as diferenças não foram estatisticamente significativas.

O que significa tudo isto?

O efeito de tirar notas à mão ou num computador parece depender de uma série de fatores, inclusive do facto de os alunos terem oportunidade de estudar os seus apontamentos, dos conteúdos dos materiais de aprendizagem (por exemplo, informação visual ou informação verbal), e do tempo que se pretende que dure (ou demore) a aprendizagem. Parece haver mais ensaios que favorecem o método de tirar notas à mão, por oposição à utilização de um computador. Os benefícios deste método parecem tornar-se mais evidentes na aprendizagem de informação visual e no desempenho em perguntas conceptuais.

Dito tudo isto, é muitíssimo importante ter em conta que os alunos que participaram nestes ensaios com computadores não dispunham de ligação à Internet, pelo que foram eliminadas quaisquer distrações com os respetivos e-mails ou redes socias. Se introduzíssemos estas distrações na equação, muito provavelmente teria havido uma queda na aprendizagem dos alunos que utilizaram computadores (ver "Five Teaching and Learning Myths" (Cinco mitos sobre o ensino e a aprendizagem) de Brown e Kaminske (5)). Por mais que tentemos reduzir as distrações causadas pelo uso de tecnologias na sala de aula, nem sempre é possível eliminar totalmente este tipo de distrações em contextos reais de aprendizagem. Pelo que, tirar notas à mão, poderá continuar a ser a melhor opção!

 

Versão portuguesa por acordo com The Learning Scientists.

Bibliografia

(1) Mueller, P. A., & Oppenheimer, D. M. (2014). The pen is mightier than the keyboard: Advantages of longhand over laptop note taking. Psychological Science, 25, 1159-1168.

(2) Bui, D. C., Myerson, J., & Hale, S. (2013). Note-taking with computers: Exploring alternative strategies for improved recall. Journal of Educational Psychology, 105, 299-309.

(3) Fiorella, L., & Mayer, R. E. (2017). Spontaneous spatial strategy use in learning from scientific text. Contemporary Educational Psychology, 49, 66-79.

(4) Luo, L., Kiewra, K. A., Flanigan, A. E., & Peteranetz, M. S. (2018). Laptop versus longhand note taking: Effects on lecture notes and achievement. Instructional Science, 46, 947-971.

(5) Brown, A. M., & Kaminske, A. N. (2018). Five teaching and learning myths debunked: A guide for teachers. New York: Routledge.

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