As cookies são importantes para o correto funcionamento deste site e são usadas para melhorar a sua experiência. Clique em OK para as aceitar e avançar ou consulte a nossa política de privacidade para ver a descrição detalhada do tipo de cookies que usamos.

OK
pt en
ed-on-glossario

saber mais

Com o encerramento de escolas e cancelamento de aulas presenciais devido às medidas de prevenção contra o coronavírus, professores e pais têm um novo desafio à sua frente. A educação online pode ser uma resposta. Não será, no entanto, uma resposta fácil. Em alguns países, como, por exemplo, nos Estados Unidos, quase todas as universidades têm já as plataformas e ferramentas necessárias para os professores darem as suas aulas e os alunos aprenderem e serem avaliados à distância. Porém, isto ainda não acontece frequentemente, e menos ainda no ensino básico e secundário. Posto isto, o conhecimento sobre as melhores ferramentas, as melhores estratégias e os efeitos da educação online, particularmente no ensino não universitário é escasso. Mas vejamos o que a investigação existente diz sobre a melhor maneira de tirar partido da educação online.

Em 2015, Morton Ann Gernsbacher publicou um trabalho de síntese defendendo que a educação online pode ser benéfica se se basear em princípios fundamentais de aprendizagem que são válidos em geral. Esta ideia parece reunir um consenso alargado.

Por exemplo, se educação online se traduzir em sessões de aprendizagem mais curtas e mais frequentes, pode ajudar a um melhor domínio dos conceitos. De facto, a investigação clássica em memória indica-nos que a repetição frequente e devidamente espaçada tende a aumentar a aprendizagem (Underwood, 1961). Esta noção é semelhante à ideia de que a prática distribuída no tempo leva a uma aprendizagem mais eficaz do que a prática concentrada (Benjamin & Tullis, 2010). Ao que parece, este benefício ocorre em estudantes de todas as idades (Seabrook 2005). Portanto, aulas online curtas mas frequentes podem mesmo ajudar muito os estudantes.  

Outro benefício possível da educação online é permitir que cada estudante escolha, dentro de certos limites, o momento em que estuda, aproveitando a altura do dia em que beneficiará mais do visionamento de uma aula gravada ou do acesso a materiais de apoio – vários estudos científicos mostram que cada pessoa tem certas alturas do dia durante as quais a sua atenção, memória, e compreensão estão mais aguçadas (May, 1999; Natale & Lorenzetti, 1997). Em particular, os adolescentes podem beneficiar mais de episódios de aprendizagem ao final da tarde, após o dia de escola tradicional (Kim 2002, American Academy of Pediatrics, 2014). 

De acordo ainda com Gernsbacher (2015), a educação online ou, pelo menos, com apoio online, pode ajudar os alunos a explorarem os tópicos de estudo mais profundamente do que fariam apenas numa aula tradicional, uma vez que têm toda a informação na internet logo ao seu dispor. A disponibilidade de tanta informação poderá também, se correctamente orientada, incentivar o pensamento crítico dos alunos, que terão de seleccionar a informação relevante e correcta1 e utilizar estratégias de aprendizagem que aumentem a assimilação dos conceitos. Mas, como sempre, nada é garantido e em tudo é decisivo o acompanhamento do professor

A utilização de vídeos e videoconferência, que são também possibilidades da educação online, podem reduzir as desvantagens do ensino não presencial, ajudando a manter alguma interacção social que é tão importante nas salas de aula. Gernsbacher (2015) dá o exemplo de como envolve os estudantes das aulas de Psicologia no ensino superior que dá online: cada aluno escreve cerca de 85 posts durante um semestre (o equivalente a um trabalho de cinco páginas por semana, durante 15 semanas); alguns destes posts são lidos e revistos pelo professor, mas a maior parte é lida pelos outros alunos. Assim, a educação online pode aumentar a leitura e a produção escrita por parte dos alunos (Gernsbacher, 2014), bem como treiná-los para escrever para audiências diversas, melhorando a sua capacidade de usar a escrita para comunicar. De facto, escrever para a internet pode aumentar a correcção gramatical e sintáctica (Gaddis et al., 2000).


Estes benefícios da educação online estão todos ligados à aplicação de princípios fundamentais de aprendizagem. Mostram como se pode tirar partido de uma situação que, à partida, poderia prejudicar a aprendizagem, e torná-la o mais positiva possível. 

Mas sim, nem tudo são rosas, não nos iludamos. Vários estudos mostraram efeitos negativos do ensino a distância (por exemplo, Bettinger, 2017). Em suma, há enormes desafios que advêm da necessidade de adoptar um sistema de aulas à distância, mesmo que seja por um curto período de tempo. Os professores devem tentar basear-se em princípios fundamentais de aprendizagem quando planeiam as aulas e actividades online – esses princípios são gerais, aplicam-se tanto no ensino remoto como presencial. E têm de tentar manter os alunos activos e motivados. Os alunos, por seu turno, têm o desafio de planear as suas actividades escolares e manter um ritmo de trabalho. E, tanto professores como alunos, têm de manter um sentido de comunidade e responsabilidade. 

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico.


Referências

1 Se, por um lado, a abundância de informação na internet pode ser assustadora, por outro, tendemos a subestimar quão correta esta informação é – por exemplo, a Wikipédia é já há bastantes anos pelo menos tão correta quanto a versão em livro da Encyclopedia Britannica (Giles, 2005).

American Academy of Pediatrics, «School start times for adolescents», Pediatrics 134, 2014, pp. 642-649. 

Benjamin, A. S., & Tullis, J., «What makes distributed practice effective?», Cognitive psychology, 61(3), 2010, pp. 228-247.

Bettinger, E. P., Fox, L., Loeb, S., & Taylor, E. S., «Virtual classrooms: How online college courses affect student success», American Economic Review, 107(9), 2017, pp. 2855-75.

Gaddis, B., Napierkowski, H., Guzman, N., e Muth, R., «A Comparison of Collaborative Learning and Audience Awareness in Two Computer-Mediated Writing Environments», 2000.

Gernsbacher, M. A., «Internet-based communication», Discourse processes, 51(5-6), 2014, pp. 359-373.

Gernsbacher, M. A., «Why internet-based education?», Frontiers in Psychology, 5, 2015, 1530.

Giles, J., «Internet encyclopaedias go head to head», Nature 438, 2005, pp. 900-901.

Kim, S., Dueker, G. L., Hasher, L., & Goldstein, D., «Children's time of day preference: age, gender and ethnic differences», Personality and individual differences, 33(7), 2002, 1083-1090.

May, C. P., Hasher, L., & Stoltzfus, E. R., «Optimal time of day and the magnitude of age differences in memory», Psychological Science, 4(5), 1993, pp. 326-330.

Natale, Vincenzo, e Roberta Lorenzetti, «Influences of morningness-eveningness and time of day on narrative comprehension», Personality and Individual differences 23, no. 4, 1997, pp. 685-690.

Seabrook, R., Brown, G. D., & Solity, J. E., «Distributed and massed practice: From laboratory to classroom», Applied cognitive psychology, 19(1), 2005, pp. 107-122.

Underwood, B. J., «Ten years of massed practice on distributed practice», Psychological Review, 68(4), 1961, 229.


Receba as nossas novidades e alertas

Acompanhe todas as novidades.
Subscrever