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A irregularidade dos padrões de sono dos adolescentes é geralmente motivo de atrito em muitas casas. Ficar acordado até tarde, resistir a acordar de manhã com o despertador e dormir mais horas aos fins de semana é a descrição típica das rotinas de um adolescente. No entanto, nos últimos anos, os estudos sobre o sono revelaram que o relógio biológico faz um ajuste e avança na adolescência. Esta modificação surge em função das transformações biológicas e de influências psicológicas que ocorrem nesta fase do desenvolvimento.

Adolescentes com práticas pouco respeitadoras de uma noite inteira de sono são comuns em qualquer parte do mundo1-4, e em Portugal não é exceção5. No âmbito do projeto nacional Sono-Escolas, 400 adolescentes entre os 13 e os 18 anos foram analisados quanto aos seus hábitos de sono, e verificaram-se acentuadas irregularidades nas horas de deitar e de levantar bem como no tempo total de sono, quer durante a semana (com uma média de sono de 7 horas e 41 minutos, ou seja, abaixo do limite recomendado) quer aos fins de semana (com uma média de 9 horas e 46 minutos, ou seja, mais duas horas do que durante a semana). Nas autoperceções, os adolescentes portugueses consideraram não dormir o suficiente (60,8%). Durante a semana, as causas mais apontadas são os “barulhos no quarto” e “pensar em problemas” e, ao fim de semana, o “ver televisão até tarde” e “festas à noite”.6

No sono saudável dos adolescentes foi identificada uma maturação dos processos homeostáticos e circadianos que regulam o sono.7 Isto significa que, ao contrário das crianças, os adolescentes tendem a ficar mais alerta até mais tarde durante a noite, aumentando a resistência em acomodar-se ao sono. Geralmente isto acontece porque a produção da melatonina (conhecida como a hormona do sono por causar sonolência) é segregada mais tarde. De manhã, os adolescentes ainda apresentam níveis elevados de melatonina e, em consequência, ficam sonolentos, alguns até mesmo a meio do dia, independentemente dos seus hábitos de sono. Um mecanismo que pode explicar o atraso no ritmo circadiano durante a puberdade é a existência de um período intrínseco mais longo (isto é, a duração interna do dia).8 Alguns autores descrevem como a combinação destas mudanças maturacionais levam os adolescentes a dormir mais tarde, enquanto as exigências da sociedade, como os horários de início da escola, resultam num padrão de sono insuficiente pela falta de tempo.9 Assim, parece que o tempo biológico está dessincronizado do tempo exigido pela sociedade, em geral, e pela escola, em particular. Situação esta que tem vindo a preocupar os especialistas do sono, uma vez que estes acreditam que a atividade cerebral, enquanto se dorme, pode fornecer uma janela única na maturação cortical do adolescente10, 11, já que é também durante este período de descanso que são produzidas proteínas essenciais para o cérebro.12

O uso abusivo dos dispositivos eletrónicos (ex.: smartphones, tablets) – um reflexo da procrastinação natural do deitar – também é prejudicial, pois o tempo de exposição à luz azul emitida por estes dispositivos durante a noite impede a produção natural da melatonina e faz despertar o circuito cerebral como se este estivesse a receber sinais de alerta.13,14 Mas, independentemente desta prática, é natural que um adolescente não se torne facilmente uma “pessoa da manhã”

Adequar o tempo social

Nos últimos anos, surgiram estudos, conduzidos em Inglaterra e nos EUA, que mostram que os estudantes adolescentes que começaram o dia escolar cerca de uma hora mais tarde aumentaram a sua assiduidade, o seu desempenho académico (com um aumento de 4,5% nas notas) e a saúde em geral15,16. Além disso, esta alteração da organização institucional trouxe poucos custos associados.17

A mudança no desenvolvimento dos ritmos durante a transição para a adolescência pode assim fornecer informações sobre as diferenças individuais nos resultados escolares e nos problemas comportamentais.18,19 Estudos com crianças entre 11 e 14 anos, testadas pela manhã ou à tarde, verificaram que aquelas tinham melhor desempenho nas medidas de funcionamento executivo quando testadas nos seus momentos ideais (versus não ideais) do dia, mesmo quando controladas a duração do sono do dia a dia e a da noite anterior.20 A maioria das crianças mais velhas, para as quais o nível de excitação é maior no final do dia, apresentaram melhor funcionamento executivo quando testadas à tarde, enquanto a maioria das crianças mais novas, para as quais a excitação é maior no início do dia, apresentaram melhor funcionamento executivo quando testadas pela manhã. 

Reunidos estes dados, é inevitável que se reflita sobre como esta evidência é compatível com a escola, quando, na sua grande maioria, as aulas arrancam às 08.00 para todos os alunos. Seguindo esta lógica, estamos a banir o tempo biológico de muitos adolescentes, que podem estar a perder cerca de duas a três horas de sono, todas as noites, durante a semana. Através de uma recente metanálise, foi analisada a associação entre a duração do sono e os planos de suicídio, indicando que o risco de suicídio nos adolescentes diminui estatisticamente em 11% a cada hora extra na duração do sono.21

A evidência científica sobre os prejuízos da privação do sono nesta fase de desenvolvimento já levou várias escolas nos EUA a atrasarem o início do horário escolar e, recentemente, o estado da Califórnia implementou um projeto-lei que prevê que todas as escolas públicas, correspondentes ao nosso Ensino Básico e Secundário, só comecem as aulas a partir das 08.30.22

Não é novo este debate sobre ajustar os horários escolares àqueles que são os seus principais destinatários, mas com as últimas investigações a reforçar os benefícios do começo mais tardio das aulas para os adolescentes reacende-se a discussão entre cientistas, profissionais de saúde, comunidade escolar e lideranças educativas. A neurobiologia até pode não servir para justificar tudo, mas também não se pode ignorar que as mudanças nos padrões de sono nestas idades são determinadas biologicamente e estão sustentadas pela literatura científica. As escolas, de alguma forma, deviam ter em linha de conta esta convergência de influências biológicas, psicológicas e socioculturais.

Referências

1 Zhang, J., Paksarian, D., Lamers, F., Hickie, I. B., He, J., & Merikangas, K. R., «Sleep patterns and mental health correlates in US adolescents», The Journal of Pediatrics, 182, 2017, pp. 137–143.

2 Dorofaeff, T. F., & Denny, S., «Sleep and adolescence. Do New Zealand teenagers get enough?», Journal of Paediatrics and Child Health, 42(9), 2006, pp. 515–20.

3 Gibson, E. S., Powles, A. C., Thabane, L., et al., «“Sleepiness” is serious in adolescence: two surveys of 3235 Canadian students», BMC Public Health, 6, 2006, 116.

4 Yang, C. K., Kim, J. K., Patel, S. R., et al., «Age-related changes in sleep/wake patterns among Korean teenagers», Pediatrics, 115(1 Suppl), 2005, pp. 250–6.

5 Paiva, T., Gaspar, T., & Matos, M. G., «Sleep deprivation in adolescents: correlations with health complaints and health-related quality of life», Sleep Medicine, 16(4), 2015, pp. 521–527.

6 Pinto, T. R., Pinto, J. C., Rebelo-Pinto, H., Paiva, T., «O sono em adolescentes portugueses: Proposta de um modelo tridimensional», Análise Psicológica, 4 (XXXIV), 2016, pp. 339–352.

7 Tarokh, L., Raffray, T., Van Reen, E., Carskadon, M. A., «Physiology of normal sleep in adolescents», Adolescent Medicine, 21(3), 2010, pp. 401–17.

8 Carskadon, M. A., Vieira, C., & Acebo, C., «Association between puberty and delayed phase preference», Sleep, 16(3), 1993, pp. 258–62.

9 Carskadon, M., «Sleep in Adolescents: The Perfect Storm», Pediatric Clinics of North America, 2011, pp. 637–647.

10 Tarokh, L., Saletin, J. M., & Carskadon, M. A., «Sleep in adolescence: Physiology, cognition and mental health», Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 70, 2016, pp. 182–188.

11 Crowley, S. J., Van Reen, E., LeBourgeois, M. K., Acebo, C., Tarokh, L., et al., «A longitudinal assessment of sleep timing, circadian phase, and phase angle of entrainment across human adolescence», PLoS ONE 9(11), 2014, e112199.

12 Cirelli, C., & Tononi, G., «Linking the need to sleep with synaptic function», Science, 366 (6462), 2019, pp. 189–190.

13 Hale, L., & Guan, S., «Screen time and sleep among school-aged children and adolescents: A systematic literature review», Sleep Medicine Reviews, 21, 2015, pp. 50–58.

14 Orben, A., & Przybylski, A. K., «The association between adolescent well-being and digital technology use», Nature Human Behaviour, 3, 2019, pp. 173–182.

15 Dunster, G. P., de la Iglesia, L., Ben-Hamo, M., Nave, C., Fleischer, J. G., Panda, S., & de la Iglesia, H. O., «Sleepmore in Seattle: Later school start times are associated with more sleep and better performance in high school students», Science Advances, 4(12), 2018, eaau6200.

16 Boergers, J., Gable, C. J., & Owens, J. A., «Later school start time is associated with improved sleep and daytime functioning in adolescents», Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics, 35(1), 2014, pp. 11–17.

17 Kelley, P., Lockley, S. W., Foster, R. G., & Kelley, J., «Synchronizing education to adolescent biology: “let teens sleep, start school later”», Learning, Media and Technology, 40(2), 2014, pp. 210–226.

18 Wolfson, A. R., & Carskadon, M. A., «Understanding adolescent’s sleep patterns and school performance: a critical appraisal», Sleep Medicine Reviews, 7(6), 2003, pp. 491–506.

19 Goldstein, D., Hahn, C. S., Hasher, L., Wiprzycka, U. J., Zelazo, P. D., «Time of day, intellectual performance, and behavioral problems in morning versus evening type adolescents: Is there a synchrony effect?», Personality and Individual Differences 42(3), 2007, pp. 431–440.

20 Hahn, C., Cowell, J. M., Wiprzycka, U. J., Goldstein, D., Ralph, M., Hasher, L., & Zelazo, P. D., «Circadian rhythms in executive function during the transition to adolescence: the effect of synchrony between chronotype and time of day», Developmental Science, 15(3), 2012, pp. 408–416.

21 Chiu, H.-Y., Lee, H.-C., Chen, P.-Y., Lai, Y.-F., & Tu, Y.-K., «Associations between sleep duration and suicidality in adolescents: A systematic review and dose–response meta-analysis», Sleep Medicine Reviews, 42, 2018, pp. 119–126.

22 https://leginfo.legislature.ca.gov/faces/billTextClient.xhtml?bill_id=201920200SB328

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