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A inserção de imagens ou elementos textuais secundários interessantes mas irrelevantes (trocadilhos ou factos curiosos) é uma prática comum na apresentação de textos em livros, revistas ou noutro tipo de suportes. O objetivo desta estratégia é incentivar a leitura, mas a investigação tem mostrado que a aprendizagem pode ser menor quando estes conteúdos acessórios estão presentes: Ruth Garner e outros dois investigadores identificaram esta consequência, à qual chamaram o «efeito dos pormenores sedutores».

Para identificar as possíveis causas deste efeito é necessário ter em conta os processos mentais envolvidos na compreensão de material escrito. Segundo descreveu Walter Kintsch em 1988, a capacidade de entender um texto implica a construção de um modelo mental do que é lido. Exige, pois, uma representação mental das pessoas, conceitos, contextos e ações referidos explicitamente ou inferidos, para lhes fornecer sentido. A criação deste modelo mental requer o direcionamento da atenção e a escolha da informação relevante para a compreensão, uma organização mental coerente dos dados extraídos, de modo a dar-lhes sentido, e uma integração entre as diferentes ideias contidas no texto, bem como entre estas e os conhecimentos prévios do leitor. É desta integração que depende a realização de inferências, ideias deduzidas pelo leitor mas não apresentadas de modo explícito.

Na literatura surgem maioritariamente três hipóteses para explicar o «efeito dos pormenores sedutores», todas elas associadas à interferência nos processos acima referidos: distração, disrupção e desvio. Tais categorias indicam que os elementos secundários levam os leitores a focarem-se em informação irrelevante em vez de se concentrarem no conteúdo pertinente do texto principal (distração); interferem com o fluxo da leitura, dificultando, por exemplo, a compreensão de relações de causa-efeito, o que impede o estabelecimento da coerência entre as ideias veiculadas no texto principal (disrupção); e ativam conhecimentos prévios inadequados que, por sua vez, fazem com que o modelo mental seja construído com base nesta informação e não em conhecimentos prévios relevantes para a compreensão do texto (desvio ou afastamento).

Lisa Bender, Alexander Renkl e Alexander Eitel exploraram, já em 2021, estas três explicações. No seu estudo utilizaram uma metodologia que permite avaliar os processos mentais envolvidos na leitura: o protocolo de pensamento em voz alta, em que os sujeitos verbalizam os pensamentos na realização de uma tarefa.

Apresentaram aos participantes um texto de 537 palavras, em quatro páginas, sobre os processos envolvidos na formação de relâmpagos. Cada página incluía uma ilustração específica, com as respetivas legendas. Embora estivessem relacionadas com o texto, as imagens eram irrelevantes: enquanto o conteúdo textual focava o processo de formação dos relâmpagos, as ilustrações mostravam apenas as consequências dos mesmos. O estudo envolveu 113 participantes, maioritariamente alunos do ensino superior, distribuídos por dois grupos: um que leu o texto acompanhado pelas ilustrações (os «pormenores sedutores») e outro ao qual não apresentaram nenhuma imagem.

Durante a leitura do texto, a equipa gravou os movimentos dos olhos dos sujeitos utilizando equipamento de rastreamento ocular. Os investigadores concentraram-se nas sacadas (movimentos rápidos e abruptos feitos pelos olhos quando passam de um ponto de fixação para outro) e nas fixações (pausas no movimento ocular, em que o foco é mantido num determinado ponto). Após a leitura, mostrou-se a cada um dos participantes a gravação dos movimentos oculares, e os investigadores solicitaram que verbalizassem os pensamentos que lhes ocorreram enquanto progrediam na leitura. 

Categorizaram-se os pensamentos verbalizados em função das três hipóteses: indicadores de um efeito de distração («Aqui olhei primeiro para a imagem porque ela chamou a minha atenção»), de disrupção («Aqui olhei para a imagem, mas não percebi qual a sua relação com o tema») ou de desvio («Depois de ter visto isto, pensei como é que o rapaz poderia ter sobrevivido [ao relâmpago]»).

Mediu-se a aprendizagem do material lido num teste de escolha múltipla que implicava a realização de inferências (tarefa de transferência) e num exercício em que se pediu aos participantes que listassem livremente, durante seis minutos, todas as ideias do texto das quais se recordavam (tarefa de evocação).

Os resultados mostraram que a presença dos «pormenores sedutores» tinha efeitos negativos na aprendizagem do material lido, mas apenas na tarefa que implicava a realização de inferências, e somente nos participantes com menor rendimento académico. No que respeita aos pensamentos verbalizados pelos participantes do grupo que leu o texto ilustrado, verificou-se uma frequência esmagadora de ideias relacionadas com um efeito de desvio: 73,5% dos participantes indicaram pelo menos dois momentos em que estas estiveram presentes, em contraponto com apenas 18,9% e 9,4% para as ideias relacionadas com os efeitos de distração e disrupção, respetivamente. Os investigadores não encontraram qualquer relação entre a aprendizagem do material lido e os efeitos de distração e de disrupção. No entanto, concluíram que o efeito de desvio está associado a um menor grau de aprendizagem, medido na tarefa de evocação.

Os dados indicam que os «pormenores sedutores» exercem efeitos negativos na aprendizagem do material escrito, sendo especialmente prejudiciais em alunos de menor rendimento académico. Tal resultado indicia que este efeito detrator surge essencialmente quando o leitor não possui recursos cognitivos suficientes, como capacidade de memória para processar adequadamente a informação apresentada. Além disso, concluiu-se que este efeito negativo ocorre principalmente porque os leitores se focam na informação irrelevante, constroem significados a partir da mesma e deixam de lado os elementos relevantes do texto, levando a que, mais tarde, não consigam recordar com facilidade o conteúdo principal.

A investigação parece, pois, sugerir que, ao contrário da prática comum, deve evitar-se usar imagens, ilustrações, trocadilhos e outros tipos de informação irrelevante para a compreensão de um texto.


Bibliografia

Bender, L., Renkl, A., & Eitel, A. (2021). When and how seductive details harm learning. A study using cued retrospective reporting. Applied Cognitive Psychology, 1-12. http://doi.org/10.1002/acp.3822

Garner, R., Gillingham, M. G., & White, C. S. (1989). Effects of “seductive details” on macroprocessing and microprocessing in adults and children. Cognition and Instruction, 6(1), 41-57. https://doi.org/10.1207/s1532690xci0601_2

Kintsch, W. (1988). The role of knowledge in discourse comprehension: A construction-integration model. Psychological Review, 95(2), 163–182.


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