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A pandemia obrigou-nos a grandes adaptações, incluindo o encerramento de escolas e a incerteza sobre a sua reabertura.  O custo real da paralisação das escolas tem sido largamente subestimado.  As crianças que se encontram atualmente em idade escolar irão sofrer perdas nos seus rendimentos ao longo da vida. E Portugal assistirá a sérias perdas económicas.

Não é possível prever se as escolas irão retomar o seu funcionamento normal no outono, mas mesmo que o retomem, os problemas económicos causados pela pandemia não serão resolvidos.  Na nossa mais recente análise publicada pela OCDE,  estimamos que a coorte de alunos entre os 5 e os 18 anos, afetada pelo encerramento das escolas na passada primavera, sofrerá uma perda de rendimentos ao longo da vida igual ou superior a 3% - e isto se as escolas regressarem de imediato aos níveis de desempenho de 2019. Se o processo de reabertura das escolas se revelar mais complexo, os prejuízos serão proporcionalmente maiores.

 

Em muitos países, cada ano letivo adicional traduz-se num aumento de cerca de 10% dos rendimentos

Hanushek E.A e Woessmann L., The Economic Impacts of Learning Losses, OCDE 2020

O país também enfrentará um futuro menos animador.  As recentes perdas de aprendizagem implicarão um crescimento mais lento, já que o desenvolvimento económico depende, em grande medida, dos conhecimentos e capacidades da sociedade.  Tomando como base os padrões históricos, o encerramento das escolas na passada primavera poderá provocar uma queda de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) médio para o restante do século.  Na cotação atual do euro, estima-se que Portugal perca mais de 212 mil de milhões de euros de PIB.  

Queda do PIB a longo prazo devido às perdas de aprendizagem induzidas pela pandemia do coronavírus

Perda de aprendizagem (equivalências por ano escolar)

Em % do PIB futuro descontado

Em % do PIB atual

Queda do PIB no ano de 2100

0,25

1,1%

52%

1,9%

0,33

1,5%

69%

2,6%

0,50

2,2%

103%

3,8%

0,67

2,9%

136%

5,1%

1,00

4,3%

202%

7,5%

Fonte: cálculos dos autores com base na publicação de Hanushek e Woessmann (2015). “Basic Universal Skills: What Countries Stand to Gain” (Capacidades básicas universais: o que têm os países a ganhar) da OCDE. 

 

Importa ainda notar que o impacto do encerramento das escolas na aprendizagem dos alunos foi extremamente variável.  Embora algumas escolas tenham encontrado formas de se adaptarem rapidamente ao ensino a distância, e alguns pais tenham encontrado formas de compensar o papel diminuído das escolas, a maior parte dos alunos sofreu perdas de aprendizagem que os acompanharão para o resto da vida.

É quase certo que estes prejuízos serão mais acentuados para os alunos cujos pais estão menos aptos a intervir e a substituir o papel dos professores.  Não basta transpor a “barreira digital” para eliminar as disparidades crescentes no aproveitamento escolar, já que os alunos com menor aproveitamento precisam de ajuda humana para se adaptarem a novos métodos de ensino. E o aumento das disparidades de aprendizagem deverá gerar desigualdades salariais ainda mais acentuadas no futuro.

 

 «O bom aproveitamento escolar não se reflete apenas no aumento dos rendimentos individuais, mas também no aumento global dos salários nacionais. As competências cognitivas básicas, conforme medidas em testes comparativos internacionais para estudantes de matemática e ciências, são provavelmente o fator mais determinante para o crescimento económico e, consequentemente, para a prosperidade social a longo prazo.»

Hanushek E.A e Woessmann L., The Economic Impacts of Learning Losses, OCDE 2020

Enquanto as escolas testam diferentes estratégias de reabertura, qualquer regresso rápido aos níveis de desempenho anteriores parece improvável. E à medida que os prejuízos de aprendizagem se acumulam, as projeções iniciais dos custos implicados agravam-se.

Enquanto a pandemia permanece ativa e as escolas procuram retomar os seus programas educativos, é natural que seja dada uma maior ênfase à mecânica e à logística necessárias para garantir um regresso seguro à escola. Ainda assim, o impacto económico a longo prazo também exige atenção imediata. Os prejuízos já incorridos requerem medidas mais eficazes do que as sugeridas até ao momento nas melhores propostas de reabertura.

Não basta regressar aos níveis de desempenho pré-COVID. As perdas de aprendizagem só serão colmatadas se as escolas se tornarem mais eficazes do que eram anteriormente, o que não é, de todo, impossível.  A investigação aponta para um caminho onde se poderão retirar benefícios das alterações induzidas pela pandemia no sistema de ensino tradicional.

As escolas estão a evoluir rapidamente para novos modelos de ensino, que incluem diferentes cargas horárias de trabalho on-line, apresentações assíncronas e instrução presencial. A investigação tem demonstrado que os níveis de eficácia dos professores são altamente variáveis, e é provável que estas variações se ampliem quando alguns professores são mais eficazes no ensino presencial e outros no ensino a distância.  Se as escolas tirarem partido daquilo que cada professor tem de melhor para oferecer, essa melhoria educativa poderá beneficiar o desempenho das escolas e minorar as recentes perdas de aprendizagem. Por exemplo, os professores mais eficazes no ensino à distância poderiam aceitar mais alunos, permitindo mais apoio para os outros.

Além disso, com o provável aumento das disparidades de aprendizagem entre alunos da mesma turma após a reabertura das escolas, os alunos beneficiariam largamente de um ensino que possa adaptar-se às dificuldades de cada um, permitindo que alunos da mesma turma possam trabalhar de formas diferentes, focando-se sempre no domínio dos mesmos conteúdos.  Com este grau de adaptação, todos melhoram.

A reabertura das escolas impõe novos desafios.  Independentemente da abordagem adotada, os enormes prejuízos económicos associados às perdas de aprendizagem têm de ser colmatados, sendo que as melhores propostas atuais de reabertura são ainda insuficientes para travar os crescentes défices de aprendizagem.

 

Eric A. Hanushek é membro sénior da Instituição Hoover da Universidade de Stanford e Ludger Woessmann é professor de economia na Universidade de Munique.  A análise apresentada pelos autores foi publicada pela OCDE.

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