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O provérbio popular «não deixes para amanhã o que podes fazer hoje» é conhecido de todos, mas isso não impede muitos adolescentes de serem mestres em procrastinação académica1. Este comportamento, identificado em diversos contextos culturais2,3, traduz-se num adiamento deliberado e intencional de tarefas escolares. Tornou-se importante discutir a regularidade desta ação nos adolescentes, por esta ter impactos negativos no seu desempenho escolar e bem-estar psicológico4,5.

Os adolescentes trocam com facilidade as tarefas escolares por atividades que lhes dão prazer imediato, como jogos, vídeos ou conversas no WhatsApp. Ainda mais agora, que o estudo autónomo assumiu um enorme peso no quotidiano dos estudantes. A boa notícia é que a capacidade de autorregulação e a perceção de auto-eficácia podem atenuar este fenómeno problemático, mas comum na educação – a procrastinação académica dos adolescentes.

Na tentativa de compreender o caráter da procrastinação, vários autores exploraram fatores intrapessoais, como a personalidade6, a autoestima7, a motivação para a realização8, a perceção de autoeficácia9 e a perceção do tempo10, relacionando-os com a procrastinação académica. Outros autores observaram fatores sócio-pessoais, como a educação dos pais e número de irmãos11, as práticas parentais12 e a influência dos pares13,14.

A investigação tem mostrado que quem procrastina normalmente distorce a forma como pensa e como esta é promotora do vício de adiar. Por exemplo, os jovens subestimam a quantidade de tempo necessária para concluir a tarefa, e/ou acreditam que precisam de estar motivados ou de bom humor e que, sem isso, não terão muito sucesso na sua concretização15.

A autorregulação e o peso da puberdade 

Vários ângulos teóricos e estudos sobre a procrastinação académica apoiam a existência de uma falha na aprendizagem da autorregulação16 que pode ser resolvida17 e que assume especial importância no período da adolescência dada a janela de oportunidade no desenvolvimento das funções executivas. A capacidade para planear a conclusão de um projeto escolar mais complexo depende principalmente de uma parte do cérebro chamada córtex pré-frontal que não atinge a maturação até aos 20 anos18. Daí que o protelar de tarefas escolares pode estar relacionado com o desenvolvimento do cérebro adolescente e não ser simplesmente uma atitude de preguiça ou de esquecimento.

Este comportamento dilatório é visto como sendo uma máscara psicológica, explicada pela tentativa de o adolescente isolar as repercussões na autoestima ao atribuir o fracasso a um erro de estratégia e não à falta de capacidade4. O foco na estratégia é que permite transferir a culpa pelos maus resultados para fatores externos. Ao falhar pela questão do prazo, surge o pensamento «se não tivesse esperado até o último minuto, teria feito muito melhor». Se, por sua vez, o adolescente conseguir ser bem-sucedido, os sentimentos de valor próprio aumentam porque os resultados desejados foram alcançados, apesar de ter adiado a tarefa ao máximo. Assim, independentemente do resultado, a autoestima parece permanecer sempre intacta5

Em 1984, Martin Covington, conhecido como o arquiteto da teoria do valor próprio, afirmava que é da nossa natureza estarmos dispostos a «suportar as dores da culpa, em vez da humilhação da incompetência»19. Aliando esta tendência humana à fase de desenvolvimento com maior peso no processo de construção da identidade, não é assim de estranhar que este seja um comportamento comum nos adolescentes e que os mais seguros quanto à sua identidade sejam assim menos propensos à procrastinação20

Cinco maneiras de incentivar os alunos a não procrastinar

O que podem fazer os professores? Reunimos algumas da recomendações21 mais importantes derivadas da investigação recente.

  1. Fasear prazos. Em vez de propor um projeto com um único prazo, dividi-lo em várias tarefas com prazos uniformemente espaçados. Por exemplo, pedir vários rascunhos de um trabalho ou pedir que apresentem o seu progresso em pontos de verificação previamente especificados. Isto pode ser útil para os alunos que ficam paralisados por grandes projetos e prazos intimidatórios. Do lado do professor, permite detetar um problema em fase inicial e reduzir a ansiedade dos alunos. 
  2. Monitorizar e dar feedback. Os alunos, especialmente aqueles que têm fragilidades na autoestima, podem resistir a apresentar um bom trabalho se estiverem preocupados com críticas ou com o receio de falhar. Deve-se, pois, evitar dar um feedback altamente crítico, ou negativo, que pode ter a consequência não intencional de fazer com que os alunos se sintam nervosos ou constrangidos. Não esquecer a cautela necessária no feedback dado aos alunos em frente dos seus colegas, já que podem sentir-se desconfortáveis e desistirem de participar na tarefa.
  3. Ensinar estratégias de gestão do tempo de estudo. Muitos alunos ainda não desenvolveram as capacidades metacognitivas de que precisam para poder estudar com eficácia e perdem-se facilmente em ações simples, tais como agendar no seu dia tempo suficiente para estudar ou saber quando pedir ajuda. 
  4. Estar atento à carga de trabalho. A probabilidade de os alunos se atrasarem aumenta quando os prazos para diferentes trabalhos coincidem. Os alunos também experimentam níveis mais altos de ansiedade quando não conseguem gerir várias tarefas que são pedidas ao mesmo tempo. É importante que os professores sejam realistas e se coordenem, para que seja exequível o cumprimento dos vários prazos por parte dos alunos.
  5. Dar instruções e exemplos claros. É mais provável que os alunos adiem um trabalho se não entenderem claramente como começar. Logo, é importante verificar se todos os alunos conhecem os requisitos da tarefa, sendo mais seguro colocar as instruções por escrito para que possam consultá-las sempre que necessário. Dar exemplos de trabalhos anteriores também contribui para ajudá-los a entender melhor o que se espera da tarefa.

Outras estratégias clássicas, tais como mudar de ambiente de trabalho, repartir a tarefa e avançar em pequenas partes ou a técnica do Pomodoro (cronometrar para a cada 25 minutos de trabalho árduo fazer um intervalo de 5 minutos), podem também ser úteis. O difícil é sempre começar, mas ajudar a estabelecer pequenos compromissos, dando um breve empurrão para que não se pare até chegar ao intervalo desejado pode ser um caminho para ajudar o jovem resistir à grande tentação para procrastinar.

Referências
1 Ziegler, N., & Opdenakker, M.-C., «The development of academic procrastination in first-year secondary education students: The link with metacognitive self-regulation, self-efficacy, and effort regulation», Learning and Individual Differences, 64, 2018, pp. 71-82.

2 Klassen, R. M., & Kuzucu, E., «Academic procrastination and motivation of adolescents in Turkey», Educational Psychology, 29(1), 2009, pp. 69-81.

3 Svartdal, F., Pfuhl, G., Nordby, K., Foschi, G., Klingsieck, K. B., Rozental, A., et al., «On the measurement of procrastination: comparing two scales in six European countries», Frontiers in Psychology, 7:1307, 2016.

4 Schraw, G., Wadkins, T., e Olafson, L., «Doing the things we do: a grounded theory of academic procrastination», Journal of Educational Psychology, 99, 2007, pp. 12-25.

5 Kim, K. R., e Seo, E. H., «The relationship between procrastination and academic performance: a meta-analysis», Personality and Individual Differences, 82, 2005, pp. 26-33.

6 Beck, B. L., Koons, S. R., e Milgrim, D. L., «Correlates and consequences of behavioral procrastination: the effects of academic procrastination, self-consciousness, self-esteem, and self-handicapping», Journal of social behavior and personality, 15, 2000, pp. 3-13.

7 Chen, B.-B., Shi, Z., e Wang, Y., «Do peers matter? Resistance to peer influence as a mediator between self-esteem and procrastination among undergraduates», Frontiers in Psychology, 7:1529, 2016.

8 Saddler, C. D., e Buley, J., «Predictors of academic procrastination in college students», Psychological Reports, 84, 1999, pp. 686-688.

9 Klassen, R. M., Krawchuk, L. L., e Rajani, S., «Academic procrastination of undergraduates: low self-efficacy to self-regulate predicts higher levels of procrastination», Contemporary Educational Psychology, 33, 2008, pp. 915-931.

10 Chen, B.-B., e Kruger, D., «Future orientation as a mediator between perceived environmental cues in likelihood of future success and procrastination», Personality and Individual Differences, 108, 2017, pp. 128-132.

11 Rosário, P., Costa, M., Núñez, J. C., González-Pienda, J., Solano, P., e Valle, A., «Academic procrastination: associations with personal, school, and family variables», The Spanish Journal of Psychology, 12, 2009, pp. 118-127.

12 Pychyl, T. A., Coplan, R. J., & Reid, P. A., «Parenting and procrastination: gender differences in the relations between procrastination, parenting style and self-worth in early adolescence», Personality and Individual Differences, 33(2), 2002, pp. 271-285.

13 Nordby, K., Klingsieck, K. B., e Svartdal, F., «Do procrastination-friendly environments make students delay unnecessarily?», Social Psychology of Education, 20, 2017, pp. 491-512.

14 Chen, B.-B., & Han, W., «Ecological Assets and Academic Procrastination among Adolescents: The Mediating Role of Commitment to Learning», Frontiers in Psychology, 8, 2017.

15 Tuckman, B.W., Abry, D.A, & Smith, D.R., «Learning and Motivation Strategies: Your Guide to Success (2nd ed.)», Upper Saddle River, NJ: Pearson Prentice Hall, 2008.

16 Steel, P., «The nature of procrastination: A meta-analytic and theoretical review of quintessential self-regulatory failure», Psychological Bulletin, 133(1), 2007, pp. 65-94.

17 Grunschel, C., Patrzek, J., Klingsieck, K. B., & Fries, S., «“I’ll stop procrastinating now!” Fostering specific processes of self-regulated learning to reduce academic procrastination», Journal of Prevention & Intervention in the Community, 46(2), 2018, pp. 143-157.

18 Luna B., «The Maturation of Cognitive Control and the Adolescent Brain», In: Aboitiz F., Cosmelli D. (eds) From Attention to Goal-Directed Behavior, Springer, Berlin, Heidelberg, 2009, pp. 249-274. 

19 Covington, M. V., «The self-worth theory of achievement motivation: Findings and implications», The Elementary School Journal, 85(1), 1984, pp. 5-20.

20 Shanahan, M. J., & Pychyl, T. A., «An ego identity perspective on volitional action: Identity status, agency, and procrastination», Personality and Individual Differences, 43(4), 2007, pp. 901-911.

21 Terada, Y., «3 Reasons Students Procrastinate - and How to Help Them Stop», 2020.

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