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As questões acima enunciadas podem parecer, à primeira vista, estranhas, se não mesmo bizarras – qual será a relação entre a aprendizagem da leitura, da música e do xadrez? –, porque levantam dúvidas quanto ao que se sabe, há longos anos, acerca da dislexia. Mas o que se sabe afinal? Será o conhecimento, nesta área, incontroverso? Poderá a dislexia constituir um problema médico, quando não há intervenções médicas para o efeito (as intervenções são de cariz pedagógico ou psicopedagógico)? 

A literatura especializada tende a considerar que os problemas de leitura, normalmente designados dislexia, constituem uma dificuldade específica de aprendizagem, de origem neurológica, que se caracteriza por dificuldades no reconhecimento preciso e fluente de palavras (definição da International Dyslexia Association, a mais importante associação internacional dedicada aos problemas da leitura). A tendência, porém, está longe de representar unanimidade ou consenso. Autores como Protopapas e Parrila (2018), por exemplo, contestam esta formulação e consideram que ela transmite a ideia, «alarmante» e «não demonstrada», de que existe algo de errado no desenvolvimento do cérebro dos leitores fracos.

Para Protopapas e Parrila, a dislexia consiste numa dificuldade persistente e inesperada no desenvolvimento de capacidades apropriadas (para a idade e experiência) de leitura de palavras. Ser competente na leitura é ler com precisão (não cometer erros) e de forma eficiente (com velocidade), enquanto «ter dificuldades» se refere a ler de forma muito deficiente, ou ler com muito esforço e pouco préstimo. A definição de Protopapas e Parrilla centra o problema na leitura de palavras, excluindo intencionalmente a compreensão de texto. Nesta concepção, o termo «persistente» marca a diferença relativamente a problemas que são rapidamente ultrapassados. O termo «inesperada» refere-se, por sua vez, ao facto de a pessoa ter dificuldades na leitura, apesar de ser ‘normal’ (do ponto de vista cognitivo e sensorial) e de ter recebido instrução apropriada. 

Os autores sublinham que as estimativas de prevalência da dislexia, apresentadas na literatura especializada (entre 3,5 e 20%, ou mais), dão a falsa impressão de que existe um critério específico para o estabelecimento dessas estimativas, e que esse critério estará ligado a factores causais específicos e potencialmente identificáveis. Porém, em termos de leitura, as pessoas distribuem-se simplesmente num contínuo, sendo o ponto de corte para se afirmar que um sujeito é ou não disléxico totalmente arbitrário. Daí a variação das estimativas de prevalência (entre 3,5 e 20%). Não por acaso, autores como Margaret Snowling consideram que dislexia é apenas um nome para «leitura fraca», no sentido quantitativo do termo (por exemplo, ler poucas palavras por minuto e/ou com muitos erros), não existindo diferenças qualitativas entre leitores fracos e outros leitores

 

Falta demonstrar o que está errado no cérebro

Protopapas e Parrila questionam a noção de que a dislexia constitui uma perturbação neurodesenvolvimental, ou seja, um problema de origem neurológica que emerge num determinado momento do desenvolvimento do indivíduo. Se o desempenho numa tarefa isolada demonstrasse tal perturbação, argumentam, também as pessoas que cantam deficientemente, ou as que são más jogadoras de xadrez, seriam candidatas a ter uma perturbação neurodesenvolvimental

Revendo a literatura sobre a anatomia do cérebro de sujeitos disléxicos bem como os estudos com recurso a fMRI (Functional Magnetic Resonance Imaging), Protopapas e Parrila encontram três problemas sérios: (1) muitos estudos chegam a resultados diferentes entre si, e são inconclusivos; (2) os sujeitos estudados frequentemente só se representam a si próprios e não a uma categoria de pessoas com dificuldades idênticas na leitura; (3) quando comparam grupos de sujeitos, os investigadores sabem frequentemente quem integra cada um dos grupos, o que constitui uma falha metodológica grave. Tudo isto levanta dúvidas sobre a validade dos estudos.

 

As diferenças cerebrais entre grupos de leitores, invocadas nos trabalhos com recurso à imagiologia, não podem, em circunstância alguma, demonstrar que há alguma coisa errada no desenvolvimento cerebral, porque diferente não é o mesmo que errado, defendem Protopapas e Parrila.

São, por isso, particularmente enfáticos quanto à necessidade de os investigadores demonstrarem o que é que, no desenvolvimento do cérebro dos leitores fracos, não se desenvolveu como deveria, e de demonstrarem que aquilo que está errado está inequívoca e especificamente relacionado com os problemas de leitura. Os autores são francamente cépticos quanto à possibilidade de se fazer esta demonstração, já que a maioria das pessoas com dificuldades de leitura é perfeitamente normal e não revela dificuldades noutras áreas da vida. Falam normalmente, andam normalmente, estão perfeitamente integradas na sociedade e têm família. Na verdade, a sua única dificuldade reside na resposta a uma invenção humana: a escrita. Infelizmente para estas pessoas, a escrita tem um papel relevantíssimo nas sociedades modernas (ao contrário do xadrez ou do canto), pelo que o impacto dessas dificuldades é maximizado. 

Protopapas e Parrila fazem notar que afirmar que os disléxicos têm uma perturbação neurodesenvolvimental equivale a considerar que qualquer grupo de pessoas que tenha um desempenho abaixo da média, em qualquer competência, apresenta uma perturbação neurodesenvolvimental. É este o caso de pessoas que dançam ou cantam mal, ou que são fracas em qualquer modalidade desportiva (por exemplo, xadrez, basquetebol, etc.). Dado que, virtualmente, todas as pessoas têm dificuldades em diversas competências, a aplicação de critérios idênticos aos que se aplicam à dislexia implicaria que toda a gente tivesse, pelo menos, uma perturbação neurodesenvolvimental. Mais ainda: o critério da realização extrema candidataria igualmente as pessoas com desempenhos de topo à condição de pessoas «neurodesenvolvimental perturbadas» (por exemplo, «perturbação específica de grande mestre de xadrez», «perturbação específica de excelência matemática»).

 

Não saber ler, porque não se sabe ler

Protopapas e Parrila consideram, em síntese, que os baixos níveis de desempenho na leitura não constituem um sintoma de perturbação cerebral. São antes uma consequência de trajectórias de desenvolvimento normais, ainda que pouco eficientes, na aprendizagem da leitura e da escrita. Assim, ao afirmar que as dificuldades de leitura têm origem numa perturbação do desenvolvimento do cérebro, a investigação tem adoptado, de forma precipitada, uma posição que não tem suporte empírico. Ainda que se perceba que a intenção possa ser a de obtenção de apoios que, sem diagnóstico, não seriam atribuídos, a referência a perturbações inexistentes não será a melhor forma de abordar o problema, até porque a necessidade de apoio deriva das dificuldades de leitura, não de presumíveis perturbações no cérebro. Por fim, e não menos importante, estes autores consideram que a dislexia não é a causa dos problemas de leitura, mas uma designação para essas dificuldades. Ou seja, dizer que uma criança não consegue ler porque é disléxica, não é uma explicação, é uma descrição circular do problema, que equivale a afirmar que uma criança não sabe ler, porque não sabe ler. 

 

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

Referências

Protopapas, A., e Parrila, R., «Is dyslexia a brain disorder?», Brain Sciences, 8(4), 2018.

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