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Uma investigação recente veio mostrar que as práticas de literacia que as crianças têm com os pais influenciam o seu léxico e a atividade cerebral necessária à leitura.

Todas as interações de literacia que os pais têm com as crianças integram o chamado ambiente de literacia familiar, que inclui jogos de linguagem, o desenvolvimento da literacia em si e a disponibilização de material de leitura em casa. Sabe-se que estas interações influenciam o desenvolvimento de competências necessárias à leitura ao longo do período escolar. Na verdade, estudos anteriores já tinham mostrado que a disponibilização de mais materiais de leitura em casa originava um vocabulário mais amplo e maior competência de leitura nas crianças. Os estudos no âmbito da neuroimagem que avaliaram de que forma isto se processa no cérebro mostraram também que a qualidade das interações de literacia familiar influencia tanto a estrutura como a função de zonas do cérebro fundamentais na leitura, confirmando os benefícios das práticas de literacia entre pais e filhos.

Nesta nova análise, Cléa Girard e os colegas estudaram crianças do ensino básico para perceber se a atividade mental em zonas do cérebro responsáveis pelo reconhecimento de palavras dependia do ambiente de literacia familiar. Nesta experiência, pais com filhos de 8 anos responderam a um inquérito sobre a frequência das interações de literacia que tinham com os filhos. As perguntas dividiam-se entre práticas informais e formais: as primeiras referiam exercícios que implicavam a escrita, mas em que o fulcro da interação era outro (conversar sobre a escola ou cantar canções, por exemplo), e as segundas descreviam atividades em que a palavra impressa era central (como ouvir a criança ler em voz alta ou fazer perguntas enquanto esta lia em silêncio). Os resultados do inquérito foram comparados com os níveis de literacia das crianças e com a extensão do seu vocabulário, num exercício de definição de um máximo de 27 palavras com uma frequência decrescente de utilização. Os investigadores também avaliaram, numa ressonância magnética funcional, a atividade mental das crianças durante um exercício de reconhecimento de palavras.

Neste teste de neuroimagiologia, os cientistas adaptaram um exercício desenvolvido por Tyler Parrachione para o estudo da dislexia. Nesta experiência, os participantes olhavam para conjuntos de palavras idênticas (chamados «blocos de adaptação») e conjuntos de palavras diferentes (os «blocos de não-adaptação»). A comparação entre um bloco e outro permitiu estudar a região do cérebro fundamental no processamento da escrita: o efeito de adaptação neural. Este efeito mostrou ser muito importante na capacidade de leitura dos adultos. O estudo concluiu que o efeito de adaptação neural é mais fraco nos leitores com dislexia do que nos leitores típicos.

A análise de Girard destaca que, apesar de as práticas familiares não afetarem a facilidade de leitura nem a capacidade de processamento de informação visual das crianças, a maior frequência dessas práticas potencia um léxico mais vasto e maior capacidade de identificar repetições em palavras escritas (isto é, nos testes de associação de palavras avaliados pela ressonância magnética funcional). Observou-se esta vantagem nas regiões do cérebro associadas por regra à leitura, incluindo as circunvoluções frontais inferiores esquerdas. Sabe-se que esta zona do cérebro processa informação semântica e fonológica durante a leitura. É importante referir que os resultados deste estudo provaram ainda que a relação entre as práticas familiares de literacia e os processos mentais que sustentam a leitura nas crianças é influenciada pelo vocabulário, um precursor cognitivo da leitura.

Este estudo reforça a importância das práticas de literacia fora da sala de aula. As experiências familiares de literacia influenciam as regiões do cérebro responsáveis pela leitura e pela escrita, mas também favorecem a competência da leitura infantil através de precursores cognitivos, como o vocabulário.

 

 

Este texto teve edição de Ana Gerschenfeld, science writer da Fundação Champalimaud.

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