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A prática da recuperação – o acto de testar e reproduzir conhecimentos e informação a aprender – é uma estratégia educativa que ajuda a melhorar a memória e a aprendizagem a longo prazo1. Como revisões de literatura anteriores (e.g., Nunes & Karpicke, 2015) revelam, os benefícios de simplesmente recuperar factos em vez de os reler foram demonstrados em laboratório (vejamos, por exemplo, o artigo seminal de Roediger & Karpicke, 2006) assim como na sala de aula (e.g., McDaniel et al., 2011). Mas será que sabemos quão robustos são os benefícios de usar a prática de recuperação na sala de aula? E em que circunstâncias é a prática de recuperação mais benéfica?

No final de Outubro de 2019, foi apresentada uma revisão sistemática da investigação sobre prática da recuperação, conduzida no contexto de sala de aula real (Agarwal, Nunes, & Blunt, 2019). Uma base de dados com acesso público combina as análises de 50 experiências provenientes de 37 artigos, publicados em revistas científicas com revisão de pares entre 1999 e 2019 (clique aqui para aceder à base de dados e ao sumário do projecto). Embora este seja um trabalho em curso, a base de dados proporciona a investigadores e professores um acesso rápido a uma síntese dos factos sobre a prática da recuperação aplicada em salas de aula. 

Para esta revisão, fez-se uma busca bibliográfica nos principais repositórios científicos e identificaram-se as experiências nas quais a prática da recuperação foi comparada a práticas comuns em salas de aula autênticas, usando materiais de aprendizagem que faziam parte do currículo, durante o tempo regular de aula, e que demoravam o mesmo que as práticas comuns. Os estudos identificados foram categorizados de acordo com várias características de interesse, incluindo:

  • Níveis educativos (da escola primária à universidade);
  • Áreas disciplinares (incluindo Biologia, Química, Física, Psicologia, História, Escrita e Vocabulário, e Estatística);
  • Tipo de actividade de prática de recuperação (p. ex., aulas com questionários, questionários sobre definições, questionários com questões aplicadas);
  • Formato da actividade de prática de recuperação e do teste final (p. ex., escolha-múltipla, resposta curta, composição);
  • Espaçamento e frequência da actividade de recuperação (p. ex., todas as aulas, uma vez por semana, uma vez por mês); 
  • Tipo de tarefa de comparação (p. ex., aulas sem questionários, testes finais usados para avaliação, re-estudo);
  • Presença e tipo de feedback;
  • Número de alunos testados;

Os resultados preliminares desta revisão indicam que a prática da recuperação aumenta a aprendizagem quando aplicada na sala de aula. As 50 experiências revistas resultaram em mais de 60 comparações de interesse, 59 das quais podem ser traduzidas numa medida do tamanho do impacto de usar prática da recuperação. A figura 1 sumariza o tamanho dos efeitos de usar a prática da recuperação em vez de usar estratégias de aprendizagem mais tradicionais, que maioritariamente incluem a leitura ou deixar os alunos utilizar as suas próprias estratégias de estudo. Nós usamos o d de Cohen como medida do tamanho dos efeitos que, neste caso, representa a magnitude das mudanças introduzidas pelo uso da prática da recuperação. Efeitos entre 0.2 e 0.5 são considerados pequenos; entre 0.5 e 0.8 são considerados médios; e iguais ou maiores do que 0.8, grandes (Cohen, 1988). Em investigação aplicada, mesmo os efeitos pequenos podem ser importantes – imagine a importância de aumentar a aprendizagem de pelo menos um aluno ou a aprendizagem de pelo menos um tópico curricular. Os resultados desta revisão sistemática mostram que, em dois casos, a prática da recuperação parece ter diminuído o desempenho dos alunos. Em cinco casos, os benefícios da prática da recuperação foram muito pequenos; em 16 casos, os efeitos foram pequenos; em 15 casos, foram médios; e em 21 casos, grandes. Em suma, em 88% das comparações examinadas, o uso da prática da recuperação causou melhorias significativas na aprendizagem dos alunos.

Esta revisão mostra que, apesar das variáveis que os investigadores não podem facilmente controlar em estudos nas escolas, tais como o absentismo, motivações externas, ou actividades fora da sala de aula, estes estudos providenciam resultados semelhantes aos obtidos em ambientes altamente controlados, conduzidos em laboratório, e suportam as vantagens de usar a prática da recuperação. De momento, os resultados analisados permitem responder se a prática da recuperação de facto aumenta a aprendizagem em salas de aula reais – a resposta é “sim” –, mas futuras análises desta base de dados permitirão clarificar as circunstâncias que podem influenciar os benefícios desta prática, tais como o nível educativo, a área de estudo, ou o tipo de actividade de prática da recuperação.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico.

Referências:

1 Para uma descrição detalhada desta estratégia e de como aplicá-la, veja este artigo.

Agarwal, P. K., Nunes, L. D., & Blunt, J. R., «Benefits from retrieval practice in schools and classrooms: A systematic review of applied research in educational settings», manuscrito em preparação, 2019.

Cohen, J., «Statistical Power Analysis for the Behavioral Sciences», Nova Iorque, Routledge Academic, 1988.

McDaniel, M. A., Agarwal, P. K., Huelser, B. J., McDermott, K. B., & Roediger III, H. L., «Test-enhanced learning in a middle school science classroom: The effects of quiz frequency and placement», Journal of Educational Psychology, 103(2), 2011, pp. 399-414.

Nunes, L. D., & Karpicke, J. D., «Retrieval‐Based Learning: Research at the Interface between Cognitive Science and Education», em R. Scott e S. Kosslyn (Eds.), Emerging trends in the social and behavioral sciences: An interdisciplinary, searchable, and linkable resource, Nova Iorque, John Wiley  Sons Inc., 2015, p. 1-16.

Roediger III, H. L., & Karpicke, J. D., «Test-enhanced learning: Taking memory tests improves long-term retention», Psychological Science, 17(3), 2006, pp. 249-255.
 

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