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Uma equipa internacional de investigadores acabou de publicar na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences  os resultados de um estudo da qualificação da população ativa que inclui 185 países e procura investigar a forma como a educação formal se relaciona com a qualificação real da população adulta. Os resultados são preocupantes, pois mostram que, apesar de os países mais pobres terem conseguido avançar em termos de quantidade de educação, isto é, no número de anos de escolaridade dos jovens, o fosso na qualidade da educação, ou seja, nas suas qualificações reais, tem-se vindo a agravar.

Nas últimas décadas, os economistas têm destacado a importância do capital humano para o desenvolvimento dos países. Habitualmente, este conceito refere-se aos conhecimentos e capacidades que cada indivíduo possui e que se traduz na possibilidade de gerar retornos no mercado de trabalho. Mas, numa aceção mais ampla, traduz um conjunto de capacidades cognitivas e de preparação social que ultrapassa os retornos monetários e inclui benefícios na saúde, no comportamento social e na qualidade de vida.

Para o estudo comparado dos países no que se refere ao seu capital humano, economistas e demógrafos usam habitualmente a média dos anos de escolaridade da população adulta. Este indicador, contudo, tem bastantes limitações. Por um lado, há uma grande heterogeneidade entre as coortes populacionais. As faixas mais jovens são habitualmente mais escolarizadas e as mais idosas já não contribuem na mesma proporção para a força de trabalho de um país. Por outro lado, sabe-se que a qualificação real de um indivíduo se altera ao longo da sua vida de acordo com a sua escolarização inicial. Os mais escolarizados registam em média um aumento de qualificação real ligeiro até aos 40 anos de idade, altura em que iniciam um pequeno declínio. Os menos escolarizados registam em média um declínio acentuado até aos 40 anos, altura em que esse declínio abranda. Tudo isto mostra que a média de escolarização pode ser um indicador muito limitado da qualificação real da força de trabalho de um país.

Este grupo de pesquisadores usou um conjunto já vasto de inquéritos internacionais que estudam a qualificação das populações adultas, tais como o PIAAC (Program for the International Assessment of Adult Competencies), e conjugou os resultados desses inquéritos com a estrutura das qualificações escolares por idades e por país. Em síntese, construíram um indicador sintético a que chamaram SLAMYS (Skills in Literacy Adjusted Mean Years of Schooling). Esse indicador representa, pois, da melhor maneira possível à data, a conjugação os dados estatísticos existentes para estimar a qualificação real da população.

As conclusões do estudo são preocupantes e reforçam as preocupações com a qualidade da educação. O gráfico junto, adaptado do estudo publicado, expressa bem o que se passa. Desde 1970 até, sensivelmente, 1995, a diferença entre o número de anos médios de escolaridade da população dos países mais avançados na educação e dos menos desenvolvidos foi-se agravando, mas veio-se a reduzir bastante a partir daí. No entanto, a diferença entre os países na qualificação real da população tem-se vindo a agravar constantemente desde 1970, abrandando apenas um pouco entre 2005 e 2010.

Figura 1. A figura traça a evolução das diferenças médias de anos de escolaridade e diferenças médias de qualidade de formação entre os países. Estas diferenças são calculadas com base na média dos países no quartil superior e a média dos no quartil inferior. Verifica-se que a diferença entre o número de anos de escolaridade da população veio a aumentar até 1990-1995, altura em que atingiu o valor de quase oito anos e meio de escolaridade, e reduziu-se a partir dessa altura, estando em 2015 em cerca de sete anos e meio. São valores preocupantes. Mas mais grave é a diferença de escolarização ajustada para a qualidade de ensino, que tem vindo a subir, estando em 2015 em cerca de dez anos e meio. Isto quer dizer que a diferença entre países mais escolarizados e menos escolarizados ultrapassa os dez anos de estudos. Ou seja, os adultos ativos dos países mais bem colocados têm o equivalente a dez anos de estudos mais que os dos países menos bem colocados.

 

Na tabela junto, os dados mundiais são desagregados por países e regiões. À escala mundial, nota-se um aumento impressionante do número de anos de escolaridade, de uma média de 4,18 para 8,53 anos. É um progresso imenso, que foi acompanhado por semelhante progresso na qualidade da educação medida pelo indicador de qualidade, que evoluiu de 3,73 para 6,88. Mas este progresso mundial médio é longe de ser homogéneo. Enquanto o Leste Asiático revela o maior incremento de qualidade, de 3,16 para 8,35, a África subsaariana subiu de 0,79 para apenas 3,19. Isto significa que a média de qualificações desta região está quase 50 anos atrasada em relação ao Leste Asiático. A América Latina é outra região que se tem atrasado em relação ao avanço médio. Outros países, como a Singapura, o Japão e a Coreia do Sul revelam um avanço impressionante nas décadas do estudo, vindo a ultrapassar largamente os Estados Unidos e a Europa. Neste nosso continente, que, em média, está o equivalente a três anos de escolarização atrás do Japão e um atrás da América do Norte, a Finlândia e Portugal revelam um progresso notável no período considerado. No nosso país, no entanto, as qualificações reais continuam bastante inferiores às da média europeia.

nivel medio de escolarizacao vs qualificacoes reais

Figura 2. A tabela mostra a evolução do número de anos de escolarização média da população adulta (MYS, Mean Years of Schooling) de várias regiões e países e a evolução média da qualificação real (SLAMYS, Skills in Literacy Adjusted Mean Years of Scholing) das mesmas regiões e países para as mesmas populações. Esta qualificação real é expressa no equivalente ao número de anos de escolaridade ajustada pela qualificação real obtida. Verifica-se, por exemplo, que a escolaridade média da população portuguesa subiu em cerca de seis anos e meio de 1970 para 2015; no mesmo período, a qualificação real subiu em montante equivalente também a cerca de seis anos e meio. Mais preocupante, apesar de haver países e regiões em que o fenómeno é verdadeiramente mais alarmante, a qualificação real manteve-se um pouco inferior à qualificação medida apenas em anos de escolarização.

 

Em síntese, conforme os autores sublinham, “em muitos países, a expansão em quantidade registou-se à custa de uma diminuição da qualidade.” E acrescentam, que “dada a importância do capital humano qualificado nas sociedades de conhecimento modernas, esta é uma tendência preocupante, agravando a situação de crise escolar provocada pelo COVID-19.”


Referências

Wolfgang Lutz, Claudia Reiter, Caner Özdemir, Dilek Yildiz, Raquel Guimaraes, Anne Goujon. Skills-adjusted human capital shows rising global gap. Proceedings of the National Academy of Sciences, Feb 2021, 118 (7) e2015826118; DOI: 10.1073/pnas.2015826118


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