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O multitasking é tão comum que quase nos sentimos mal quando não o fazemos: executar duas tarefas ao mesmo tempo ou lidar com dois fluxos de informação em simultâneo tornou-se quase um sinónimo de produtividade e eficiência. Apesar de vários estudos na área das neurociências já terem identificado o impacto negativo deste hábito para a saúde do cérebro, a ideia de que se trata de uma estratégia positiva prevalece. Um trabalho de investigadores da Universidade do Texas verificou que metade dos alunos universitários está a fazer outra coisa enquanto lê a matéria. Estes alunos consideram até que este hábito não é prejudicial. Sendo uma prática tão comum, não se sabia ao certo qual o impacto do multitasking na leitura, em particular na compreensão e na velocidade, com diferentes estudos a apresentarem resultados contraditórios: em certos trabalhos conclui-se que o multitasking prejudica a leitura, noutros parece não a alterar e noutros parece até facilitá-la.

Esta questão foi esclarecida pelo estudo conduzido pela investigadora da Universidade de Dakota do Norte, Virginia Clinton-Lisell, publicado pela Associação para a Literacia do Reino Unido. Este trabalho apresenta resultados de 20 estudos conduzidos entre 2000 e 2020 e tratados estatisticamente em meta-análise. 90% dos estudos foram feitos em adultos, enquanto liam textos expositivos.

Entre as 1686 pessoas abrangidas pelo trabalho, verificou-se que quem estava em multitasking tinha pior compreensão do que quem não o praticava. Relativamente ao tempo de leitura, nas 579 pessoas avaliadas, concluiu-se que a sobreposição de tarefas resultava em maior tempo gasto a ler, tornando-se comparável à leitura de um texto classificado como difícil. «O multitasking durante a leitura é prejudicial à compreensão, quando o tempo é limitado. Quando os leitores controlam o seu próprio ritmo, a multitarefa aumenta o tempo gasto com a leitura», escreve a autora. Conclui-se portanto que «a sobreposição de tarefas durante a leitura é menos eficiente do que focar a atenção na tarefa principal de ler».

O conceito de atenção dividida justifica estes resultados: os estudantes dividiram a sua atenção entre a tarefa principal de ler e uma atividade ou fluxo de informação secundários. Dito isto, é provável que o multitasking tenha provocado uma distração à leitura, e um texto não pode ser interpretado sem atenção. Como forma de compensação, os leitores viram-se obrigados a reler o conteúdo após terem sido distraídos pela tarefa secundária, o que explicaria um maior período necessário para a leitura. No entanto, há ainda a considerar o efeito que a atenção dividida poderá ter na memória, já que a informação sobre determinada tarefa pode ser confundida com a de outra. «A maioria dos estudos aferiu a compreensão do conteúdo com o texto ausente, logo, a memória era necessária para responder com precisão às perguntas.»

Curiosamente, o suporte de leitura — se o texto é lido num ecrã ou em papel — teve um impacto marginal nos resultados. Esperava-se que as leituras em ecrã potenciassem o efeito negativo do multitasking, mas verificou-se o contrário. Uma razão para isso, avança a autora, pode ser a separação entre tarefas. «Quando se está a ler num ecrã, o multitasking ocorre por norma no mesmo aparelho, que é também fonte de informação auditiva, o que dispensa qualquer movimento. Já quando se lê em papel, a multitarefa normalmente exige que o participante afaste o olhar do mesmo.»

Contrariando uma ideia bastante popular, o estudo concluiu ainda que gerações mais recentes não se tornaram mais aptas para executarem tarefas simultâneas, nem as capacidades cognitivas pioraram em termos gerais devido ao multitasking. 

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