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Investigadores das universidades de Oxford e de Estocolmo publicaram um estudo que mostra as perdas de aprendizagem que os alunos holandeses sofreram com os encerramentos das escolas e sua substituição por ensino remoto. O estudo foi publicado em 7 de abril na revista científica PNAS, Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, está disponível online e é de acesso livre.

Os estudiosos analisaram os efeitos do confinamento de oito semanas entre março e junho de 2020 e mostraram que as perdas nesse período correspondem essencialmente a um quinto de um ano letivo, ou seja, praticamente às oito semanas de ensino remoto. Isto significa que este ensino não só foi menos eficiente do que o presencial, como durante esse período os progressos foram essencialmente nulos.

Os resultados são relevantes para todos, pois é provável que noutros sistemas e noutras regiões as perdas sejam ainda mais graves do que as registadas por este estudo. De facto, o sistema educativo dos Países Baixos é bastante organizado e relativamente equitativo e o país possui um sistema de cobertura de banda larga muito denso e eficaz, o que permitiu que todos os alunos seguissem sem demoras o ensino remoto.

Este estudo sobre os efeitos da pandemia no ensino é o mais abrangente e fiável realizado até à data. A amostra inclui cerca de 350 000 alunos entre os 8 e os 11 anos de idade e baseia-se em testes estandardizados realizados duas vezes por ano e que incluem todos os alunos.

Os testes são feitos em três áreas: matemática, leitura e ortografia. Em matemática, testa-se a capacidade de resolução de problemas conceptuais e problemas de aplicação; em leitura, testa-se a capacidade de compreensão de textos; em ortografia, mede-se a correção ortográfica de uma série de palavras escritas pelos alunos. Os testes realizam-se há vários anos e, em 2020, tiveram lugar, seguindo a regra, em fins de janeiro e meados de junho. O período entre os testes de 2020 correspondeu essencialmente ao período de ensino remoto, que se iniciou na segunda semana de março e terminou na última semana de maio. Esta coincidência foi particularmente importante para efeitos da análise.

Para avaliar o progresso relativo dos alunos, o estudo seguiu uma técnica econométrica conhecida como diferença-em-diferenças: comparou-se o progresso dos alunos no ano de 2020 com os progressos nos três anos anteriores nas mesmas três áreas. Pretende-se desta forma eliminar ou, pelo menos, reduzir o efeito das diferenças que se possam registar de ano para ano. Compara-se o comparável.

As perdas nas três áreas de teste revelaram-se semelhantes. Não se verificaram também diferenças significativas entre rapazes e raparigas, nem entre alunos de diferentes idades, entre os 8 e os 11 anos. Onde as diferenças são muito marcadas é no estatuto socioeconómico e cultura das famílias, tendo os filhos de famílias com menor nível educativo sofrido perdas 60% maiores do que os de famílias de nível educativo mais elevado.

Os investigadores tiveram também o cuidado de verificar se as perdas poderiam ser devidas a uma menor habituação a testes, derivada do encerramento das escolas. Mas tal não se apurou, pois durante testes de placebo, realizados sobre matérias não curriculares, não se verificou essa perda.

Os autores sublinham que apenas puderam realizar o estudo devido a três fatores presentes no sistema educativo dos Países Baixos. O primeiro é a existência de testes estandardizados bianuais, que permitem comparar a aprendizagem de forma bastante fiável. O segundo é a existência de dados sobre o contexto familiar dos alunos. O terceiro é a existência de instituições que recolhem e organizam esses dados administrativos, respeitando a sua confidencialidade e permitindo o estudo estatístico anonimizado das diversas variáveis. Só nestas condições foi possível que esta experiência natural causada pela pandemia providenciasse dados tão ricos para comparar o ensino presencial com o ensino remoto.

Finalmente, os autores sublinham a necessidade de preparar uma retoma acelerada do ensino presencial (“build back better”), e melhorar a resiliência e equidade dos sistemas educativos. Ou seja, neste período em que se prepara e inicia a retoma do ensino presencial será ainda mais necessário dar atenção à qualidade do sistema educativo.

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