Introdução
A aprendizagem inicial da ortografia depende da capacidade de identificar os sons da fala (fonemas) numa palavra dita, de os associar às letras ou grupos de letras correspondentes (grafemas) e de os escrever na ordem correcta (processamento sequencial). No início da aprendizagem da leitura e escrita, as crianças adquirem sistematicamente estas associações entre fonemas e grafemas. No entanto, muitas palavras não podem escrever-se correctamente apenas aplicando regras de conversão fonema-grafema. Por exemplo, escrever correctamente palavras irregulares (como «cima») ou palavras com fonemas que correspondem a vários grafemas plausíveis (como o fonema /s/ em «sapo» vs. «cima») requer conhecimento ortográfico (e.g. Deacon & Sparks, 2015; Westwood, 2018).
As teorias sobre a aprendizagem ortográfica diferem, na concepção, do modo como as crianças adquirem este conhecimento e como processam diferentes tipos de palavras, nomeadamente regulares, irregulares e pseudopalavras (e.g. Westwood, 2018). Apesar destas diferenças, todas as teorias da aprendizagem da ortografia salientam a importância do princípio alfabético e da aprendizagem das correspondências fonema-grafema no início da aquisição da escrita.
Tabela 1. Teorias sobre a aprendizagem ortográfica
Aprendizagem som-símbolo
A investigação existente tem-se focado maioritariamente na aprendizagem símbolo-som (relevante para a leitura), sendo escassos os estudos sobre a aprendizagem som-símbolo (e.g. Avarena et al., 2013), que está mais directamente ligada à escrita. A distinção entre estas direcções de aprendizagem é importante, assim como o tipo de estímulos utilizados (letras conhecidas ou símbolos artificiais) (e.g. Ehm et al., 2019; Gellert & Elbro, 2018).
A maioria dos estudos (e.g. Gellert & Elbro, 2018; Horbach et al., 2015, 2018) tem avaliado tarefas de associação simples ou a leitura sequencial de símbolos artificiais, encontrando diferenças significativas entre crianças com e sem dislexia no desempenho sequencial, mas não na aprendizagem isolada dos pares som-letra. Estes estudos mostraram que o desempenho na aplicação sequencial de novas associações som-símbolo pode prever o futuro sucesso na leitura.
Estudo de Mehlhase e colaboradores (2025)
O estudo teve como objectivo analisar se uma tarefa de aprendizagem som-símbolo pode prever o desempenho ortográfico em crianças do 1.º ano, com e sem dificuldades na escrita.
Para isso, os autores criaram uma tarefa com símbolos artificiais, de modo a eliminar a influência de conhecimentos prévios sobre letras e escrita convencional. Na tarefa, as crianças ouviam uma sequência de sons e tinham de desenhar os símbolos correspondentes, simulando o processo ortográfico.
O estudo visou:
- Investigar diferenças de desempenho entre crianças com ortografia típica e crianças em risco;
- Analisar correlações entre o desempenho na tarefa e as habilidades ortográficas;
- Avaliar se o desempenho na tarefa de aprendizagem som-símbolo explica uma variação adicional nas habilidades ortográficas, além de factores já conhecidos, como a consciência fonémica, memória verbal de curto prazo e inteligência.
Participaram neste estudo 365 crianças do 1.º ano de escolaridade de 136 escolas situadas em Munique, na Alemanha, com pontuações normativas nas provas de inteligência, conhecimento da língua alemã há pelo menos três anos, visão normal ou corrigida e ausência de défices neurológicos.
Todas as provas foram administradas individualmente por assistentes treinados no Hospital Universitário LMU. Testou-se cada criança quanto às habilidades ortográficas, a preditores cognitivos de literacia, bem estabelecidos (nomeadamente, consciência fonémica, memória verbal de curto prazo e inteligência) e à tarefa de aprendizagem som-símbolo.
A distinção entre crianças em risco de dificuldades ortográficas e crianças com habilidades ortográficas típicas baseou-se nos resultados do teste padronizado de ortografia HSP 1 Plus (May et al., 2019). As crianças com um desempenho igual ou inferior ao percentil 25 foram incluídas no grupo de risco ortográfico (n = 85), enquanto as restantes, com desempenho superior ao percentil 25, constituíram o grupo de ortografia típica (n = 280).
Tabela 2. Variáveis
Principais resultados
O objectivo deste estudo foi explorar o papel da aplicação sequencial de correspondências som-símbolo recentemente aprendidas na previsão das habilidades ortográficas.
- Investigar diferenças de desempenho entre crianças com ortografia típica e crianças em risco.
O estudo encontrou diferenças claras de desempenho entre os dois grupos. Ambas as crianças, com ortografia típica e em risco, aprenderam com sucesso as associações som-símbolo simples (Fase de Treino 1), mas, nas fases que exigiam aplicação sequencial (Treino 2 e Fase de Teste), as crianças em risco apresentaram um desempenho significativamente inferior. Isto indica que as dificuldades ortográficas estão relacionadas não com a aprendizagem das associações em si, mas com a sua aplicação sequencial, fundamental para a escrita.
- Analisar correlações entre o desempenho na tarefa de correspondência som-símbolo e as habilidades ortográficas.
Encontraram-se correlações significativas entre o desempenho na tarefa de aprendizagem som-símbolo (sobretudo na Fase de Teste) e as habilidades ortográficas, principalmente nas crianças em risco. Isto sugere que a tarefa aborda aspectos relevantes da aprendizagem ortográfica, sobretudo em alunos com maiores dificuldades.
- Avaliar se o desempenho na tarefa de aprendizagem som-símbolo explica variação adicional nas habilidades ortográficas, além de factores já conhecidos, como a consciência fonémica, a memória verbal de curto prazo e a inteligência.
O desempenho na tarefa de aprendizagem som-símbolo explica variância adicional nas habilidades ortográficas, especificamente no grupo em risco. Mesmo após controlar a consciência fonémica, a memória verbal e o Quociente de Inteligência (Q. I.), a tarefa explicou 5% da variância no desempenho ortográfico neste grupo. No grupo com ortografia típica, a contribuição adicional da tarefa não foi significativa, o que sugere que a tarefa é mais útil para identificar dificuldades do que para diferenciar níveis dentro da normalidade. Deste modo, a aplicação sequencial de correspondências som-símbolo recentemente aprendidas é um factor relevante na previsão das habilidades ortográficas, sobretudo em crianças em risco de dificuldades neste âmbito.
Conclusão
O presente estudo mostrou que a aplicação sequencial de correspondências som-símbolo recentemente aprendidas explica uma parte da variância nas habilidades ortográficas de crianças do 1.º ano com risco de dificuldades ortográficas, além de preditores cognitivos bem conhecidos, como a consciência fonémica, a memória verbal de curto prazo e o Q. I.
As fases de treino e de teste da tarefa de aprendizagem som-símbolo mostraram-se eficazes para distinguir crianças em risco de dificuldades ortográficas de crianças com habilidades ortográficas típicas. Por isso, esta tarefa poderá constituir uma ferramenta útil para a identificação precoce de dificuldades na aprendizagem da ortografia.
Uma grande vantagem é o facto de este tipo de tarefa ser independente do ensino formal da ortografia e do conhecimento prévio das letras. Assim, poderá utilizar-se ainda antes do início da escolaridade, permitindo a detecção precoce de eventuais dificuldades, e, consequentemente, a implementação de intervenções atempadas para prevenir problemas ortográficos mais acentuados.
Em conclusão, a tarefa som-símbolo é uma ferramenta promissora para a identificação precoce de dificuldades na aquisição da ortografia, podendo apoiar o desenvolvimento de intervenções pedagógicas mais eficazes.
Este texto é um resumo do artigo «Sound-symbol learning and the relationship to spelling in first-grade children», disponível aqui.
Referências bibliográficas
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Horbach, J., Weber, K., Opolony, F., Scharke, W., Radach, R., Heim, S., & Günther, T. (2018). Performance in sound-symbol learning predicts reading performance 3 years later. Frontiers in Psychology, 9. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.01716 1716
May, P., Malitzky, V., & Vieluf, U. (2019). HSP 1 Plus — Hamburger Schreib-Probe. Ernst Klett Verlag.
Mehlhase, H., Sigmund, J. L., Schulte-Körne, G., & Moll, K. (2025). Sound-symbol learning and the relationship to spelling in first-grade children. Journal of Experimental Child Psychology, 252. https://doi.org/10.1016/j.jecp.2024.106158
Westwood, P. (2018). Learning to spell: Enduring theories, recent research and current issues. Australian Journal of Learning Difficulties, 23(2), 137-152. https://doi.org/10.1080/19404158.2018.1524391
AUTORES
Célia Oliveira
Marta Pereira