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Algumas universidades são facilmente reconhecidas pelo nome: MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), Columbia ou Harvard soam certamente familiares. É nelas que se concentram alguns dos cientistas mais prestigiados, bem como as invenções e os avanços científicos mais significativos. E também é nessas instituições que se formam muitos dos futuros decisores.

Nos Estados Unidos, as oito universidades de maior prestígio (conhecidas como Ivy League) representam apenas uma pequena fração dos estudantes do ensino superior (0,5%), mas delas saem cerca de 10% dos diretores-executivos das maiores empresas, um quarto dos senadores e três quartos dos juízes vitalícios do Supremo Tribunal dos EUA. Este fenómeno não é exclusivo dos EUA: entre 1922 e 2022, cerca de 45% dos membros do governo britânico frequentaram as Universidades de Oxford ou Cambridge — o chamado Oxbridge.

Esta predominância de antigos alunos de determinadas instituições na vida pública levanta hoje importantes questões acerca do contributo do ensino superior na reprodução de padrões sociais. Sabemos que estudar mais e frequentar o ensino superior se associa, em média, a salários mais elevados e a melhores oportunidades no mercado de trabalho. Mas qual é o peso nessas perspetivas futuras da universidade específica onde se estuda? E, se estas universidades apresentam um forte viés na sua composição social, fará sentido introduzir políticas para promover maior diversidade social?

É a estas questões que um artigo científico recente de Raj Chetty, David Deming e John Friedman procura responder. Os autores analisam uma base de dados muito completa que reúne informações sobre candidaturas ao ensino superior, dados fiscais relativos ao rendimento das famílias e o percurso dos estudantes no mercado de trabalho. O estudo inclui mais de cinco milhões de alunos e as suas respetivas candidaturas a diversas instituições.

Entre os alunos com notas igualmente elevadas, os das 1% das famílias mais ricas têm o dobro da probabilidade de frequentarem universidades da Ivy League em comparação com os alunos de classe média. Se os seus resultados académicos são semelhantes, porque são os estudantes provenientes de famílias com mais recursos que têm maior probabilidade de admissão nestas instituições? Os autores identificam três fatores principais:

  1. admissão de atletas, algo muito característico do contexto norte-americano e do desporto universitário;
  2. efeito de legado, que favorece candidatos cujos pais frequentaram a mesma instituição;
  3. valorização de fatores não académicos, tais como participação em atividades extracurriculares ou projetos paralelos à escola.

Curiosamente, nenhum destes fatores é um bom preditor de sucesso profissional futuro. O que melhor prevê esse sucesso são sobretudo as notas de entrada e o desempenho académico.

Mas compensará todo este esforço para pôr os alunos nas universidades de mais prestígio? Segundo o estudo, sim. Os autores comparam alunos que conseguiram entrar nestas universidades com outros que ficaram em lista de espera e por isso não entraram. Frequentar uma instituição da Ivy League aumenta em cerca de 50% a probabilidade de atingir o 1% do topo da distribuição de rendimentos e mais do que duplica a probabilidade de trabalhar numa empresa de maior prestígio (isto é, empresas com altas percentagens de trabalhadores que são ex-alunos de uma universidade da Ivy League). Estes resultados diferem de alguns estudos anteriores e trazem novas evidências, possíveis graças à abrangência dos dados utilizados.

Dada a seletividade destas instituições e os elevados retornos associados à sua frequência, fará sentido alterar as regras de admissão para as tornar mais equitativas? Segundo os autores, sim. Se os critérios como o estatuto de atleta, o efeito de legado ou os critérios não estritamente académicos fossem substituídos por uma seleção que partisse apenas das notas de entrada, a percentagem de alunos provenientes de famílias abaixo do percentil 95 de rendimento poderia aumentar em 8,8 pontos percentuais. Ou seja, com base nos resultados de exames, seria possível tornar estas instituições socialmente mais diversas e criar mais oportunidades para que alunos de diferentes origens cheguem mais tarde a posições de relevo.

Sendo este um estudo centrado no contexto americano, que lições podemos retirar para Portugal? Pelo menos três pontos merecem destaque.

  1. Portugal continua a basear o acesso ao ensino nas classificações finais do ensino secundário e dos exames nacionais. De acordo com estes resultados, tal opção parece adequada, uma vez que estes indicadores são os melhores preditores do sucesso futuro. Critérios menos objetivos podem inadvertidamente aumentar a desigualdade.
  2. Foram recentemente introduzidas pequenas quotas por instituição do ensino superior para alunos beneficiários de ação social escolar no ensino secundário. Esta poderá ser uma via para tornar as instituições mais plurais, mas é fundamental acompanhar o percurso académico e profissional destes alunos.
  3. Em Portugal, devido à dificuldade em ligar o percurso escolar dos alunos aos seus resultados no mercado de trabalho, ainda não é possível realizar análises desta natureza com a mesma profundidade. É essencial avançar para uma integração mais vertical de dados administrativos, que permita avaliações mais rigorosas do impacto do ensino superior na mobilidade social.

Existem hoje, de facto, universidades com um viés na sua composição socioeconómica, o que acaba por se repercutir em todo o tecido social. Contudo, a construção de uma universidade mais diversa depende do investimento que fizermos junto dos alunos de famílias menos favorecidas muitos anos antes, na creche, no pré-escolar e nos primeiros anos do 1.º e 2.º ciclo, quando podem adquirir as bases essenciais para o seu futuro. Reduzir avaliações fiáveis e introduzir fatores menos objetivos não parece ser o caminho.

AUTOR

Pedro Freitas é doutorado em Economia na Nova School of Business and Economics (Nova SBE). É, atualmente, investigador associado do What Works Hub for Global Education da Universidade de Oxford e do Centro de Economia da Educação da Nova SBE.

A sua investigação foca-se em tópicos de Economia da Educação e Capital Humano, tais como o impacto do professor nas aprendizagens dos alunos, necessidades de recrutamento de docentes e métodos de avaliação. É autor do livro «Economia da Educação: um olhar sobre o sistema de ensino português».

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