As cookies são importantes para o correto funcionamento deste site e são usadas para melhorar a sua experiência. Clique em OK para as aceitar e avançar ou consulte a nossa política de privacidade para ver a descrição detalhada do tipo de cookies que usamos.

OK
pt
Newsletter
glossario

saber mais

Linguagem oral e compreensão da leitura: conceptualização

A linguagem oral desempenha, indubitavelmente, um papel fundamental na compreensão da leitura. Porém, não se sabe qual é a melhor forma de caracterizar esse papel nos modelos teóricos sobre a compreensão da leitura: se a partir da compreensão oral, ou das capacidades individuais de linguagem, especificamente, do vocabulário, da consciência sintáctica e da consciência morfológica.

Modelos como a Perspectiva Simples da Leitura (Gough & Tunmer, 1986) e a Estrutura dos Sistemas de Leitura (Stafura & Perfetti, 2014) diferem, significativamente, na forma como caracterizam a influência da linguagem oral na compreensão da leitura. A Perspectiva Simples da Leitura postula que a compreensão resulta de duas competências fundamentais: a descodificação, definida como a capacidade de ler palavras escritas com exactidão; e a compreensão linguística, que consiste na capacidade de compreender a linguagem oral. Embora este modelo seja o que mais se destaca na literatura, há quem o considere simplista e incompleto. A literatura tem destacado a importância de os modelos sobre a compreensão da leitura analisarem as capacidades envolvidas na compreensão linguística e delimitá-las no contexto da leitura, o que, segundo Metsala et al. (2021), pode exigir capacidades que não as de compreensão oral. Além disso, diversos investigadores têm referido que a compreensão da leitura pode, na verdade, depender mais das capacidades metalinguísticas do que da compreensão oral, o que não parece estar de acordo com a Perspectiva Simples da Leitura.

A Estrutura dos Sistemas de Leitura constitui, segundo a literatura, um modelo alternativo sobre a compreensão da leitura. De acordo com este modelo, há três domínios da linguagem envolvidos na compreensão: o vocabulário, a consciência sintáctica (capacidade de reflectir, identificar e manipular a ordem das palavras de uma frase) e a consciência morfológica (capacidade de reflectir, identificar e manipular a estrutura morfológica das palavras). Este modelo representa, segundo Metsala et al. (2021), um modelo mais complexo no que à caracterização da influência da linguagem oral na compreensão diz respeito. Enquanto a Perspectiva Simples da Leitura caracteriza a influência da linguagem oral na compreensão da leitura a partir da compreensão oral, a Estrutura Simples da Leitura conceptualiza essa influência a partir de capacidades individuais, especificamente, a partir do vocabulário, da consciência sintáctica e da consciência morfológica.

 

O estudo de Metsala e colaboradores

Metsala et al. (2021) estudaram a influência das capacidades individuais de linguagem na compreensão da leitura. Os investigadores analisaram, especificamente, se o vocabulário, a consciência sintáctica e a consciência morfológica influenciam, directamente, a compreensão da leitura.

Para tentar responder a esta questão, Metsala et al. (2021) desenvolveram um estudo longitudinal, no qual participaram alunos do 2.º e 3.º ano de escolaridade de uma escola primária localizada no leste do Canadá. Os alunos foram avaliados em três momentos distintos: em Novembro (Momento 1); em Maio (Momento 2); e em Abril do ano seguinte (Momento 3). No Momento 1 e 2, foram avaliados 116 alunos e, no Momento 3, 87 alunos. Os alunos foram avaliados em leitura de palavras, compreensão da leitura, compreensão oral, vocabulário, consciência sintáctica e consciência morfológica. Apenas a avaliação da compreensão da leitura foi realizada em grupo.

Metsala et al. (2021) verificaram que:

  1. as capacidades individuais de linguagem predizem, significativamente, a compreensão da leitura;
  2. a consciência sintáctica e a consciência morfológica parecem desempenhar um papel mais importante na compreensão do que o vocabulário. O vocabulário foi a única capacidade que não influenciou, directamente, a compreensão da leitura.

De acordo com os investigadores, os resultados confirmam a importância das capacidades individuais de linguagem na compreensão da leitura, comprovada anteriormente por diversos estudos. Os resultados mostram, especificamente, que a compreensão de texto pode estar mais dependente do domínio de capacidades metalinguísticas do que da capacidade de compreensão oral, o que vai ao encontro dos modelos que descrevem a influência das capacidades individuais de linguagem oral na compreensão de texto, como a Estrutura dos Sistemas de Leitura.

Principais conclusões e implicações

  1. O desenvolvimento da compreensão da leitura dos alunos mais novos é significativamente influenciado pelas capacidades individuais de linguagem oral, principalmente pela consciência sintáctica e morfológica.
  2. O vocabulário, a consciência sintáctica e a consciência morfológica devem ser ensinadas, explicitamente, na sala de aula.

Bibliografia

Metsala, J. L., Sparks, E., David, M., Conrad, N., & Deacon, S. H. (2021). What is the best way to characterise the contributions of oral language to reading comprehension: Listening comprehension or individual oral language skills? Journal of Research in Reading, 1-20.

AUTORES

João Lopes

saber mais

João Arménio Lamego Lopes dirige o projeto AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto (1981), Mestre em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento (Universidade do Porto, 1991) e doutorado em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho (1996). Professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho desde 1995.

Professor Associado com Agregação, da mesma Universidade (2004). Director do Departamento de Psicologia Aplicada (2015-2019) e do Mestrado em Temas de Psicologia da Educação da UM. Director do Programa de Doutoramento em Psicologia Aplicada para os países da CPLP. Presidente do Conselho Cientifico-Pedagógico da Formação Contínua de professores (2014-2018), representante de Portugal no CERI-OCDE (2015-2017) e membro do Conselho Geral do IAVE (2013-2018).

Soraia Araújo

Receba as nossas novidades e alertas

Acompanhe todas as novidades.
Subscrever