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Introdução

De acordo com a investigação mais recente, a motivação constitui um elemento-chave no ensino da leitura. Nos últimos anos, diversos estudos demonstraram, inclusive, a influência da motivação dos alunos no desempenho na leitura. Estes estudos verificaram essencialmente que, quando a motivação para ler é baixa, o desempenho na leitura geralmente diminui. Além disso, quando os alunos têm pouca motivação para ler, dedicam menos tempo a este tipo de tarefa e demoram mais tempo a adquirir e desenvolver competências de leitura, como o reconhecimento automático de palavras escritas e a fluência de leitura.

Nos últimos 25 anos, especialistas em leitura definiram, segundo Brandt et al. (2021), vários princípios motivacionais, cuja influência nos comportamentos de leitura dos alunos é evidente. Sharp et al. (2016) sintetizaram a investigação subjacente a esses princípios e desenvolveram uma lista de princípios motivacionais, denominada Salient Seven:

  • Princípio 1 — Escolha: A escolha permite aos alunos seleccionar um livro de acordo com os seus interesses e preferências;
  • Princípio 2 — Colaboração: A colaboração ocorre quando os professores e os alunos discutem, em conjunto, sobre livros e actividades relacionadas com a leitura;
  • Princípio 3 — Controlo: O controlo implica dar aos alunos a possibilidade de controlar o próprio sucesso na leitura, através do manuseamento das capacidades de leitura adquiridas;
  • Princípio 4 — Desafio: O desafio permite aos alunos realizar tarefas desafiantes de aprendizagem da leitura;
  • Princípio 5 — Autenticidade: A autenticidade consiste em proporcionar aos alunos a possibilidade de adquirirem conhecimento em contextos significativos e relevantes. Os livros e as actividades seleccionados devem reflectir, essencialmente, as necessidades e/ou os interesses dos alunos. Além disso, é fundamental que os professores demonstrem interesse pela leitura;
  • Princípio 6 — Tecnologia: A tecnologia, com diversas opções de leitura, motiva os alunos a ler, inclusive os mais relutantes e com dificuldades de aprendizagem;
  • Princípio 7 — Recompensas: As recompensas (ou incentivos) visam direccionar os alunos para a leitura e, principalmente, aumentar a motivação intrínseca.

 

O estudo de Brandt e colaboradores

Brandt et al. (2021) analisaram o efeito dos princípios Salient Seven na motivação dos alunos para a leitura. Para isso, seleccionaram 9 professores e 256 alunos, do 1.º ao 6.º ano de escolaridade, de uma escola norte-americana.

Os professores foram inicialmente entrevistados sobre as estratégias que, habitualmente, põem em prática para motivar os alunos para a leitura. As informações recolhidas foram utilizadas para estabelecer a linha de base, da qual os professores partem, antes da aplicação dos princípios motivacionais na sala de aula. Essa linha de base permitiu aos investigadores perceberem que mudanças ocorreram nas práticas dos professores.

Os dados para analisar o efeito dos princípios Salient Seven na motivação dos alunos para a leitura foram recolhidos através de relatórios elaborados pelos professores, observações em sala de aula e entrevistas. Os professores receberam formação para aplicar os princípios motivacionais e receberam apoio durante a sua aplicação. O apoio incluiu a) visitas à sala de aula, b) envio de e-mails para acompanhar o progresso, dificuldades e dúvidas, e c) entrega de uma quantia monetária para financiar livros e a visita de um autor infantil nacional.

 

Resultados

1. Leitura em voz alta. Os professores ajustaram as rotinas de leitura para motivar os alunos a ler. Passaram a ler-lhes um texto todos os dias e a seleccionar os livros com mais cuidado, tendo em consideração as preferências e os interesses dos alunos. Além disso, começaram a incluir os alunos na escolha dos livros, a fazer pausas periódicas para resumir e discutir o texto e/ou palavras específicas, a analisar as personagens e a pedir para partilharem, com os colegas, a parte preferida da história. 

Os professores verificaram que a atitude dos alunos relativamente à leitura mudou significativamente. Passaram a ansiar pela «hora da leitura», a frequentar a biblioteca, a requisitar um exemplar do livro para acompanhar a leitura e a participar, frequentemente, nas discussões sobre os textos.

2. Círculos de leitura. Os círculos de leitura foram, à semelhança da leitura em voz alta, uma das estratégias adoptadas para aumentar a motivação dos alunos para a leitura. Os professores passaram a reunir, em círculo, com os alunos pelo menos três vezes por semana. Os alunos tiveram oportunidade de seleccionar os livros seguintes, discutir o texto com os colegas e escrever, num caderno, resumos e perguntas. Após porem esta estratégia em prática, os professores, além de terem verificado que os alunos estavam mais entusiasmados e interessados pela leitura, sentiram-se mais confiantes para ler aos alunos e integrar o ensino da leitura nas discussões sobre os livros.

3. Discussões sobre os livros. Os professores começaram a permitir que os alunos dessem mais frequentemente a sua opinião e conversassem com os colegas sobre os livros. Verificou-se que, quanto mais os alunos liam, mais tinham a dizer sobre o texto. Além disso, os professores passaram a sugerir livros aos alunos. Escolheram um livro, falaram-lhes sobre ele e colocaram-no num sítio específico e visível, para que os alunos pudessem lê-lo e explorá-lo. Esta estratégia exerceu um efeito positivo no comportamento dos alunos, uma vez que estes começaram a procurar livros de forma autónoma e a sugeri-los aos professores. Os professores verificaram ainda que, quanto mais conversavam com os alunos sobre livros, mais os alunos procuravam ler.

4. Definição de metas de leitura. Os professores começaram a definir, juntamente com os alunos, metas de leitura. Tradicionalmente, os professores definem apenas metas de leitura individuais. Depois da formação, passaram a incluir os alunos nesta tarefa, definindo metas de grupo. Quando as metas definidas foram alcançadas, os alunos receberam uma recompensa, como por exemplo, a visita de um autor de um livro infantil. Os professores verificaram que esta estratégia em particular aumentou, significativamente, a motivação dos alunos para a leitura.

5. Tecnologia. Os professores seleccionaram, pelo menos, um aparelho electrónico, como por exemplo, um computador, e recorreram à internet para pesquisar livros, enviar uma mensagem electrónica aos alunos (e pais) com sugestões de leitura, para os elogiar pelo esforço e persistência.

6. Actividades de compreensão. Uma das mudanças mais gratificantes para os professores foi a execução de actividades específicas de compreensão, tais como a realização de reportagens e entrevistas sobre o texto. Os professores verificaram que os alunos apreciaram, sobremaneira, estas actividades, uma vez que lhes permitiram trabalhar em grupo e partilhar as actividades realizadas, por exemplo, com os pais e outros familiares.

7. Recompensas. Através das recompensas (e. g., oferta de um livro, prolongar a «hora da leitura»), os professores procuraram, essencialmente, aumentar a motivação intrínseca dos alunos. Os professores verificaram que, quanto mais os alunos liam, mais a leitura se tornava uma recompensa.

Em suma

A implementação dos princípios Salient Seven na sala de aula aumentou a motivação dos alunos para a leitura. Os planos de aplicação, as observações em sala de aula e os registos dos professores mostraram que quer os próprios professores, quer os alunos mudaram a atitude relativamente à leitura. De modo geral, os alunos demonstraram mais entusiasmo pela leitura, passaram mais tempo a ler e envolveram-se em actividades relacionadas com esta tarefa.

Brandt et al. (2021) fornecem algumas sugestões aos professores, que podem ter um impacto muito importante no aumento da motivação dos alunos:

  1. leia e considere, cuidadosamente, cada um dos princípios motivacionais. Dedique algum tempo da aula à discussão de ideias e estratégias de motivação com os alunos;
  2. elabore um plano pessoal para aumentar a motivação dos alunos para a leitura. Decida que estratégias e actividades vai executar na sala de aula e, principalmente, como as porá em prática;
  3. observe e registe as mudanças na atitude dos alunos relativamente à leitura.

Bibliografia

 Brandt, L., Sharp, A. C., & Gardner, D. S. (2021). Examination of teacher practices on student motivation for reading. The Reading Teacher74(6), 723-731.

AUTORES

João Lopes

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João Arménio Lamego Lopes dirige o projeto AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto (1981), Mestre em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento (Universidade do Porto, 1991) e doutorado em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho (1996). Professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho desde 1995.

Professor Associado com Agregação, da mesma Universidade (2004). Director do Departamento de Psicologia Aplicada (2015-2019) e do Mestrado em Temas de Psicologia da Educação da UM. Director do Programa de Doutoramento em Psicologia Aplicada para os países da CPLP. Presidente do Conselho Cientifico-Pedagógico da Formação Contínua de professores (2014-2018), representante de Portugal no CERI-OCDE (2015-2017) e membro do Conselho Geral do IAVE (2013-2018).

Soraia Araújo

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