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Conceptualização Teórica: Aprender e reter vocabulário

Os livros de histórias infantis contêm fontes de informações linguísticas diversificadas, potencialmente benéficas para a alfabetização e desenvolvimento da linguagem das crianças. A aprendizagem de vocabulário é um processo demorado que, segundo a literatura, beneficia da prática de repetição, recuperação e reactivação durante o sono. A investigação sobre a aprendizagem de vocabulário tem verificado que as crianças, após o sono, tendem a demonstrar melhorias na capacidade de reconhecer palavras aprendidas recentemente e, até mesmo, palavras sem sentido (pseudo-palavras).

De acordo com diversos estudos, a exposição das crianças à leitura de histórias, através de ouvir ler ou ler em conjunto com um adulto, promove o desenvolvimento do vocabulário, principalmente na idade escolar.

Estes resultados são, segundo os autores do artigo (Henderson et al., 2021), consistentes com a ideia de que, aprender vocabulário em contextos potencialmente estimulantes, é extremamente benéfico para as crianças. Henderson et al. (2013), por exemplo, verificaram que, após uma semana de ensino explícito de vocabulário, as crianças obtiveram melhor desempenho na evocação de palavras, quando ensinadas a partir de informações semânticas (na forma de definições ou imagens), do que quando ensinadas a partir de informações fonológicas e ortográficas.

E a longo prazo? As palavras aprendidas são retidas na memória de longo prazo? A investigação tem procurado responder a esta questão que, até hoje, permanece em aberto. No entanto, Henderson et al. (2021), referem dois pontos importantes, apontados na literatura:

  • O conhecimento prévio das crianças acerca do significado das palavras é, provavelmente, uma das variáveis-chave que estabelece a ligação entre a aprendizagem de vocabulário e a retenção na memória de longo prazo. Autores como Wilkinson e Houston-Price (2013) analisaram a influência do conhecimento prévio de vocabulário, na compreensão de palavras aprendidas a partir da escuta de histórias. Os autores verificaram que, de facto, o conhecimento prévio exerce uma influência significativa na compreensão do significado de novas palavras, quer 24 horas depois da exposição às palavras das histórias, quer após 15 dias. James et al. (2017) verificaram, também, que o conhecimento lexical prévio prediz a capacidade de retenção de novas palavras, o que reforça a ideia de que o conhecimento prévio pode, efectivamente, desempenhar um papel importante no processo de retenção na memória de longo prazo, bem como apoiar os processos envolvidos na aquisição inicial de vocabulário.
  • O tempo que decorre entre a aprendizagem e o sono é, também, uma das variáveis-chave que, possivelmente, influencia a retenção de vocabulário. De acordo com a investigação mais recente, pode ser mais benéfico para as crianças aprenderem novas palavras perto da hora de dormir. Walker et al. (2020), por exemplo, verificaram que as crianças que aprenderam vocabulário na parte da tarde (entre as 14 e as 16 horas) consolidaram mais palavras na memória, do que as crianças que aprenderam vocabulário de manhã (entre as 8 e as 10 horas). O conhecimento acerca desta questão é, no entanto, ainda pouco claro, sendo, por isso, necessária mais investigação.

O estudo de Henderson e colaboradores: Objectivo e participantes

Henderson et al. (2021) tiveram como objectivos fundamentais perceber se: (i) as crianças aprendem e retêm novas palavras, ao ouvir os pais a ler-lhes uma história; e (ii) se esses momentos são particularmente benéficos se ocorrerem perto da hora de dormir.
Participaram no estudo 237 crianças, dos cinco aos sete anos.

A língua materna de todas as crianças era o Inglês e nenhuma tinha um diagnóstico formal de distúrbio visual, auditivo, de linguagem, psiquiátrico ou do sono. Com base nos resultados de diversos estudos, os autores testaram as seguintes hipóteses:

  • Hipótese 1. As crianças reconhecem e recordam mais palavras após o sono, do que imediatamente depois de ouvirem os pais a ler-lhes uma história.
  • Hipótese 2. As crianças demonstram maiores níveis de retenção de novas palavras quando as aprendem imediatamente antes de dormir, do que quando as aprendem quatro horas antes;
  • Hipótese 3. Para as crianças com menos conhecimento de vocabulário é mais benéfico aprender novas palavras perto da hora de dormir, do que para as crianças com mais conhecimento de vocabulário.

As crianças foram divididas em dois grupos: (i) grupo “condição de atraso”; e (ii) grupo “condição imediata”. Foi pedido aos pais das crianças do grupo “condição de atraso” que, três a cinco horas antes da hora de dormir (ou seja, ao final da tarde), lessem uma história aos filhos. Imediatamente após a leitura da história, as crianças foram avaliadas através de um teste à distância, com o objectivo de avaliar a capacidade de recordar, reconhecer e compreender as palavras às quais foram expostas durante a leitura.

Aos pais das crianças do grupo de “condição imediata” foi pedido, por sua vez, que lessem uma história aos filhos na hora de dormir. Após a leitura da história, as crianças deste grupo realizaram o mesmo teste que as crianças do grupo “condição de atraso”.

No dia seguinte, aproximadamente 60 minutos depois de acordarem, as crianças de ambos os grupos realizaram um teste à distância, com o objectivo de: (a) avaliar a capacidade de recordar e reconhecer as palavras aprendidas no dia anterior; e (b) avaliar o conhecimento do significado de palavras que não estavam presentes na história (ver Figura 1).

Figura 1 
Procedimento experimental

Resultados

  1. A Hipótese 1 foi confirmada. As crianças evidenciaram um aumento mais significativo na capacidade de reconhecer e recordar palavras no dia seguinte (ou seja, após o sono), do que imediatamente após ouvirem os pais a ler-lhes uma história. Segundo Henderson et al. (2021), este resultado é consistente com a ‘complementary learning systems (CLS) account’, de acordo com a qual a representação de uma palavra na memória é fortalecida ao longo do tempo, e particularmente durante o sono, conduzindo, assim, a um melhor desempenho da memória. Além disso, os resultados mostraram que o conhecimento prévio de vocabulário contribuiu, claramente, para o desempenho das crianças nas tarefas de reconhecimento e evocação. Como Henderson et al. (2021) referem, este resultado apoia a ideia de que o conhecimento lexical está associado à aprendizagem inicial de vocabulário, bem como à retenção de longo prazo.
  2. Ao contrário do esperado, os resultados mostraram que: (a) as crianças que ouviram os pais a ler uma história 3-5 horas antes de dormir (grupo “condição de atraso”), demonstraram ter consolidado mais palavras na memória, do que as crianças que ouviram a história imediatamente antes de adormecer (grupo “condição imediata”); e (b) para as crianças cujo conhecimento de vocabulário é menor, não é mais benéfico ouvir histórias imediatamente antes de dormir. As Hipóteses 2 e 3 foram, portanto, rejeitadas. De acordo com Henderson et al. (2021), este resultado é consistente com os resultados de diversos estudos. Ler histórias aos filhos depois da escola ou no final do dia pode, de facto, ser o mais benéfico para o desenvolvimento do vocabulário das crianças.

EM SUMA:

Henderson et al. (2021) procuraram, em última análise, aumentar o conhecimento teórico sobre o processo de aquisição de vocabulário e descobrir implicações práticas potencialmente benéficas para o desenvolvimento da alfabetização das crianças. Os resultados deste estudo permitiram concluir, essencialmente, que:

  1. Ouvir histórias contribui, significativamente, para a aprendizagem e consolidação de vocabulário;
  2. O conhecimento prévio de vocabulário está associado à aprendizagem e memorização de novas palavras;
  3. Ouvir histórias, três a cinco horas antes de dormir, parece ser particularmente benéfico para a aprendizagem e consolidação de vocabulário.

Referência Bibliográfica: Henderson, L. M., van Rijn, E., James, E., Walker, S., Knowland, V. C., & Gaskell, M. G. (2021). Timing storytime to maximize children’s ability to retain new vocabulary. Journal of Experimental Child Psychology, 210, 1-23.

Ler histórias aos filhos antes de dormir

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AUTORES

João Lopes

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João Arménio Lamego Lopes dirige o projeto AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto (1981), Mestre em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento (Universidade do Porto, 1991) e doutorado em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho (1996). Professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho desde 1995.

Professor Associado com Agregação, da mesma Universidade (2004). Director do Departamento de Psicologia Aplicada (2015-2019) e do Mestrado em Temas de Psicologia da Educação da UM. Director do Programa de Doutoramento em Psicologia Aplicada para os países da CPLP. Presidente do Conselho Cientifico-Pedagógico da Formação Contínua de professores (2014-2018), representante de Portugal no CERI-OCDE (2015-2017) e membro do Conselho Geral do IAVE (2013-2018).

Soraia Araújo

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