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Num estudo muito recente, publicado na revista Reading and Writing, Dolean et al. (2021) procuram responder às questões acima enunciadas. Porém, antes de avançar para as respostas, é importante saber o que diz a literatura acerca do assunto.

 

Entender a compreensão da leitura através da Perspectiva Simples da Leitura

A Perspectiva Simples da Leitura é o modelo sobre o desenvolvimento da compreensão da leitura que mais se destaca na literatura. De acordo com este modelo, a compreensão da leitura resulta de duas capacidades: (1) a capacidade de descodificação, que se refere ao conhecimento das correspondências grafofonémicas (ou letras-sons) e que permite transformar uma sequência de letras em palavras; e (2) a capacidade de compreensão da linguagem oral, que engloba a compreensão oral, o vocabulário, a sintaxe e a capacidade de estabelecer inferências.

Segundo Dolean et al. (2021), a Perspectiva Simples da Leitura tem recebido um grande apoio na literatura. Dois estudos recentes verificaram que a capacidade de descodificação e de compreensão da linguagem explicam mais de 96% da compreensão nas fases iniciais de desenvolvimento da leitura. Estes estudos, juntamente com vários outros, apoiam a hipótese de que a descodificação e, principalmente, a compreensão da linguagem oral, serem os principais preditores da compreensão da leitura.

Embora a Perspectiva Simples da Leitura seja geralmente apoiada pela literatura, há quem a considere simplista e incompleta.

Um número crescente de estudos sugere a existência de um terceiro preditor da compreensão da leitura, com um efeito potencialmente superior à descodificação e compreensão da linguagem oral: as funções executivas.

 

Funções executivas: conceptualização e relação com a compreensão da leitura

As funções executivas são, por definição, um conjunto de habilidades cognitivas que permitem controlar pensamentos, comportamentos e emoções. Entre elas contam-se a memória de trabalho, a flexibilidade cognitiva, a inibição, o planeamento, e a atenção selectiva e sustentada.

Numa meta-análise publicada em 2018, verificou-se uma associação positiva entre as funções executivas e a compreensão, principalmente nas fases iniciais de aquisição da leitura. No entanto, embora vários estudos corroborem esta associação, outros obtiveram resultados contraditórios.

Dois estudos verificaram que as funções executivas predizem, directamente, a compreensão da leitura, juntamente com a capacidade de descodificação e de compreensão da linguagem. Um outro estudo, porém, verificou que estas funções apenas predizem a compreensão da leitura, através da descodificação e da compreensão da linguagem. Não se sabe, portanto, se as funções executivas predizem, de forma directa, a compreensão da leitura.

Dolean et al. (2021) procuraram, através de um estudo longitudinal, no qual participaram 184 alunos romenos do 2.o ano de escolaridade, aprofundar esta questão. Foram testadas as seguintes hipóteses:

  1. As funções executivas não exercem um efeito directo significativo na compreensão da leitura.
  2. O efeito da compreensão da linguagem na compreensão da leitura é maior do que o efeito da capacidade de descodificação.

Os alunos foram avaliados individualmente, em dois momentos distintos: no início (Setembro- Outubro) e no final (Abril-Maio) do 2.o ano de escolaridade. A primeira avaliação ocorreu durante, aproximadamente, três semanas e consistiu na realização de três testes. O primeiro teste avaliou as funções executivas (memória de trabalho, atenção selectiva e sustentada, memória visuo-espacial, inibição, e flexibilidade cognitiva).

O segundo teste avaliou a leitura (descodificação e compreensão). O terceiro teste avaliou a linguagem (compreensão auditiva e o vocabulário). A segunda avaliação consistiu na realização de apenas um teste de compreensão da leitura.

Ambas as hipóteses foram confirmadas. Dolean et al. (2021) retiraram três conclusões importantes:

  • A compreensão da leitura é explicada, maioritariamente, pela capacidade de descodificação e de compreensão da linguagem oral. Esta conclusão apoia a Perspectiva Simples da Leitura que, como foi referido, postula que a compreensão resulta de duas capacidades: descodificação e de compreensão da linguagem oral.
  • As funções executivas não influenciam, directamente, a compreensão da leitura. No entanto, estas funções, juntamente com a descodificação e compreensão da linguagem, exercem uma influência significativa na compreensão da leitura.
  • Em línguas ou ortografias transparentes, como o Português, o Romeno e o Italiano, a linguagem oral constitui um preditor mais significativo da compreensão da leitura, do que a capacidade de descodificação. De acordo com Dolean et al. (2021), o efeito da descodificação na compreensão da leitura desaparece no 2º ano de escolaridade, enquanto o efeito da linguagem oral se mantém. Os programas de intervenção que visam aumentar as competências de linguagem oral podem, por isso, promover uma melhoria significativa na capacidade de compreensão da leitura.

Referência Bibliográfica: Dolean, D. D., Lervåg, A., Visu-Petra, L., & Melby-Lervåg, M. (2021). Language skills, and not executive functions, predict the development of reading comprehension of early readers: Evidence from an orthographically transparent language. Reading and Writing, 1-22.

Linguagem vs. funções executivas, qual prediz a compreensão da leitura?

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AUTORES

João Lopes

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João Arménio Lamego Lopes dirige o projeto AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto (1981), Mestre em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento (Universidade do Porto, 1991) e doutorado em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho (1996). Professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho desde 1995.

Professor Associado com Agregação, da mesma Universidade (2004). Director do Departamento de Psicologia Aplicada (2015-2019) e do Mestrado em Temas de Psicologia da Educação da UM. Director do Programa de Doutoramento em Psicologia Aplicada para os países da CPLP. Presidente do Conselho Cientifico-Pedagógico da Formação Contínua de professores (2014-2018), representante de Portugal no CERI-OCDE (2015-2017) e membro do Conselho Geral do IAVE (2013-2018).

Soraia Araújo

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