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O conhecimento acerca das dificuldades de leitura aumentou significativamente nas últimas décadas. É comum algumas crianças manifestarem dificuldades na aprendizagem da leitura? Quais são as causas destas dificuldades? Têm origem biológica, psicológica ou ambiental? Como avaliar e intervir nas dificuldades de leitura? Estas são algumas das questões às quais a investigação em leitura tem dado resposta, permitindo-nos compreender, com mais exactidão, as dificuldades nesta área. Porém, embora se saiba muito sobre as dificuldades de leitura em geral, pouco se sabe sobre uma questão relevante, que só há pouco tempo tem sido alvo de mais atenção: como se sentem as crianças com dificuldades na leitura? Grills et al. (2022) procuraram responder a esta questão. Porém, antes de avançar para a resposta, é importante saber o que diz a literatura sobre o assunto.

 

Dificuldades de aprendizagem e sintomas internalizados: uma associação?

Nos últimos anos, as relações entre as dificuldades de aprendizagem e os sintomas internalizados, geralmente definidos como as dificuldades que afectam e se expressam em relação ao próprio sujeito, como a ansiedade e a depressão, foram alvo de alguns estudos. Estes estudos verificaram uma associação bidireccional entre as dificuldades de aprendizagem e os sintomas internalizados. O que significa, exactamente, essa associação? A resposta a esta questão é relativamente simples. As dificuldades de aprendizagem e os sintomas internalizados influenciam-se reciprocamente. Isto é, as crianças com problemas de aprendizagem podem desenvolver sintomas internalizados. Podem sentir mais ansiedade, humor deprimido e ter um autoconceito mais baixo. Da mesma forma, as crianças com sintomas internalizados podem manifestar dificuldades no processo de aprendizagem. Parece haver, portanto, um ciclo em que as dificuldades de aprendizagem e os sintomas internalizados se perpetuam através da influência que exercem um sobre o outro.

 

Estudo de Grills e colaboradores: enquadramento, propósito e participantes

A intervenção nas dificuldades de aprendizagem, como as dificuldades de leitura, além de permitir colmatar e ultrapassar falhas no processo de aprendizagem, pode, segundo alguns estudos, diminuir ou atenuar sintomas internalizados. Grills et al. (2022) procuraram aprofundar esta questão ao analisar os efeitos de uma intervenção nos sintomas internalizados, nomeadamente, na ansiedade, depressão e autoconceito, de alunos com dificuldades na leitura. Os autores pretenderam, especificamente:

  1. verificar se os sintomas internalizados relatados no início do ano (antes da intervenção) diferem entre os alunos com dificuldades na leitura e os alunos sem dificuldades;
  2. verificar se as dificuldades de leitura manifestadas no início do ano lectivo, predizem os sintomas internalizados dos alunos no final do ano;
  3. identificar as diferenças em termos de ansiedade, depressão e autoconceito entre os alunos que, após a intervenção, alcançaram o desempenho esperado na leitura e os alunos que continuaram a manifestar dificuldades.

Participaram no estudo 227 alunos do 2.º de ano de escolaridade, de nove escolas, localizadas no Texas, Estados Unidos. Com base no desempenho na leitura, avaliado a partir dos testes Woodcock-Johnson Basic Reading Composite e Test of Word Reading Efficiency, os alunos foram divididos em dois grupos: 1) grupo «leitores com dificuldades», constituído por 131 alunos, que receberam intervenção durante a aprendizagem da leitura; e 2) grupo «leitores sem dificuldades», formado por 96 alunos que aprenderam a ler apenas a partir do ensino em sala de aula.

Os alunos de ambos os grupos foram avaliados em dois momentos distintos: 1) no início do ano lectivo, antes de os alunos do grupo «leitores com dificuldades» receberem intervenção; e 2) no final do ano. Os alunos foram avaliados a partir: a) da Multidimensional Anxiety Scale for Children (MASC), uma medida de auto-relato que avalia os sintomas físicos (e. g., tensão/inquietude), o evitamento de perigo (e. g., perfeccionismo e motivação), a ansiedade social (e. g., humilhação/rejeição) e a ansiedade de separação; b) do Beck Anxiety Inventory for Youth (BAIY), Beck Depression Inventory for Youth (BDIY) e Beck Self-Concept Inventory for Youth (BSCIY), que avaliam, respectivamente, a intensidade de sintomas de ansiedade, de depressão, e o autoconceito; c) do Woodcock-Johnson PsychoEducational Test Battery-III, que, no presente estudo, foi utilizado para avaliar a capacidade de ler palavras e pseudopalavras (palavras sem sentido); e d) do Test of Word Reading Efficiency (TOWRE), que avalia a velocidade de leitura de palavras e pseudopalavras.

Os alunos com dificuldades na leitura receberam apoio em pequeno grupo (no mínimo dois e, no máximo, quatro alunos, por grupo), quatro dias por semana, durante 23-25 semanas. Cada sessão de apoio teve uma duração média de 45 minutos.

 

Principais resultados e conclusões

Os autores verificaram que:

  1. no início do ano lectivo (antes da intervenção), os alunos dos grupos «leitores com dificuldades» e «leitores sem dificuldades» relataram níveis semelhantes de ansiedade. De acordo com Grills et al. (2022), a ausência de diferenças significativas entre ambos os grupos pode indicar que, no início do ano, os alunos com dificuldades não depararam ainda com muitos obstáculos nas tarefas de leitura, não tendo, por isso, experiências de fracasso que os desestabilizem. O mesmo não sucedeu, no entanto, no final do ano lectivo. Os resultados mostraram que os alunos com dificuldades que, no final do ano, não atingiram o desempenho esperado na leitura foram os alunos que relataram os níveis mais elevados de angústia, seguidos dos alunos sem dificuldades e, finalmente, dos alunos que conseguiram alcançar o desempenho esperado na leitura após a intervenção. Estes resultados, além de demonstrarem o impacto negativo das dificuldades de leitura no bem-estar dos alunos, demonstram que, tal como sugerido na literatura, a intervenção nos problemas de leitura pode diminuir ou minimizar os sintomas internalizados dos alunos quando estes conseguem ultrapassar as dificuldades na aprendizagem;
  2. o autoconceito e o evitamento de perigo dos alunos, com e sem dificuldades na leitura, diferiram, significativamente, no início do ano lectivo. Os resultados mostraram, especificamente, que os alunos com dificuldades na leitura relataram um autoconceito e níveis de evitamento significativamente mais baixos do que os alunos sem dificuldades. Estes resultados vão ao encontro de estudos anteriores, que verificaram associações significativas entre as dificuldades de aprendizagem, a depressão e o baixo autoconceito;
  3. os níveis de evitamento de perigo e de ansiedade de separação, relatados pelos alunos com dificuldades na leitura no início do ano lectivo, mostraram predizer o desempenho na leitura no final do ano. De acordo com Grills et al. (2022), este resultado sugere que os alunos com dificuldades na leitura que iniciam o ano com os resultados mais baixos de evitamento de perigo e os resultados mais altos de ansiedade de separação têm menos probabilidade de conseguir alcançar o desempenho esperado na leitura no final do ano. Segundo os autores, tal pode dever-se à influência inibidora dos sintomas de ansiedade na capacidade de os alunos atenderem às instruções dos professores. Mais especificamente, os itens da escala Multidimensional Anxiety Scale for Children reflectem sentimentos de medo e evitamento (e. g., «fico assustado quando ando de carro ou de autocarro» e «evito ir a lugares sem a minha família», respectivamente), que podem interferir, significativamente, na capacidade cognitiva dos alunos, necessária para que a aprendizagem ocorra.

Parece ser possível concluir que existe uma associação bidireccional entre as dificuldades de leitura e os sintomas internalizados: 1) os alunos com dificuldades na aprendizagem da leitura têm maior probabilidade de desenvolver sintomas de internalização, principalmente quando não conseguem ultrapassá-las; e 2) os sintomas internalizados prejudicam, significativamente, a aprendizagem da leitura. Os resultados do presente estudo demonstram assim, tal como Grills et al. (2022) referem, a importância de, a par da intervenção nas dificuldades de leitura, se ensinar estratégias que permitam aos alunos aumentar o autoconceito e lidar com sentimentos de ansiedade e depressão.

Bibliografia

Grills, A. E., Fletcher, J. M., Vaughn, S. R., & Bowman, C. (2022). Internalizing symptoms and reading difficulties among early elementary school students. Child Psychiatry & Human Development, 1-11. https://doi.org/10.1007/s10578-022-01315-w

AUTORES

João Lopes

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João Arménio Lamego Lopes dirige o projeto AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto (1981), Mestre em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento (Universidade do Porto, 1991) e doutorado em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho (1996). Professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho desde 1995.

Professor Associado com Agregação, da mesma Universidade (2004). Director do Departamento de Psicologia Aplicada (2015-2019) e do Mestrado em Temas de Psicologia da Educação da UM. Director do Programa de Doutoramento em Psicologia Aplicada para os países da CPLP. Presidente do Conselho Cientifico-Pedagógico da Formação Contínua de professores (2014-2018), representante de Portugal no CERI-OCDE (2015-2017) e membro do Conselho Geral do IAVE (2013-2018).

Soraia Araújo

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