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Fundamentos teóricos

A associação entre as dificuldades de leitura e os problemas de comportamento é discutida desde a década de 1970. De acordo com diversos estudos, o desempenho de leitura e o comportamento dos alunos estão indubitavelmente associados. Eis os resultados de alguns estudos: a) Fischbach et al. (2010) verificaram que os alunos com dificuldades na leitura, além de manifestarem problemas de comportamento, exibem dificuldades emocionais e sociais; b) Gasteiger-Klicpera et al. (2006) verificaram correlações fracas a moderadas entre o desempenho na leitura e o comportamento, tendo verificado ainda que quer as dificuldades de leitura, quer os problemas de comportamento, se tornam cada vez mais estáveis ao longo do tempo; c) Hinshaw (1992) e McGee et al. (1986) verificaram que, enquanto nos primeiros anos de escolaridade a hiperactividade e a desatenção são os comportamentos que mais se relacionam com as dificuldades de aprendizagem, na adolescência os comportamentos anti-social e agressivo são os que mais se destacam. No entanto, embora a associação entre as dificuldades na leitura e os problemas de comportamento seja alvo de estudo, continua a ser difícil, como Elies et al. (2021) referem, fazer afirmações claras acerca da direcção e intensidade desta associação.

 

Estudo de Elies e colaboradores

Enquadramento, objectivos e participantes

O efeito halo que, no contexto do presente estudo, pode ser definido como a avaliação ou definição de um aluno, pelo professor, a partir de um único aspecto ou característica, é muito provavelmente um dos factores que dificultam significativamente a compreensão da associação entre as dificuldades de leitura e os problemas de comportamento. Porquê? A resposta é muito simples: porque a capacidade de leitura e, salvo raras excepções, o comportamento dos alunos são avaliados pela mesma pessoa.

Segundo Elies et al. (2021), nenhum estudo parece ter analisado o efeito halo relativamente à influência do desempenho no comportamento, embora haja muitos trabalhos sobre a influência inversa. Os investigadores procuraram, por esta razão, responder às seguintes questões:

  1. Qual é o impacto do desempenho na leitura no comportamento dos alunos?
  2. A relação entre o desempenho na leitura e o comportamento muda se a percepção dos professores acerca da capacidade de leitura e do comportamento dos alunos for controlada?
  3. A percepção dos professores relativamente à capacidade de leitura influencia directamente a sua percepção acerca do comportamento dos alunos? Em caso afirmativo, em que medida isso sucede? Existe um efeito recíproco entre a percepção dos professores acerca da capacidade de leitura e o desempenho dos alunos?

De acordo com Elies et al. (2021), é possível que exista um efeito halo: os professores podem assumir que o baixo desempenho escolar e os problemas de comportamento «caminham juntos» e, assim, extrapolar a presença de problemas de comportamento a partir da sua percepção acerca das dificuldades de aprendizagem dos alunos.

Participaram no estudo 171 crianças do primeiro ano de escolaridade e residentes em Colónia, na Alemanha. A percepção dos professores acerca do comportamento dos alunos foi avaliada no início e no final do ano lectivo, através da a) versão alemã do Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ; Goodman, 1997), que inclui questões sobre problemas emocionais, problemas comportamentais, problemas com os pares e comportamento pró-social, e da b) escala Integrated Teacher Report Form (ITRF; Volpe & Fabiano, 2013), constituída por dezasseis itens. No total, foram avaliadas sete dimensões comportamentais: comportamento de oposição, agressividade, impulsividade, hiperactividade, comportamento pró-social, comportamentos desviantes e depressão.

A percepção dos professores relativamente à capacidade de leitura dos alunos foi avaliada apenas  no final do ano. Os professores responderam a duas questões: uma sobre a evolução do aluno («A criança será, provavelmente, capaz de ultrapassar sem apoio as suas dificuldades?»). Ambas tinham quatro opções de resposta. No final do ano lectivo, o desempenho dos alunos na leitura foi também avaliado, através da leitura de uma lista de palavras e pseudo-palavras, o mais rapidamente possível, durante um minuto.

Principais resultados e conclusões

Elies et al. (2021) verificaram que o desempenho de leitura influencia significativamente o comportamento dos alunos. Os alunos com baixo desempenho na leitura manifestam um comportamento agressivo, impulsivo, hiperactivo, de oposição, e humor deprimido. Estes resultados são consistentes com a literatura.

Os resultados mostraram também que o comportamento dos alunos influencia significativamente o desempenho de leitura. Os investigadores verificaram, especificamente, que os comportamentos externalizados prejudicam seriamente o desempenho escolar. Os resultados mostraram ainda que os alunos com o desempenho mais baixo na leitura tendem a envolver-se, com maior frequência, em comportamentos considerados problemáticos. Segundo Elies et al. (2021), este resultado era interpretado anteriormente como uma reacção dos alunos ao fracasso na leitura. Diversos investigadores defendiam, especificamente, que as dificuldades persistentes em tarefas de leitura provocavam um sentimento de frustração nos alunos, resultando em problemas de comportamento. Porém, como Elies et al. (2021) referem, os resultados do presente estudo põem em causa essa justificação, uma vez que o controlo do efeito halo reduziu consideravelmente os coeficientes correspondentes. Nestas circunstâncias, apenas a influência do desempenho de leitura no comportamento de oposição permaneceu significativo (o contrário, não).

Por último, mas não menos importante, Elies et al. (2021) verificaram que os alunos com problemas de comportamento são considerados pelos professores menos proficientes na leitura. O mesmo sucedeu na relação entre a percepção dos professores acerca da capacidade de leitura e do comportamento: os alunos identificados como leitores menos proficientes são os que, segundo os professores, manifestam mais problemas de comportamento.

Os resultados do presente estudo confirmam, tal como Elies et al. (2021) referem, a afirmação de Agozzine et al. (2011): a avaliação dos problemas de comportamento está significativamente mais correlacionada com a avaliação da capacidade de leitura do que com o desempenho propriamente dito. Além disso, Elies et al. (2021) referem que os resultados não permitem concluir que os alunos tendem a manifestar problemas de comportamento, em resultado das dificuldades de leitura per se. No entanto, tal não significa que os problemas de comportamento manifestados pelos alunos com dificuldades na leitura devam ser desvalorizados. De acordo com Elies et al. (2021), é fundamental ter em atenção que os dados do estudo foram recolhidos no primeiro ano de escolaridade. Segundo a literatura, o impacto dos problemas de comportamento pode tornar-se mais significativo com o avançar da idade. Além disso, algumas crianças manifestam problemas de comportamento antes de iniciar o ensino básico, o que pode ser exacerbado pelos desafios que enfrentam após o início da escolaridade obrigatória, como por exemplo a aprendizagem da leitura e da escrita.

Bibliografia

Elies, A., Schabmann, A., & Schmidt, B. M. (2021). Associations between teacher‐rated behavioral problems and reading difficulties? Interactions over time and halo effects. Journal of Research in Special Educational Needs, 21(4), 368-380. https://doi.org/10.1111/1471-3802.12536

AUTORES

João Lopes

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João Arménio Lamego Lopes dirige o projeto AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto (1981), Mestre em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento (Universidade do Porto, 1991) e doutorado em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho (1996). Professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho desde 1995.

Professor Associado com Agregação, da mesma Universidade (2004). Director do Departamento de Psicologia Aplicada (2015-2019) e do Mestrado em Temas de Psicologia da Educação da UM. Director do Programa de Doutoramento em Psicologia Aplicada para os países da CPLP. Presidente do Conselho Cientifico-Pedagógico da Formação Contínua de professores (2014-2018), representante de Portugal no CERI-OCDE (2015-2017) e membro do Conselho Geral do IAVE (2013-2018).

Soraia Araújo

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