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Dormir é essencial para se ser saudável — sobretudo em períodos de intenso desenvolvimento neurológico, como o da adolescência. E a investigação é clara: não devemos preocupar-nos apenas com os dias da semana.

Tem-se dado o nome de jetlag social à diferença nos horários de sono entre os dias de escola e os fins de semana. Aos sábados e domingos, os adolescentes podem dormir e acordar muito mais tarde do que o habitual, o que faz o corpo entrar num ritmo diferente, semelhante a uma diferença de fusos horários.

Este desajuste pode confundir-se com o atraso natural na produção de melatonina na adolescência, uma mudança biológica do relógio interno que leva os jovens a adormecer mais tarde. No entanto, neste caso, trata-se antes de existir um desfasamento entre os horários de sono durante a semana e no fim de semana, o que obriga o organismo a reajustar-se repetidamente, semana após semana. A má qualidade do sono, quando é reiterada na transição para a puberdade, pode afetar o desenvolvimento dos sistemas neurais e contribuir para o surgimento de transtornos, caso da ansiedade e da depressão. A pior qualidade do sono — tal como indica um estudo de Bradley Brosnan e colaboradores — tem-se associado a maior irritabilidade, problemas de atenção e de saúde e, consequentemente, a pior desempenho cognitivo e académico.

O recente estudo de Illingworth e colaboradores analisou dados de 19 760 participantes e mostrou que as crianças e os adolescentes ingleses entre os 9 e os 18 anos tinham, em média, um jetlag social de 1 hora e 53 minutos. O desfasamento entre os horários de sono estava associado à idade — e certas práticas de rotina e o uso de dispositivos eletrónicos aumentavam o desajuste. Além disso, segundo este estudo, o jetlag social tende a aumentar conforme os jovens avançam na adolescência: atinge um pico aos 15 anos (com uma diferença média de aproximadamente 35 minutos entre esses anos), mas parece diminuir entre os 16 e os 18 anos, altura que os horários de sono voltam a ser mais regulares.

Que podemos fazer para garantir que os jovens dormem bem? Eis três conselhos simples:

  • Definir uma rotina de sono consistente, tanto durante a semana quanto aos fins de semana, recorrendo, por exemplo, à calculadora do sono.
  • Estabelecer limites ao uso de dispositivos eletrónicos (como telemóveis, computadores e consolas de videojogos) antes de dormir.
  • Falar com eles sobre as características do sono e a maneira como funciona o nosso relógio biológico (por exemplo, como o corpo responde à luz natural e artificial).

AUTOR

Joana Rato é psicóloga da educação desde 2003 e doutorada em Ciências da Saúde (na especialidade de Neuropsicologia) pelo Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa (UCP) desde 2014.

Atualmente, é professora associada na Faculdade de Ciências da Saúde e Enfermagem da UCP e investigadora integrada no Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde (CIIS) onde dinamiza o grupo de trabalho Mente, Cérebro e Educação com a colaboração de professores de várias escolas. Em 2013, através do Alumni Award da James S. McDonnell Foundation, participou na 3rd Latin-American School for Educational, Cognitive and Neural Sciences e, em 2015, recebeu o Prémio de Mérito da Fundação D. Pedro IV. Os seus interesses de investigação passam pela neuropsicologia aplicada à educação, com destaque para o papel das funções executivas na aprendizagem de crianças e adolescentes. É autora do ensaio Mente, Cérebro e Educação (2023, FFMS) e co-autora dos livros Neuromitos (Contraponto, 2020) e Quando o cérebro do seu filho vai à escola (Verso de Kapa, 2017).

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