O que muda no nosso cérebro quando aprendemos a andar, a ler ou a tocar violino? Esta é uma das questões respondidas em «A Arte de Aprender», o livro mais recente de Stanislas Dehaene, publicado em parceria com a Iniciativa Educação.
«A Arte de Aprender», de Stanislas Dehaene — um dos oradores principais da primeira conferência da Iniciativa Educação, realizada a 25 de outubro — chegou às livrarias no final do ano passado. A sua publicação resulta de uma parceria com a Iniciativa Educação, no âmbito da sua atividade de divulgação científica sobre educação. O livro reúne evidência científica sólida e acessível sobre os mecanismos da aprendizagem humana, dirigindo-se a professores, pais e a todos os que se interessam por compreender melhor como aprendemos — e como podemos aprender melhor.
Embora as neurociências cognitivas ainda não tenham resposta para todas as perguntas, os avanços das últimas décadas já fornecem informação extremamente relevante para a educação. Neste livro, Stanislas Dehaene explica, por exemplo, como a aprendizagem molda o cérebro e de que forma a sua plasticidade é maior nos primeiros anos de vida, diminuindo significativamente a partir da segunda infância. Este conhecimento ajuda-nos, por exemplo, a compreender a importância de aprender línguas desde cedo.
O livro explora também os conceitos de memória sensorial, memória de trabalho, memória de longo prazo, recuperação e esquemas mentais. Explica-nos que hoje, através da Teoria da Carga Cognitiva, é possível perceber que os temas complexos devem ser ensinados e aprendidos passo a passo, que é importante evitar a dispersão e a profusão de pormenores acessórios que, muitas vezes, acompanham as explicações. Mostra ainda como esta teoria evidencia o papel dos exemplos trabalhados, a importância de reduzir a redundância, mas de proceder à recuperação repetida dos temas, de focar a aprendizagem nos aspetos profundos das analogias e não nas características superficiais.
Em «A Arte de Aprender», Dehaene analisa o impacto da aprendizagem da leitura no cérebro, mostrando como determinadas áreas se desenvolvem quando as crianças beneficiam de uma educação eficaz, baseada no ensino explícito das correspondências grafema-fonema. Graças aos estudos em imagiologia cerebral, é hoje possível observar como essas áreas se transformam em poucas semanas durante o processo de aprendizagem da leitura.
Aborda ainda temas como o sentido numérico dos bebés, o início da aquisição da linguagem ainda no útero, o papel fundamental da atenção e do esforço na aprendizagem escolar e a importância do sono para a consolidação das aprendizagens. O autor explica também como respeitar o relógio biológico, sobretudo durante a adolescência, pode contribuir para melhores resultados escolares.
No que diz respeito à leitura, Dehaene desmonta algumas ideias amplamente difundidas, como a aprendizagem por tentativa de reconhecimento da forma global das palavras, sublinhando a importância do automatismo e da fluência leitora. Defende que a capacidade de ler de forma automática é uma condição essencial para a compreensão dos textos — um princípio que se aplica igualmente à matemática, onde o automatismo na recuperação de factos e na execução de algoritmos ajuda os alunos a ganhar compreensão dos processos e conceitos matemáticos.
O autor desafia ainda o mito de que a avaliação prejudica a aprendizagem. Com base numa vasta investigação científica, Dehaene explica que responder a perguntas e realizar testes ativa processos profundos no cérebro que contribuem para consolidar o que foi aprendido.
A Arte de Aprender é, assim, uma obra de referência para quem procura compreender o processo de aprendizagem e refletir sobre práticas educativas mais eficazes. A parceria com a Iniciativa Educação reforça o compromisso com a disseminação de conhecimento científico rigoroso e acessível, contribuindo para um debate informado sobre educação, ensino e aprendizagem.
Este artigo baseia-se no prefácio do livro «A Arte de Aprender», escrito por Nuno Crato.
Sobre Stanislas Dehaene
Stanislas Dehaene estudou nas grandes escolas parisienses, iniciando a sua formação como matemático e cientista da computação. Enveredou depois para a psicologia e cognição e desenvolveu trabalhos pioneiros sobre temas muito profundos, tais como a reciclagem neuronal, a cognição numérica, a leitura e a consciência.
Atualmente, Dehaene é catedrático do College de France, talvez a mais prestigiada das instituições de investigação e ensino superior do seu país. É ainda diretor científico do centro de investigação Neuro- Spin, em Saclay, onde se encontra o mais poderoso instrumento de imagiologia cerebral do mundo, a imagiologia por ressonância magnética Iseult.
Acresce que o autor tem tido também uma extensa atividade de divulgação científica, com alguns best-sellers sobre a aprendizagem da leitura e da matemática, e com múltiplas intervenções públicas. É presidente do Conselho Científico de Educação Nacional de França, um organismo independente constituído por três dezenas de cientistas.