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Ler em voz alta para as crianças é um investimento com benefícios para toda a vida. No entanto, a competição com os ecrãs tem afastado as famílias dos livros, prejudicando o desenvolvimento da linguagem nos mais novos. Este artigo procura inverter esta tendência através da partilha de ferramentas práticas para trazer de volta o hábito da leitura em família.

É precisamente no ambiente familiar que a literacia ganha vida: são as primeiras conversas com os pais que lançam as bases do vocabulário; os livros criam e fortalecem vínculos afetivos; as histórias ajudam as crianças a descobrir o mundo.

 A ciência mostra-nos que a leitura em voz alta estimula o cérebro dos mais novos das mais diversas formas. Além de desenvolver a fluência verbal e a capacidade de expressão, melhora a memória, a atenção e a compreensão, bem como a empatia e a autorregulação emocional.

Por dominarem a teoria e as práticas de leitura social, os professores podem ajudar a capacitar as famílias para a leitura, estabelecendo uma continuidade formativa entre a escola e a casa. Desta continuidade resultam contextos educativos mais ricos e pequenos leitores mais confiantes e interessados.

Estratégias de leitura interativa

1. Preparação da leitura

A leitura interativa começa muito antes de abrirmos o livro. Para que a experiência seja fluida, o adulto deve ler a história antecipadamente, garantindo que a sua voz consegue transmitir a emoção e o ritmo adequados.

A escolha do livro

Mais do que a idade cronológica das crianças, a seleção dos textos deve ter em conta o historial de cada uma. Que histórias já conhece? Que mundos já explorou? Que palavras já conhece? A seleção deve seguir um caminho progressivo que respeita os interesses e o nível de desenvolvimento linguístico individual:

  • Primeiros passos: Privilegie livros com mais imagem e menos texto, onde o conteúdo segue uma estrutura simples. Padrões rítmicos, rimas e repetições são bons auxiliares, pois facilitam a memorização e o reconhecimento. O melhor será escolher álbuns, dicionários ilustrados e livros que apresentem situações familiares e vocabulário de uso quotidiano, pois permitem que a criança associe imagens às palavras num contexto que já domina.
  • A evolução: À medida que a criança se sente confortável, é possível introduzir textos com maior densidade linguística. As imagens deixam de explicar tudo e passam a ser um complemento da história.
  • O poder da repetição: Tal como acontece com a inclusão de repetições intencionais dentro das histórias, é possível que as crianças peçam para ouvir a mesma historia vezes sem conta. Esta repetição é muito importante, pois permite que a criança memorize a narrativa e consiga antecipar o que vem a seguir, adquirindo gradualmente confiança para contar a história sozinha.
  • Variedade de estilos: As leituras com os mais pequenos não têm de se cingir às histórias ditas infantis. É possível encontrar poesia e textos informativos sobre temas de eleição das crianças (animais, dinossauros, criaturas fantásticas, foguetões…) ajustados aos diferentes níveis de desenvolvimento de cada uma.

A preparação do cenário ideal

A leitura é um ato de atenção conjunta que deve estimular a participação ativa da criança. Para que crianças e adultos se concentrem na história, o ambiente deve estar livre de distrações:

  • Diga não aos ecrãs: Desligue a televisão e afaste os tablets e telemóveis.
  • Proximidade e afeto: Escolha um lugar confortável onde possa haver contacto físico. É importar proporcionar à criança a segurança emocional necessária para que se consiga entregar à história.
  • Rejeite a pressa: A leitura deve ser um momento de prazer, e não mais uma tarefa a cumprir. Leia devagar, respeitando o tempo de compreensão da criança. A qualidade da ligação entre a criança e quem lê a história é mais importante do que o número de páginas lidas.

2. Durante a leitura

Ler para uma criança é muito mais do que descodificar palavras: é uma experiência interativa que promove o afeto e a descoberta.

  • A importância da voz: Uma leitura expressiva é muito mais cativante e eficaz. Mude o tom nos momentos de diálogo e ajuste a velocidade de leitura para dar mais vida às personagens e aos diferentes momentos da ação. Uma leitura expressiva ajuda a criança a perceber as emoções e as intenções por trás de cada palavra.
  • Leia nas entrelinhas: Ajudar a criança a pensar sobre a história é tão importante como a história em si. É possível criar ligações intratextuais e extratextuais que enriquecem a experiência de leitura. Podemos questionar o que levou determinada personagem a agir de certa forma, antecipar possíveis desfechos e articular o conteúdo da narrativa com a experiência das crianças, os seus conhecimentos prévios ou as histórias que leu anteriormente. Este processo contribui para a consolidação de aprendizagens e para o desenvolvimento de competências de literacia.
  • Promova a participação ativa: A leitura deve ser um diálogo, e não um monólogo. Evite perguntas de «sim» ou «não», e prefira perguntas abertas que estimulem o pensamento crítico e a interpretação, como: «Porque achas que a personagem decidiu assim?» ou «O que farias tu nesta situação?».
  • Brinquem com as palavras: Repitam em coro palavras-chave ou expressões significativas do texto. Isto ajudar a fixar vocabulário e traz ritmo e entusiasmo à sessão de leitura.
  • Reformule e valorize: Sempre que a criança fizer um comentário ou responder a uma pergunta, aproveite para enriquecer a linguagem dela. Por exemplo, se a criança disser «O lobo é mau», pode responder: «Sim, o lobo parece assustador. Mas o Capuchinho Vermelho é corajoso!». Desta forma, está a ampliar o vocabular da criança e a melhorar as suas competências comunicativas, introduzindo palavras novas de uma forma natural e positiva.

3. Após a leitura

A leitura de um livro pode ser apenas o início de um processo que consolida a compreensão e promove a expressão criativa das crianças. Depois da última página, há várias formas de ajudar as crianças a transformar a leitura numa aventura criativa.

  • Recriar a história: Recriar o texto exige criatividade e promove o desenvolvimento da linguagem oral. Em vez de recordar apenas o que aconteceu, incentive a criança a criar alterações, desenvolvendo o raciocínio e a imaginação. Peça à criança que altere o final, que mude o cenário ou que introduza uma nova personagem. Eis algumas perguntas que pode usar para facilitar esta nova criação: «E se o lobo tivesse conseguido entrar?» ou «E se a história acontecesse hoje, na nossa cidade, e não num castelo encantado?» ou ainda «Quem mais poderia chegar para ajudar a resolver o problema?»
  • Brinquem com as palavras: Escolha palavras marcantes do livro, como «gato» ou «balão», e desafie as crianças a encontrar rimas. Criar versos («O gato correu atrás do rato e perdeu o sapato»; «O balão fugiu da mão e foi parar ao Japão») é uma forma divertida de compreender e praticar os vários sons da língua, o que favorece a aprendizagem da leitura e da escrita.
  • Façam desenhos: O desenho ajuda a organizar as ideias e a fixar os momentos mais importantes da narrativa. Estimule a expressão visual das crianças pedindo-lhes que pintem a parte de que mais gostaram ou que desenhem a personagem principal numa situação que não surge descrita no livro.
  • Expressão dramática: O teatro é uma excelente forma de estimular o desenvolvimento de competências de comunicação e expressão oral. Além disso, encarnar uma ou outra personagem ajuda a criança a sair de si e a compreender o outro, favorecendo a empatia e a identificação das emoções.

Em suma, se partirmos da leitura de uma história para estimular o diálogo, o teatro, o desenho e a brincadeira, podemos fazer dos livros uma parte significativa da vida das crianças, contribuindo para uma aprendizagem mais ampla e para o desenvolvimento de inúmeras competências fundamentais.

Este artigo é baseado no conteúdo da ação de curta duração «Ler com as crianças: Estratégias de leitura interativa para professores e famílias», promovida pela Academia da Iniciativa Educação. Saiba mais sobre a formação, aqui.

Referências bibliográficas

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Cremin, T., Hendry, H., Chamberlain, L., & Hulston, S. J. (2025). Reading and writing for pleasure: An evidence-informed framework for practice. Routledge/Taylor & Francis.

Desmurget, M. (2024). Ponham-nos a ler! A leitura como antídoto para os cretinos digitais. Contraponto Editores.

Girard, C., Bastelica, T., Léone, J., Epinat-Duclos, J., Longo, L., & Prado, J. (2021). Nurturing the reading brain: home literacy practices are associated with children's neural response to printed words through vocabulary skills. NPJ science of learning6(1), 34. https://doi.org/10.1038/s41539-021-00112-9

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AUTORES

Gabriela Velasquez é coordenadora regional no programa AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Foi docente do 1.º ciclo, estando atualmente aposentada.

Concluiu o Curso do Magistério Primário do Porto em 1978 e, em 1997, obteve o Diploma de Ensino Superior Especializado em Apoio Educativo na Escola Superior de Educação de Santa Maria. É mestre em Formação Psicológica de Professores (2002) e doutorada em Educação, na área da Psicologia da Educação (2007) pela Universidade do Minho. Entre 2010 e 2015, foi professora convidada na Licenciatura em Educação Básica e nos Mestrados em Educação Infantil e de 1.º ciclo, na Escola Superior de Educação de Santa Maria.

Raquel Lemos é licenciada e doutorada em Psicologia, na especialidade de Neuropsicologia, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

É professora auxiliar de Neuropsicologia no ISPA – Instituto Universitário e investigadora na Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud. Os seus interesses de investigação englobam a Neuropsicologia e as Neurociências Cognitivas, com destaque para a memória, a reserva cognitiva e o défice cognitivo.

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