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A morfologia assume um papel crítico no desenvolvimento da alfabetização. A evidência científica tem, inclusive, demonstrado associações robustas entre a morfologia e as competências de literacia, como a leitura, a escrita e a compreensão da leitura. Os modelos teóricos sobre a leitura e escrita continuam, no entanto, a dar muito pouco destaque ao papel da morfologia no desenvolvimento destas competências. Levesque et al. (2021), procuraram inverter essa tendência, analisando, de forma pormenorizada, como pode a morfologia ser integrada nesses modelos.

O trabalho desenvolvido por Levesque et al. (2021) deu origem ao denominado “Modelo das Vias Morfológicas” (do inglês, “Morphological Pathways Framework”; Figura 1). Este modelo tem como objectivo fundamental representar os mecanismos, implícitos e explícitos, através dos quais a morfologia influencia a leitura e escrita. O modelo tem como base a “Estrutura dos Sistemas de Leitura” (Perfetti, Landi, & Oakhill, 2005; Perfetti & Stafura, 2014), que inclui um conjunto diverso de fontes de conhecimento (o Sistema Linguístico, o Sistema de Escrita, e o Conhecimento Geral) que interagem com o sistema cognitivo do leitor, para apoiar a compreensão da leitura.

O papel da morfologia na leitura e escrita

1. Conhecimento do Sistema Linguístico e Ortográfico

A leitura e a escrita, embora sejam conceitos distintos, estão intimamente relacionadas. Levesque et al. (2021) fornecem um exemplo muito simples, que permite compreender essa relação: aprender a ler passa, em primeiro lugar, pela aprendizagem do código ou princípio alfabético, isto é, pela aprendizagem das correspondências grafo-fonémicas ou correspondências letras-sons (por exemplo, as crianças aprendem que a letra ‘p’ soa como /p/). Quando as crianças aplicam este conhecimento na escrita, aprendem que uma escrita correcta requer, entre outras regularidades, a integração de padrões ortográficos e morfológicos. A aprendizagem da leitura depende, assim, da interacção entre a leitura e a escrita. Levesque et al. (2021) estabeleceram uma relação explícita e bidireccional entre o Sistema Linguístico, constituído pela consciência fonológica, sintáctica e morfológica, e o Sistema Ortográfico, composto pelos grafemas e morfemas (Figura 1). 

Modelo das Vias Morfológicas de Levesque et al. (2021)

Figura 1: Modelo das Vias Morfológicas de Levesque et al. (2021)

2. Processos de Identificação de Palavras

De acordo com a “Teoria das Fases do Desenvolvimento da Leitura” (Ehri, 2005), após o domínio do princípio alfabético, os processos morfológicos influenciam a aprendizagem da leitura e escrita. Segundo esta teoria, na fase alfabética consolidada, a descodificação ocorre por intermédio de elementos ortográficos cada vez maiores, como os morfemas. A cada leitura, os morfemas vão repetindo-se, tornando-se elementos ortográficos progressivamente mais consolidados na memória (por exemplo, o contacto frequente com o morfema ‘-mente’, aumentará a eficiência da leitura de palavras que contenham este morfema, como é o caso das palavras ‘felizmente’, ‘mentalmente’ e ‘miseravelmente’).

A “Teoria das Fases do Desenvolvimento da Leitura” (Ehri, 2005) alinha-se, de acordo com Levesque et al. (2021), com outras teorias, como a “Teoria da Dupla-Via”, de acordo com a qual, a leitura pode ocorrer através de duas vias principais: a) a via directa, lexical ou ortográfica, que permite a leitura de palavras familiares; e b) a via indirecta, sub-lexical ou fonológica, que permite a leitura de pseudo-palavras e de palavras desconhecidas.

No “Modelo das Vias Morfológicas”, esses processos ortográficos centrais são aplicados às unidades ortográficas, relacionadas com a representação ortográfica das palavras, e às unidades fonológicas, relativas à conversão dos fonemas em grafemas (Figura 1).

De acordo com Levesque et al. (2021), os morfemas podem constituir uma referência mais precisa e eficiente, para a leitura, do que os padrões ortográficos.

Em primeiro lugar, uma vez que os morfemas são unidades compostas de sentido, podem permitir um acesso mais directo ao significado da palavra. Em segundo lugar, os morfemas contêm informações multidimensionais, constituindo-se como um elo de ligação entre a forma (fonologia e ortografia) e o significado (semântica). Esta ideia alinha-se com a perspectiva de que as representações lexicais de alta qualidade, contêm uma sobreposição de informações ortográficas, fonológicas, sintácticas e semânticas, inerentes aos morfemas. 
Neste sentido, uma vez que o conhecimento morfológico pode aumentar a qualidade das representações lexicais, Levesque et al. (2021) incluíram a morfologia nestas mesmas representações (Figura 1). Os autores do artigo colocam uma questão importante: quando ocorre o processamento morfológico? Diversos estudos revelam não existir verdadeira segmentação morfológica até ao início da adolescência. As palavras parecem ser, inicialmente, processadas reflexivamente em morfemas, baseados na complexidade morfológica - um processo denominado processamento morfo-ortográfico (por exemplo, comer = com+er). Posteriormente, o processamento dos morfemas integra informações semânticas - um processo designado processamento morfo-semântico. Levesque et al. (2021) incluíram as duas formas de processamento no “Modelo das Vias Morfológicas”, conectadas aos processos ortográficos centrais e às representações lexicais (Figura 1). 

Segundo a literatura, a distinção entre a segmentação morfo-ortográfica e morfosemântica equipara-se às discussões acerca da descodificação e da análise morfológica.

A descodificação morfológica opera, muito simplesmente, ao nível da palavra, permitindo decompor palavras morfologicamente complexas, através do acesso ao conhecimento morfológico do leitor  (segmentação morfo-ortográfica). A análise morfológica opera, por sua vez, ao nível do significado da palavra, permitindo que os morfemas apoiem a compreensão de palavras morfologicamente complexas (segmentação morfo-semântica).

No “Modelo das Vias Morfológicas”, a descodificação e a análise morfológica constituem-se como mecanismos-chave para o acesso lexical, exercendo uma influência importante na compreensão da leitura (Figura 1).

Por último, no “Modelo das Vias Morfológicas”, a consciência morfológica influencia os processos de identificação de palavras, através de duas formas possíveis: a) análise morfológica, a partir da qual a consciência morfológica influencia as representações lexicais; e b) apoio no mapeamento dos morfemas da linguagem oral na escrita, permitindo, assim, a descodificação morfológica (Figura 1). 

A morfologia na compreensão da leitura

Os modelos de compreensão da leitura são, de acordo com a literatura, muito limitados, no  que diz respeito à forma como a morfologia influencia a compreensão do texto. A “Estrutura dos Sistemas de Leitura” explicita, no entanto, as diversas funções da morfologia na compreensão. De acordo com este modelo, a morfologia está integrada em dois sistemas: a) no sistema linguístico, através do qual pode influenciar, directa e indirectamente (por intermédio da leitura de palavras), a compreensão da leitura; e b) no sistema lexical, através do qual influencia a compreensão, somente por via indirecta (através do acesso ao léxico). Para Levesque et al. (2021), estas três vias distintas reflectem as diferentes, mas importantes, dimensões da morfologia na compreensão da leitura.

De acordo com a literatura, a consciência morfológica assume um papel fundamental na compreensão da leitura. Esta capacidade, para além de prever, significativamente, a compreensão da leitura, é susceptível, na perspectiva da Levesque et al. (2021), de a influenciar, directa e indirectamente (por intermédio da descodificação e da análise morfológica).

Assim, no “Modelo das Vias Morfológicas”, a consciência morfológica (incluída no sistema linguístico) está ligada à compreensão da leitura, através de uma via directa e de duas vias indirectas: a descodificação morfológica e a análise morfológica (Figura 1). No entanto, é importante ter em conta o seguinte: a consciência morfológica é uma habilidade mais ampla do que os mecanismos de descodificação e de análise morfológica. Além disso, apesar de a incapacidade de ler e/ou compreender palavras multi-morfémicas, dificultar, consideravelmente, a compreensão da leitura, a importância da descodificação e da análise morfológica não deve ser sobrevalorizada. Por essa razão, Levesque et al. (2021) sugerem que a consciência morfológica se constitui como a base de conhecimento que permite a ambos os mecanismos morfológicos operarem durante a leitura. Por outras palavras, a medida em que a descodificação e a análise morfológica facilitam a compreensão da leitura, é limitada pela consciência morfológica.

PRINCIPAIS IDEIAS A RETER:

Levesque et al. (2021) basearam-se num extenso suporte empírico para especificar a multidimensionalidade da morfologia no desenvolvimento da alfabetização, isto é, na aprendizagem da leitura, escrita e compreensão da leitura. O trabalho desenvolvido por este grupo de investigadores resultou num modelo dinâmico, denominado “Modelo das Vias Morfológicas”. Este modelo, fundamentado nas teorias mais influentes acerca da leitura e escrita, especifica os principais mecanismos morfológicos que operam, em paralelo e de forma bidireccional, no desenvolvimento da alfabetização. O “Modelo das Vias Morfológicas”, ao esclarecer e especificar o meio pelo qual a morfologia influencia a aprendizagem da leitura e escrita, pode ter implicações muitíssimo importantes para o ensino desta componente na sala de aula.


Referência Bibliográfica: Levesque, K. C., Breadmore, H. L., & Deacon, S. H. (2021). How morphology impacts reading and spelling: Advancing the role of morphology in models of literacy development. Journal of Research in Reading, 44(1), 10-26.

AUTORES

João Lopes

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João Arménio Lamego Lopes dirige o projeto AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto (1981), Mestre em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento (Universidade do Porto, 1991) e doutorado em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho (1996). Professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho desde 1995.

Professor Associado com Agregação, da mesma Universidade (2004). Director do Departamento de Psicologia Aplicada (2015-2019) e do Mestrado em Temas de Psicologia da Educação da UM. Director do Programa de Doutoramento em Psicologia Aplicada para os países da CPLP. Presidente do Conselho Cientifico-Pedagógico da Formação Contínua de professores (2014-2018), representante de Portugal no CERI-OCDE (2015-2017) e membro do Conselho Geral do IAVE (2013-2018).

Soraia Araújo

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