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Todos os dias nos deparamos com problemas que podem ter índole matemática e cujas soluções implicam relacionar dados para obter a resposta correta. Isto também é verdade no caso dos problemas ditos verbais narrativos. Mas que capacidades são mais importantes para a resolução deste tipo de problemas? O que conta é a velocidade de processamento, ou tudo começa na interpretação do conteúdo? Um novo estudo científico reforça o pressuposto de que resolver problemas verbais de matemática não envolve apenas dominar a matéria, ainda que este fator seja determinante.

O programa e as metas curriculares de matemática para o ensino básico, publicados pelo Ministério da Educação, indicam que a resolução de problemas verbais requer a aplicação de conhecimentos matemáticos (factos, conceitos e relações, regras e procedimentos) e capacidades linguísticas (leitura e interpretação de enunciados). O documento refere que esta capacidade é transversal ao ensino, sendo uma via facilitadora da aprendizagem da matemática. No entanto, a resolução de problemas verbais de matemática pode ser desafiadora para muitos alunos, especialmente aqueles que têm dificuldades na disciplina ou estão em risco de as desenvolver.

Uma das mais recentes meta-análises sobre os preditores da resolução de problemas verbais, realizada por Xin Lin, recorre a uma técnica estatística multivariada (modelo de equações estruturais) que tenta clarificar os contributos das capacidades cognitivas e matemáticas nestas atividades por alunos do ensino básico. A investigação avaliou fatores como a compreensão da linguagem, a memória, a atenção ou o raciocínio não verbal (recursos cognitivos) e a compreensão de leitura, o vocabulário ou a recuperação e aplicação de factos (capacidades matemáticas). Analisaram-se 98 estudos empíricos e criaram-se subgrupos de análise para alunos mais novos e mais velhos (do pré-escolar ao 2.º ano versus do 3.º ao 5.º ano).

No subgrupo de alunos mais novos destacou-se a recuperação de factos matemáticos, que utiliza recursos cognitivos, como o planeamento, para resolver problemas mais complexos. No subgrupo de alunos mais velhos demonstrou-se a importância do vocabulário matemático.

A solução começa no vocabulário

Um dos fatores mais importantes a considerar é o aumento progressivo da utilização de termos técnicos nos exercícios que os alunos devem resolver, que por sua vez implica um afastamento da linguagem simples e quotidiana. Nos primeiros anos, são apresentados problemas como: «A Maria tem duas laranjas e a Inês tem três. Quantas laranjas têm ao todo?» Nas idades posteriores, o vocabulário usado é mais complexo, surgindo perguntas como: «Todos os lados da Figura X são congruentes. O comprimento de um lado da figura é de 3 cm. Qual é o perímetro da Figura X?» É, pois, natural que as capacidades académicas possam ter diferentes contributos em função do vocabulário matemático utilizado. Daí que, para os alunos mais velhos, seja determinante dominarem o vocabulário praticado para conseguirem encontrar as soluções.

Este trabalho de análise esclarece que resolver problemas verbais requer a consolidação das capacidades cognitivas e académicas. O estudo indica também que a relevância destes recursos pode diferir com a idade, como mostra a maior facilidade dos alunos mais velhos para fazer inferências. Conclui-se que ajudar os alunos a acumular conhecimento académico, sendo um facilitador da flexibilidade cognitiva, é também fundamental para a resolução de problemas verbais.

Bibliografia

Damião, H., Festas, I., Bivar, A., Grosso, C., Oliveira, F., & Timóteo, M. C. (2020). Programa e Metas Curriculares de Matemática — Ensino Básico. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Basico/Metas/Matematica/programa_matematica_basico.pdf

Lin, X. (2020). Investigating the unique predictors of word-problem solving using meta-analytic structural equation modeling. Educational Psychology Review. https://doi.org/10.1007/s10648-020-09554-w

Powell, S. & Stevens, E. A. & Berry, K. (2019). Effects of a Word-Problem Intervention on Word-Problem Language Features for Third-Grade Students with Mathematics Difficulty. Learning Disabilities: A Multidisciplinary Journal. 24. 1-14. 10.18666/LDMJ-2019-V24-I2-9835.

AUTOR

Joana Rato é psicóloga da Educação desde 2003 e doutorada em Ciências da Saúde (na especialidade de Neuropsicologia) pelo Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa (UCP) desde 2014. Actualmente trabalha no Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde (CIIS) da UCP e desenvolve o projecto Mente, Cérebro e Educação com a colaboração de professores de várias escolas. Em 2013, através do Alumni Award da James S. McDonnell Foundation, participou na 3rd Latin-American School for Educational, Cognitive and Neural Sciences e, em 2015, recebeu o Prémio de Mérito da Fundação D. Pedro IV. Os seus interesses de investigação passam pela Neuropsicologia aplicada à Educação com destaque para a avaliação neuropsicológica de crianças e adolescentes. É co-autora do livro “Quando o cérebro do seu filho vai à escola”.

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