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O 'stress' agudo, como o desencadeado por um exame importante, pode afetar a capacidade de recordar a matéria. No entanto, investigações científicas mostram que usar a prática da recuperação, ou seja, testar-se a si próprio com frequência, pode anular esse efeito.

A escola pode criar bastante ansiedade em circunstâncias normais, a que se junta um ano de 2020 particularmente difícil para muitos alunos. Vários estudos mostraram que o stress agudoa – um tipo de stress desencadeado por situações específicas – pode afetar a capacidade humana de recuperar informação, pelo que os efeitos deste tipo de pressão podem ser muito prejudiciais para a aprendizagem.

Se os alunos estiverem ansiosos antes de um teste importante, quer seja por causa do teste, quer seja por outro motivo, é provável que tenham menos capacidade de recordar a matéria e acabem por ter um pior desempenho no teste! 

Felizmente, alguns dados mostram que as técnicas de estudo baseadas na prática da recuperação, ou seja, no teste de conhecimentos, podem atenuar a inibição de memória causada pelo stress1. Num estudo publicado na prestigiada revista Science, Amy Smith e colegas (2016) investigaram o efeito da pressão na capacidade de recordar informação. Para o efeito, os investigadores criaram quatro grupos de participantes

  1. Os que usaram a prática da recuperação e realizaram uma atividade não stressante
  2. Os que usaram a prática da recuperação e realizaram uma atividade stressante
  3. Os que voltaram a estudar a informação e realizaram uma atividade não stressante
  4. Os que voltaram a estudar a informação e realizaram uma atividade stressante

Na primeira fase do ensaio, todos os participantes estudaram nomes e imagens. Embora os materiais utilizados sejam considerados básicos, como é expectável na etapa inicial do modelo lab to classroomb, permitiram que os investigadores estabelecessem relações de causa e efeito2. Na segunda fase, foi pedido a metade dos participantes que procurassem lembrar-se do máximo de nomes e imagens possível, ou seja, que usassem a prática da recuperação, e à outra metade que voltasse a estudar os materiais.

Vinte e quatro horas após a fase de aprendizagem, todos os participantes regressaram ao laboratório, para completar a terceira fase do ensaio. Aqui, foi atribuída uma atividade stressante a metade dos participantes, que tiveram de fazer um discurso e resolver problemas de matemática em frente a dois juízes e a três dos seus pares. Durante a atividade, Smith e colegas avaliaram a resposta fisiológica dos participantes para confirmarem que se encontravam sob stress. Os restantes participantes realizaram uma atividade simples e não stressante. Os investigadores testaram a memória de todos os participantes imediatamente após o início das atividades e, novamente, passados 25 minutos.

A prática da recuperação reduz os efeitos negativos do stress | Iniciativa Educação

Eis as principais conclusões:

  1. No geral, os participantes cuja aprendizagem se baseou na prática da recuperação tiveram um melhor desempenho do que os participantes que voltaram a estudar os materiais.
  2. O stress agudo afetou a memória dos participantes que voltaram a estudar os materiais. O desempenho deste grupo não foi afetado no imediato, mas piorou visivelmente passados 25 minutos, ao contrário do que aconteceu com o grupo que não estava stressado. 
  3. O stress agudo não afetou a memória do grupo cuja aprendizagem se baseou na prática da recuperação, nem mesmo passados 25 minutos.

Por outras palavras, a aprendizagem baseada na recuperação de informação parece contrariar a inibição de memória provocada por estes picos de ansiedade. Estas conclusões têm implicações práticas para os alunos que realizam testes ou exames altamente exigentes e stressantes. É frequente os alunos sentirem-se stressados várias horas antes de um exame e durante o próprio exame. Ao utilizarem a prática da recuperação para se prepararem para um teste ou exame particularmente stressante, os alunos poderão estar a melhorar os seus resultados globais de aprendizagem e a impedir que o seu desempenho seja afetado pela pressão.

Por outro lado, importa notar que alguns estudos sugerem que o ato de evocar informação pode gerar níveis elevados de pressão e ansiedade – que são formas de stress agudo – em determinadas circunstâncias3.  Esta tese faz sentido, na medida em que se o stress agudo pode condicionar a memória, qualquer atividade stressante associada a esta prática deverá torná-la menos eficaz. 

Levando todos estes fatores em consideração, parece que a aprendizagem baseada na prática da recuperação, desde que não envolva atividades stressantes, potencia a aprendizagem e ajuda a prevenir as inibições de memória provocadas pelo stress, quer em exames mais exigentes, quer em situações de ansiedade em que os alunos tenham de aplicar os seus conhecimentos (como por exemplo, numa entrevista de emprego ou no desempenho de um cargo profissional).

Como acontece, não raras vezes, em investigação, os resultados práticos destas conclusões poderão ser variáveis. É possível que diferentes tipos de stress, ou as diferentes formas como cada pessoa lida com o stress alterem os resultados destas descobertas. Não há dúvida de que ainda há muito trabalho importante a realizar nesta área!

Versão portuguesa por acordo com The Learning Scientists.

Referências

a O stress agudo difere do stress crónico na medida em leva o organismo a produzir uma carga iterativa e relativamente constante de hormonas de stress. Para mais informações sobre as diferenças, consulte esta página do Centro de Estudos sobre o Stress Humano (CSHS), ou assista a este vídeo de três minutos em que Robert Sapolsky fala sobre a psicologia do stress. Caso pretenda aprofundar os seus conhecimentos sobre os efeitos do stress na saúde, recomendo o livro «Porque é que as zebras não têm úlceras»  e uma palestra de 90 minutos sobre este tópico, ambos do mesmo autor. Além de extremamente entendido na matéria, Robert Sapolsky é um orador e escritor altamente cativante!

Nota de tradução: Lab to classroom («Do Laboratório para a Sala de Aula») é um modelo de investigação em educação cuja primeira etapa se inicia em laboratório, com materiais mais simples, num ambiente artificial e altamente controlado, progredindo posteriormente, e de forma faseada, para contextos reais.

1 Smith, A. M., Floerke, V. A., & Thomas, A. K., «Retrieval practice protects memory against acute stress», Science, 354(6315), 2016, pp. 1046-1048.

2 Weinstein, Y., & Sumeracki, M. A., «Understanding how we learn: A visual guide», David Fulton, Routledge, 2019.

3 Hinze, S. R., & Rapp, D. N., «Retrieval (Sometimes) Enhances Learning: Performance Pressure Reduces the Benefits of Retrieval Practice», Applied Cognitive Psychology, 28, 2014, pp. 597-606.

AUTOR

Megan Sumeracki (antes Megan Smith) é professora auxiliar no Rhode Island College. Co-fundou o Learning Scientists, em janeiro de 2016, com Yana Weinstein, que já não faz parte da equipa.

Megan concluiu o seu mestrado em Psicologia Experimental na Universidade de Washington, em St. Louis, e o seu doutoramento em Psicologia Cognitiva na Universidade de Perdue. A sua área de especialização é a aprendizagem e memória humana, e aplicação da ciência da aprendizagem em contextos educacionais. A sua investigação centra-se nas estratégias de aprendizagem baseadas na recuperação, e a forma como as atividades que promovem a recuperação podem melhorar a aprendizagem na sala de aula. Tenta responder a questões como: Que formatos de práticas de recuperação promovem a aprendizagem dos alunos? Que atividades de práticas da recuperação funcionam melhor para diferentes tipos de alunos? E, porque é que a recuperação melhora a aprendizagem? Nos seus tempos livres, Meg faz crochet e recentemente começou um blog onde mostra os seus trabalhos. Também gosta de viajar, fazer caminhadas, acampar e de provas de vinho.

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