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Há diferenças nas habilidades matemáticas das crianças ainda antes de elas entrarem no ensino básico. As que começam por ter mais dificuldades mantêm, e até tendem a aumentar, a distância aos seus pares ao longo dos anos. Poderão as famílias contribuir para que todas as crianças tenham um melhor ponto de partida? Um estudo recente mostrou que mais atividades matemáticas informais entre pais e filhos aumentaram as habilidades matemáticas formais das crianças na pré-escola.

As habilidades matemáticas nos primeiros anos de escola, tais como as de contar, são fortes preditores do desempenho posterior em matemática e leitura. Para desenvolvermos estratégias eficazes para a aprendizagem matemática, é essencial identificarmos os fatores e os preditores associados à boa aquisição destas habilidades.

Recentemente, uma equipa encabeçada pelo investigador chinês Xiao Zhang analisou o envolvimento dos pais em atividades matemáticas na pré-escola como fator potencial de aprendizagem matemática no 1.º ano de escolaridade.

 

Que atividades matemáticas fazem os pais com os filhos?

De acordo com uma ideia há muito avançada pelo psicólogo russo Lev Vygotsky, entre outros, a cultura, a comunidade e as interações sociais são indispensáveis na aprendizagem e no desenvolvimento das crianças. De facto, vários estudos têm mostrado uma ligação entre o ambiente familiar e, por um lado, vários aspetos das atividades entre pais e filhos, por outro, a aprendizagem inicial das crianças, sobretudo na literacia. No entanto, são menos os que se têm dedicado a estudar o impacto destas atividades entre pais e filhos na matemática.

Os pais, nas interações com os filhos, podem realizar dois tipos de atividades matemáticas: formais e informais. Nas formais, os pais ensinam direta e intencionalmente matemática aos filhos em atividades que podem ser numéricas (como contar objetos e escrever números) e de leitura (por exemplo, ler livros de histórias com números). Nas informais, realizam jogos numéricos (de cartas ou de tabuleiro) e tarefas do mundo real aplicadas (cozinhar, fazer compras) em que a aquisição da matemática é secundária.

Distinguem-se dois tipos de conhecimentos matemáticos: o simbólico, ou formal, que envolve todo o sistema numérico simbólico (por exemplo, a escrita de dígitos árabes), e o não-simbólico, ou informal, que envolve a representação e manipulação de quantidades sem símbolos associados (por exemplo, operações com objetos).

Que atividades promovem habilidades matemáticas?

Um estudo do investigador chinês Xiao Zhang e seus colaboradores visou avaliar como as atividades matemáticas formais e informais exercem efeitos imediatos e duradouros nas habilidades matemáticas formais (simbólicas) e informais (não-simbólicas) das crianças. Para isso, acompanharam 192 crianças chinesas da pré-escola ao 1.º ano de escolaridade e administraram, em três momentos diferentes, um teste estandardizado que distingue a matemática formal da informal.

Descobriu-se assim uma nova e importante relação entre as atividades matemáticas iniciais em família e as habilidades matemáticas das crianças. A frequência das atividades matemáticas formais entre pais e filhos não se associou às trajetórias de desenvolvimento da matemática formal ou informal das crianças, ou seja, as atividades formais entre pais e filhos não surtiram efeito. Além disso, a maior frequência das atividades matemáticas informais (jogos numéricos e atividades aplicadas, em particular) esteve associada a maiores habilidades matemáticas formais das crianças na pré-escola, mesmo controlando-se o efeito de variáveis como a idade da criança, o sexo, o estatuto socioeconómico da família e práticas parentais positivas e negativas. Por fim, o envolvimento dos pais em atividades informais nos anos da pré-escola foi um preditor significativo da taxa de crescimento das habilidades matemáticas formais do 1.º ano de escolaridade.

 

Como se explica que as atividades informais promovam as habilidades matemáticas formais?

Estas descobertas sugerem que as atividades informais, sobretudo jogos com números e atividades aplicadas, promovem a aprendizagem ativa da matemática; por exemplo, jogar cartas ou olhar para um relógio, num contexto informal, motiva a criança a aprender os números árabes. Neste contexto, os pais não assumem um papel típico de professor, mas antes de apoio.

Muitas atividades informais, tais como ver as horas ou fazer compras, contêm grande quantidade de informação acerca do sistema numérico simbólico. Envolver as crianças nestas atividades dá-lhes a oportunidade de aprender símbolos numéricos e aritméticos. As atividades informais que não envolvem o sistema numérico simbólico (por exemplo, comparar linhas e conjuntos) podem ajudar à compreensão não-simbólica das quantidades, que a criança usará para fazer a ligação entre símbolos numéricos e aritméticos e quantidades não-simbólicas.

Além disso, as atividades informais aplicadas (são exemplos, como vimos, cozinhar ou fazer compras) tiveram maior efeito nas habilidades matemáticas no 1.º ano. Segundo o estudo, há quatro razões para isso.

Primeiro, as atividades informais aplicadas dão oportunidades de interagir com conteúdo relacionado com a vida e promovem a aprendizagem útil, levando a que se retenha a informação.

Segundo, os números e as quantidades fazem parte do quotidiano. O envolvimento dos pais leva as crianças a centrarem-se espontaneamente na numeracia, mesmo quando os pais estão ausentes. Por exemplo, falar de dinheiro quando vão às compras pode levar as crianças a ler as etiquetas dos preços no supermercado.

Terceiro, estas atividades informais aplicadas podem aumentar a motivação e o interesse das crianças, levando-as a envolver-se de maneira continuada e a explorar com objetivos.

Por fim, os pais que mais se envolvem precocemente com os filhos nestas atividades são os que apresentam maior envolvimento posterior, o que pode levar os filhos, com o tempo, a apresentarem melhores resultados.

 

Em suma…

Porque as habilidades matemáticas das crianças no 1.º ano têm influência no seu desenvolvimento posterior, as que estão em idade pré-escolar beneficiam se as famílias fizerem:

— atividades informais aplicadas de aprendizagem da matemática: usar calendários ou agendas, somar preços de compras com a calculadora;

— jogos numéricos: jogos matemáticos com cronómetro, jogos de tabuleiro, coleções de cromos, entre outras atividades.

Estes jogos e atividades ajudam as crianças a apreciar a utilidade dos conceitos da matemática no mundo real, e terão efeitos benéficos persistentes no desenvolvimento das suas habilidades.

Bibliografia

Sénéchal, M., & LeFevre, J. A. (2014). Continuity and change in the home literacy environment as predictors of growth in vocabulary and reading. Child Development, 85, 1552-1568. http://dx.doi.org/10.1111/cdev.12222

Skwarchuk, S. L., Sowinski, C., & LeFevre, J. A. (2014). Formal and informal home learning activities in relation to children’s early numeracy and literacy skills: The development of a home numeracy model. Journal of Experimental Child Psychology, 121, 63-84. http://dx.doi.org/10.1016/j.jecp.2013.11.006

Vygotsky, L. S. (1978). Mind in Society: The Development of Higher Psychological Processes. Harvard University.

Zhang, X., Hu, B. Y., Zou, X., & Ren, L. (2020). Parent-child number application activities predict children’s math trajectories from preschool to primary school. Journal of Educational Psychology, 112(8), 1521-1531. https://doi.org/10.1037/edu0000457

AUTORES

Psicólogo, doutorado em Psicologia Cognitiva e licenciado (pré-Bolonha) pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa (FPUL), especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, com especialidade avançada em Neuropsicologia, pela Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Psicólogo Clínico/Neuropsicólogo no Instituto de Psicologia das Relações Humanas, e no Serviço à Comunidade da FPUL nas Unidades de Intervenção de Neuropsicologia Clínica Cognitiva (NCC) das Dificuldades Específicas da Aprendizagem e NCC, do Envelhecimento e das Demências, e em clínica privada, desde 2000.

Colaborou e colabora em vários projetos de investigação, entre eles:

  • Estudo Psicolinguístico Longitudinal no âmbito do Plano Nacional de Leitura intitulado «Estabelecimento de níveis de referência do desenvolvimento da leitura e da escrita do 1.º ao 6.º ano de escolaridade», investigador responsável pela secção de estudo «Escrita e Conhecimento Ortográfico», de 2008 a 2010;
  • «Influência da consciência morfológica e do vocabulário nas habilidades de leitura e de escrita em estudantes universitários». FPUL (2016-presente).
  • Estudos de adaptação e validação do Coin in Hand - Extended Version, versão revista do Coin in Hand Test (Kapur, 1994), numa amostra portuguesa. Instituições intervenientes: FPUL, Universidade de Granada, Universidade de Harvard (2017-presente).

 Os seus trabalhos de investigação inserem-se no âmbito da Psicologia Cognitiva da Leitura, da Escrita e da Matemática.

Professora Auxiliar da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa (FPUL) onde tem vindo a lecionar, desde 2001, unidades curriculares no âmbito das Ciências Cognitivas, entre elas, Perceção, Atenção e Memória, Perturbações Específicas do desenvolvimento Cognitivo e Intervenções Psicoeducacionais. Psicóloga Clínica e da Saúde, com especialidade avançada em Neuropsicologia, pela Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Doutorada em Psicologia Cognitiva pela FPUL, com tese intitulada «Aprendizagem da Leitura no Português Europeu: Relações entre Fluência na Leitura Oral, Vocabulário e Compreensão em Leitura». Coordenadora responsável pelas Unidades de Intervenção de Neuropsicologia Clínica Cognitiva (NCC) das Dificuldades Específicas da Aprendizagem e NCC do Envelhecimento e das Demências do Serviço à Comunidade da FPUL. Editora da Revista Iberoamericana de Diagnóstico y Evaluación - e Avaliação Psicológica.
 
Os seus interesses de investigação centram-se nos Processos Cognitivos envolvidos no desenvolvimento da Leitura (e compreensão em leitura) e da Escrita.

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